A autora já havia impressionado com Cai a noite em Caracas, que a Alfaguara trouxe a Portugal no Verão de 2019. Ali, a autora explora, por via de Adelaida, um país contaminado pela corrupção e pelo crime. Adelaida, perante a morte da mãe, vê-se sozinha a braços com a vida. Em Caracas, tudo falta, e agora falta-lhe também apoio. Logo depois do funeral, a casa em que vive é ocupada por um grupo de mulheres que estão às ordens do regime vigente. Ao procurar ajuda na porta da vizinha, encontra silêncio: lá dentro, jaz uma mulher morta no chão. Aqui, Sainz Borgo vai aliando o retrato que faz de um país – e que aparece como elemento interno de uma narrativa – à construção da psique desta personagem que naquele momento encontra um passaporte espanhol que a pode libertar daquela vida. Com este romance que aqui trazemos, começamos a ver que este já é um traço autoral.

Depois dessa publicação, no ano 2021, surge a edição original deste O terceiro país, que agora (2023) chega a Portugal com tradução de Vasco Gato e selo da Alfaguara. Aqui, a autora volta a dar corpo a uma narrativa ambiciosa. No centro temos Angustias Romero, que foge da peste com o marido e dois filhos às costas. Mais uma vez, o leitor conta com uma personagem forte que vai vivendo e sobrevivendo num meio inóspito e hostil, meio esse que vai sendo descrito sem aparente dificuldade, mas que vai fornecendo ao leitor o quadro de um país.

A narrativa começa logo com brutalidade, e esta aguenta-se à medida que a própria narrativa se aguenta:

Cheguei a Mezquite à procura de Visitación Salazar, a mulher que sepultou os meus filhos e me ensinou a enterrar os dos outros. Fui até ao fim do mundo, ou onde julguei que o meu terminara. Encontrei-a certa manhã de maio ao pé de uma torre de gavetões. Estava vestida com umas calças de malha vermelhas, botas de trabalho e um lenço colorido atado à cabeça. Uma coroa de vespas esvoaçava à sua volta. Tinha o aspeto de uma Virgem de pele morena, perdida numa lixeira.” (p. 11)

Logo aqui, Sainz Borgo marca o ritmo – e marca também o tom e a elegância. À medida que a narrativa se espraia, o leitor vai notando que a mão da autora nunca treme e que os capítulos, embora curtos, são conduzidos com leveza e segurança.

Ao longo do percurso, e fugindo da peste, entre a aridez da montanha, o casal segue até à fronteira que separa a serra oriental da ocidental. Face à dureza do trajecto, os bebés morrem, e a mãe tem de carregá-los ainda assim para lhes garantir a dignidade de um enterro. Sem outro remédio, os pequenos cadáveres seguem em caixas de sapatos. A meta é O Terceiro País, um cemitério ilegal gerido por Visitación Salazar.

A narrativa vai mostrando uma mulher em batalha com a vida – e com o mais bruto que tem, não apenas do ponto de vista da tragédia individual, mas também da tragédia colectiva. E, após o abandono do marido – mais um tijolo –, a vida é, em simultâneo, luta com o luto e com a dor. À volta, existe apenas hostilidade, tanto da paisagem quanto da gente armada.


Título: “O terceiro país”
Autora: Karina Sainz Borgo
Editora: Alfaguara
Tradução: Vasco Gato
Páginas: 280

A fronteira é apresentada como território de violência, já que de disputa, e a autora parte de um quadro e explora a vida, trazendo os grandes temas da humanidade para o terreno literário: a crueldade, a resignação, o aproveitamento, a desconfiança, a morte, o desalento. Para além de território de disputa, a fronteira existe, assim, como território de poder – poder de quem tem os meios para possibilitar a vida num cenário em que a morte é ameaça. De um lado da fronteira, há a peste que rouba a memória: as pessoas caem de febre, perdem-se de quem foram, morrem; ali, a vida pouco vale. Do outro lado, há uma hipótese de futuro. E Mezquite é lugar de passagem, onde traficantes de droga e guerrilheiros encontram pouso.

O desespero aparece como instrumento para negócios e ganho próprio, e o crime espraia pela falta de controlo e lei. Ao usá-lo, Sainz Borgo explora a corrupção nos momentos-limite da vida, tanto económica quanto moral, e o ser humano é visto como coisa interiormente corrompida quando o desespero alheio é alimento,

Como o perigo e a violência crescem, os aproveitamentos também. E, com isto, todo o livro se transforma na procura dos limites da acção humana. É nisto que a autora voa. Angustias, que continua a perder depois de já tudo ter perdido, continua a lutar pela vida quando parece já não ter vida que mereça a luta. Seria fácil, com esta personagem, cair no sentimentalismo, no clichê, numa construção simplista, mas a autora pô-la sempre em contraponto com o cenário de fundo que enforma a narrativa. Ora, ao fazê-lo, o cenário de fundo é, afinal, trazido para a linha da frente, constituindo o romance ao invés de meramente o possibilitar e sendo, assim, um dos seus elementos internos.

Além disso, como, depois da entrada abrupta no romance, a autora opta pela analepse que explica como se chegou àquele ponto, o leitor vai sentindo sempre o contraste com a vida anterior: Angustias cabeleireira, o marido carpinteiro, os dois com a vida à frente, mesmo que já sobrevoasse a ameaça da peste, que entretanto ganha corpo e destrói a hipótese de vida corriqueira. Devagarinho, ao chegar, a doença instalava o vagar e o tédio, que logo depois atingia os povos com uma força bruta. Logo depois disso, surge como um poder indomável do qual só se pode fugir.

Ao ser traçado este cenário, O terceiro país sabe, em igual medida, a distopia e a vida de todos os dias, pelo menos a quem atentar nas notícias sobre as fronteiras em conflito. Estando o cerne na sobrevivência em situações-limite, as prioridades continuam a ser o que marca: os filhos mortos quase ao invés da sobrevivência, o que implica que a vida seja reduzida ao essencial.

Com capítulos curtos e um ritmo voraz, a autora serviu-se de uma aridez recriada em múltiplas dimensões: a emocional, numa espécie de desinteresse pela tragédia à volta, uma vez que a tragédia maior jaz em caixas de sapatos; e a da paisagem, que a sós já desafia a vida. A agilidade da prosa agarra o leitor e a força contundente dos cenários prendem-no lá dentro.

A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.