Em 2017, um ano depois de David Bowie ter morrido, Brett Morgen já estava a preparar este “Moonage Daydream”, documentário-evento sobre David Bowie, num momento em que, em simultâneo, preparava um piloto para a Marvel. Com 47 anos (nasceu em 1968) tem um ataque cardíaco (uma forma possível – extrema — de alguém se separar de um projeto de tamanhas dimensões). Ficou em coma, recuperou e essa experiência, chamemos-lhe assim, levou-o a reconsiderar tudo o que queria fazer com o seu documentário em volta de Bowie. Pensou na ideia do tempo a pensar, de envelhecer, de como se enfrenta a mortalidade (e o facto de a morte poder ser inesperada) e como nos agarramos à vida – e a transformamos – para vencer essa inevitabilidade. Eis então “Moonage Daydream” em estreia nas salas, apresentado na última edição do Festival de Cannes e com uma passagem no cinema de apenas uma semana. Um acontecimento, uma oportunidade que irá passar rápido.
Evento? Não poderia ser de outra forma. Seja para falar da vida de David Bowie, como do realizador Brett Morgen. O norte-americano, hoje com 51 anos (quase a fazer 52), tem no currículo ótimos documentários, “Cobain: Montage Of Heck”, “Jane”, sobre Jane Goodall, e o muito recomendado “The Kid Stays In The Picture”, sobre o produtor Robert Evans, que chamou logo a atenção para o trabalho de Morgen no início deste século. Não é pessoa de fórmulas, por isso “Moonage Daydream” é para existir como uma experiência, como um acontecimento imperdível: daí a sua curta permanência em exibição.
[o trailer de “Moonage Daydream”:]
Mas o que são estes 140 minutos? O realizador concentrou-se apenas na vida de David Bowie enquanto artista, procurou montar uma história da sua existência, do culto, de uma gloriosa celebração, através de imagens de arquivo, seja registos ao vivo – muitos são pouco vistos e muito surpreendentes – ou aparições na televisão, bem como trabalho de Bowie além-música (como se tudo fosse separável), como os seus trabalhos em vídeo ou pintura. Uma montagem que conta uma história, feita de forma tão visual – e “bowieana” – que justifica uma existência para lá do documentário.
Morgen disse-o numa entrevista ao The Guardian há poucos dias: “Se és um fã hardcore, há material suficiente para te saciar. Se não conheceres a vida tão a fundo, passares por esta experiência pode ser algo de luminoso.” A “experiência” é a vida de Bowie enquanto celebração. De outra forma não poderia ter sido e quando Morgen refere “material”, refere-se, entre muitas outras coisas, a inúmeras entrevistas que Bowie deu ao longo da vida, algumas das quais usadas no filme e que motivam, ou reforçam, a construção de uma personagem, de uma estrela pop. Há momentos que, uma vez vistos, não se esquecem, como excertos da entrevista a Dick Cavett (se nunca viu, vai sempre a tempo), um daqueles – raros – momentos de televisão que ultrapassa o próprio Bowie.
Tal como noutros trabalhos de Morgen, este deixa-se contaminar pelo universo do artista que representa. Uma forma de comunicar, de quase se abandonar para deixar a obra – ou o mito – tomarem conta do que se vê. Por isso, se fala em celebração, experiência, apesar de ser um documentário, “Moonage Daydream” evita a ideia de biografia, fluindo na corrente do artista com as suas ideias, pela forma como chegam, ou chegaram, a Morgen. Para lá da voz de Bowie através das entrevistas, que ajudam a construir a pessoa-artista, as imagens ao vivo também consolidam a visão do realizador, explorando não só o efeito da música enquanto expressão artística, como do efeito que Bowie e a sua música tinham na público.
▲ “Moonage Daydream” quer ser para o espectador uma forma de mostrar a vida como ela é pela experiência e pelo legado de David Bowie
Nesse mesmo público, sobretudo durante as imagens dos concertos dos anos 1970, há uma quase sensação de espelho, com milhares de pessoas/fãs vestidos à Bowie ou a quererem ser como ele. Isso evidencia algo em “Moonage Daydream” que é tentação nestes objetos: o vício dos realizadores em quererem criar uma imagem, uma pessoa, uma nova história que sirva a sua narrativa. Morgen não precisa disso, porque já está tudo criado com Bowie, já deixou tudo feito. Não é necessário inventar ou especular algo à sua volta. Com isso de fora, “Moonage Daydream” existe assim para ser a tal experiência.
Se faz parte do grupo menos conhecedor de Bowie, pode ser um momento de revelação, não por causa da dimensão de músico, mas pela forma como existiu e deixou tudo existir à sua volta: e, por isso, a dado momento, nem houve a questão de se aceitar como ele era, apenas era Bowie e Bowie era assim. “Moonage Daydream” quer ser para o espectador uma forma de mostrar a vida como ela é pela experiência e pelo legado de David Bowie. Encontrar a sua música e vida assim, no cinema, é um acontecimento que é simultaneamente imperdível e irrepetível.