Não, a comédia romântica ao jeito clássico ainda não é uma espécie cinematográfica completamente extinta em Hollywood. Isto embora, a julgar por “Bilhete para o Paraíso”, seja precisa uma considerável ajuda dos ingleses para a manter viva e a mexer como deve ser. Ol Parker, o realizador e co-argumentista, é inglês, como também o são dois dos principais produtores, Tim Bevan e Eric Fellner, da duradoura Working Title Films, responsável por títulos como “Notting Hill”, “Quatro Casamentos e um Funeral”, “Orgulho e Preconceito” ou “O Diário de Bridget Jones”. São pergaminhos respeitáveis.
[Veja o “trailer” de “Bilhete para o Paraíso”:]
Um filme destes requer necessariamente um ator e uma atriz que tenham estatuto inquestionável de estrelas, e que estejam tão bem um para o outro como o Verão e a praia. E “Bilhete para o Paraíso” tem-os: Julia Roberts e George Clooney (também são produtores executivos), que apesar de, contando com esta fita, já terem contracenado cinco vezes no cinema (duas dos quais na série dos “Ocean”), nunca haviam entrado numa comédia romântica. E é caso para dizer que é uma pena que isso não tenha acontecido muito mais cedo.
[Veja George Clooney e Julia Roberts falarem sobre o filme:]
Roberts e Clooney interpretam Georgia e David, uma “marchand” de arte e um arquiteto, respetivamente, que foram casados, tiveram uma filha, Lily (Kaitlyn Dever), advogada recém-formada, divorciaram-se no meio da maior acrimónia e não se podem ver um ao outro nem pintados. Só que Georgia e David têm que enterrar o machado de guerra temporariamente quando Lily, que foi de férias com a melhor amiga para Bali, lhes faz saber que conheceu lá um rapaz, Gede (Maxime Bouttier), que cultiva algas marinhas para exportação, pelo qual se apaixonou e com o qual vai casar. Para os pais desavindos, Lily vai cometer o mesmo erro que eles há 25 anos, pelo que se precipitam para Bali para sabotar o matrimónio.
[Veja uma entrevista com Kaitlyn Dever e Maxime Bouttier:]
“Bilhete para o Paraíso” cumpre, competente, escrupulosamente e usando da requerida leveza de tom, com o caderno de encargos escapista, exótico, cómico e sentimental deste formato tal como o argumento o contempla. E revela mesmo uma costela tradicionalista na maneira como encara o significado e a importância do casamento, com Lily e Gede, bem como os progenitores deste e sua família, a darem o exemplo aos desencantados e descrentes pais dela. É mérito do filme que, embora saibamos perfeitamente tudo o que vai acontecer e onde a história irá desembocar, queiramos estar na companhia das personagens até ao desenlace, e o continuemos a seguir entretidos e com agrado até ao fim.
[Veja cenas da rodagem:]
https://www.youtube.com/watch?v=uGcv-GDjBLk
Ol Parker fica a dirigir com discrição e deixa todo o terreno à disposição de Julia Roberts e George Clooney, que ativam o charme, passeiam o seu “star power” e assumem o grosso das despesas dos diálogos metralhados, das réplicas venenosas e da comédia “slapstick” e de enganos (a páginas tantas, o namorado de Georgia, um piloto de aviões francês, mais novo que ela e prestável até ao enjoo, aparece de surpresa em Bali para a pedir em casamento), assim como de alguma melancolia, bem coadjuvados por Dever e Bouttier no casalinho mais novo, e rodeados por secundários que espremem todo o sumo das suas personagens, caso de Billie Lourd na amiga pândega e copofónica de Lily. “Bilhete para o Paraíso” dá aquilo que promete e ganha o seu cantinho na linhagem do género.