Julian Barnes nunca deixa de surpreender, ainda que o leitor já saiba o que o espera: prosa exímia, elegância máxima, chegada subtil de questões filosóficas, de dilemas que deixam as personagens em encruzilhadas. Elizabeth Finch não difere. Não sendo o mais pungente dos romances do autor inglês, tem os traços que lhe marcam a prosa e a capacidade habitual de deixar o leitor numa espécie de transe.

Se o narrador é Neil, Elizabeth Finch é a protagonista. Professora de Cultura e Civilização, apanhou Neil como aluno, já em adulto. A personagem de Finch encanta pelo rigor. A sua forma de pensar e agir pode ser intimidante, o que muitas vezes funciona como sinónimo de apaixonante. A sua elevação intelectual é permanente, o que faz dela acutilante e instigante, moldando as formas de pensar dos alunos pela expansão. Ao descrevê-la tanto intelectual como fisicamente, Neil vai-lhe dando logo um tom de mito.

Os dois conhecem-se, passam a ter o hábito de almoçar umas duas vezes por ano. Quando se encontram, há hábitos (o mesmo restaurante, a mesma frase de reencontro), mas há sempre uma ideia que faz de cada encontro uma descoberta. Quando Finch morre, Neil figura no testamento, herdando-lhe a biblioteca e os diários. Com Neil, também o leitor descobre Finch no pós-morte, e esta descoberta foi bem feita por Barnes. O mistério de Neil vai sendo o mesmo de quem o lê. A descoberta que faz é simultânea com a de quem experiencia o romance. Enquanto se lê, está-se dentro do livro, na medida em que se acredita na voz que narra e em que os diários parecem sempre coisa inédita. Ao mesmo tempo, o encantamento de Neil é uma boa manipulação por parte do autor. Ao entrar nos diários, pega-se neste ou naquele parágrafo, nesta ou naquela ideia, e percebe-se a elevação intelectual de Finch, o que significa que o autor teve de ser essa elevação e de escrever o romance de um ponto de vista mais crédulo ou menos sabedor, construindo duas personagens e, partindo de uma, evidenciado as características da outra.


Título: Elizabeth Finch
Autor: Julian Barnes
Editora: Quetzal
Tradução: Salvato Teles de Menezes

A partir dos diários, faz-se uma incursão no passado, principalmente através da história de Juliano, o Apóstata. O livro é composto por três partes e toda a segunda é isto. É aqui que a narrativa se perde, ainda que os elementos sejam todos partes integrante da sua proposta. A questão é que quando o leitor lê o ensaio de Neil sobre Juliano já tem de levar a leitura para outro lado. Já se perde a dimensão de mistério e de admiração, já passa a haver distanciamento com as personagens e não há como não pensar que a acção encrava. De repente, a relação faz-se quase académica, e a verdade é que, para quem foi apanhado pelo duo, é quase indiferente se o ensaio é sobre Juliano ou Hitler ou outro qualquer. O que estava em causa era a relação de estímulo intelectual, de acutilância permanente, do vazio que fica num amor (seria amor?) que se foi cumprindo parcamente. A incapacidade de Neil lidar com o entendimento da própria relação também é um dos pontos fortes do livro. Nem ele entende bem que tipo de amor era aquele – não seria uma amizade, mas não seria conjugal. Erótico só num ou noutro sonho mais distante. Como o mistério ia moldando tudo, como pouco sabia da vida de Finch, principalmente interior, vai-se criando a personagem como um mito. Também isso acende uma ideia de paixão, se à paixão estão associados o vício, a curiosidade, a dedicação.

Também o leitor fica preso no mistério, também ele quererá conhecer o que não tem. E resta-lhe, por isso, o que Finch podia e queria dar. Como os seus alunos, também os leitores são encaminhados para a avaliação da História, para uma vontade militante de estudar e questionar. O amor platónico também funciona como agente da pulsão, já que tudo encaminha à descoberta.

De resto, como questões paralelas ganham demasiado espaço, o solavanco formal, por bem apresentado que seja, também esvazia a narrativa da sua parte dramática ou emocional. Ao elevar-se do quotidiano, por vezes entra num espaço de exegese que já não interessa ao romance. Ainda assim, como habitual em Barnes, cabe dizer que a prosa é escorreita, vai ao essencial, deixa o leitor com a personagem. Elegância pura em movimento, não tem uma palavra que possa fugir do tom.

A autora escreve segundo a antiga ortografia