A pianista portuguesa Joana Gama atua na sexta-feira, em Lisboa, para interpretar o álbum A mind in the heart, que gravou a convite do compositor sérvio Ivan Vukosavljevic, numa parceria inédita que nasceu à distância.
Em entrevista à agência Lusa, Joana Gama explica que esta colaboração surgiu há mais de um ano quando Ivan Vukosavljevic, músico sérvio radicado em Haia, a contactou para lhe dizer que ela era “a pessoa com a sensibilidade certa para gravar a música” que ele estava a compor para piano.
Os dois pianistas não se conheciam; foi através das plataformas digitais que Ivan Vukosavljevic chegou ao seu trabalho, aos projetos em torno de Erik Satie, John Cage ou Hans Otte, e que percebeu que teriam afinidades artísticas, nomeadamente dentro da música mais lenta e contemplativa.
“O Ivan já tinha algumas peças compostas e umas ‘demos’ que tinha gravado, no fundo, para dar uma ideia do que seria. Depois ele acabou de compor as peças e, portanto, a música é completamente dele. Mas depois tivemos um processo intenso de preparação da gravação que foi feito todo à distância”, contou Joana Gama à agência Lusa.
A pianista só iria conhecer Ivan Vukosavljevic aquando da gravação do álbum, com as oito composições, em setembro de 2025 numa igreja nos Países Baixos.
“Ele teve uma intuição que eu era a pessoa certa, eu também tive uma intuição para aceitar este convite”, até porque “chegou numa altura em que eu ainda não estava sequer a pensar num próximo projeto para piano”, recordou Joana Gama.
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Arcueil, de 2019, era o mais recente álbum a solo de Joana Gama. Depois disso esteve concentrada na divulgação e interpretação da música de Hans Otte, numa trilogia de espetáculos para os mais novos, de música e natureza, e ainda na composição para o filme Kora, de Cláudia Varejão.
A mind in the heart foi editado em janeiro deste ano, já teve duas apresentações nos Países Baixos e em Espanha, e Joana Gama tem já preparada uma digressão para os próximos meses, em Portugal e no estrangeiro, pelo menos até maio de 2027. É um projeto de longo curso como fez, por exemplo, com a divulgação da obra do compositor alemão Hans Otte e do francês Erik Satie.
No booklet que acompanha a edição do álbum, Ivan Vukosavljevic explica que A mind in the heart (“Uma mente no coração”) é “a forma mais poética de descrever a humildade e o amor que nasce da humildade. Pois o que descreve melhor a humildade do que uma mente que é puxada das alturas da vontade própria para as profundezas do coração?”.
Joana Gama acrescenta que “não é tornar o coração racional, mas é tornar a mente mais amorosa”.
“Eu tenho procurado também (…) tocar música que é mais do que música, que me faz bem e que eu sinto que pode ter um efeito benéfico de acalmar as pessoas que ouvem”, envolvendo, em particular, a natureza, sublinhou.
“É um contexto que me faz muito bem e que eu sinto que, por mais que se fale nisto, nunca é suficiente. Se eu puder, naturalmente o meu trabalho irá para aí. Há outras áreas que me fascinam, nomeadamente o sono, que eu espero vir a trabalhar agora em breve. O sono é um tema muito importante na vida. O sono, o sonho. E é muito negligenciado”, disse.
O concerto de Joana Gama na sexta-feira, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, será antecedido por uma conversa com Ivan Vukosavljevic sobre a colaboração artística que resultou em A mind in the heart.
A par dos recitais com este álbum, Joana Gama irá estar em novembro na ilha Graciosa, nos Açores, para a iniciativa Terra Incógnita, na qual vai desenvolver uma residência artística e um trilho sonorizado (audiowalk) com a Filarmónica Recreio dos Artistas.