A Câmara Municipal de Lisboa atribuiu na passada quinta-feira a medalha de honra da cidade a um homem excecional, o Cardeal José Tolentino Mendonça. A sua viagem começou na Madeira, mas foi em Lisboa que se fez homem, estudante e professor, deixando uma marca que permanece. Hoje é uma figura universal, mas Lisboa sabe que a traz sempre no coração.

A nossa cidade sempre foi um lugar de encontro e um porto de abrigo de onde partem novas formas de ver o mundo. Deve muito à Igreja Católica pelo seu universalismo. Os valores judaico-cristãos são a base da nossa cidade, das nossas gentes e a da nossa abertura ao mundo. O percurso do Cardeal Tolentino Mendonça reflete essa vocação universalista de uma forma única. Destaco três dimensões fundamentais que definem o seu percurso.

A primeira é a de poeta. D. José Tolentino Mendonça tem uma vasta obra de poesia, ensaio e teatro. Para ele, a poesia é a arte de resistir ao seu tempo – e a sua obra resiste mesmo. Venceu o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia em 1998 e o Prémio Pessoa em 2023. Há nestas distinções algo de muito simbólico. Lisboa é a cidade de Fernando Pessoa, uma cidade das grandes interrogações, da procura de quem somos e do mistério das muitas vidas que cabem dentro de uma só vida.

E há também Ruy Belo, muito próximo do percurso intelectual de José Tolentino Mendonça. Um poeta que estudou profundamente e a quem dedicou a sua tese de licenciatura. Se em Pessoa encontramos a inquietação da identidade, em Ruy Belo encontramos a atenção ao quotidiano, à fragilidade, à transcendência escondida nas coisas mais simples.

Talvez seja precisamente aí que encontramos Tolentino Mendonça. Na capacidade de juntar as grandes perguntas às pequenas coisas. O infinito ao quotidiano. O mistério à vida concreta. Porque a sua poesia não é feita apenas de palavras bonitas, é uma poesia do quotidiano. Que repara no detalhe. Que escuta o silêncio. Que nos ensina a olhar outra vez.

No poema Travessia da infância, escreveu: “Quietos fazemos as grandes viagens.” É extraordinário porque nem todas as viagens exigem sair do lugar. Algumas levam-nos ao mais fundo de nós. Outras aproximam-nos do coração dos outros.

No seu inesquecível discurso do Dia de Portugal, em 2020, Tolentino Mendonça chamou à poesia “um guia náutico perpétuo” e também “uma cosmografia da alma”.  Lisboa, cidade de navegadores e de poetas, revê-se inteiramente nestas palavras. Em 2019, quando o elevou a cardeal, o Papa Francisco disse-lhe: “Tu és a poesia.” Lisboa orgulha-se de ter premiado essa mesma poesia: a que Tolentino Mendonça escreve e a que põe na vida.

A segunda dimensão é a de pensador e educador. A nossa cidade conhece bem esta sua força. Concluiu o doutoramento em Teologia Bíblica em Lisboa. Foi professor e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa. Foi capelão na Capela do Rato. Quem acompanhou o seu magistério no Rato sabe o impacto que teve e o legado que deixou. Ali se formou uma geração de pensamento livre e ali aprendemos que a fé e a cultura podem dialogar sem medo nem barreiras. Que a espiritualidade e a inteligência caminham juntas.

Como um dia escreveu, “a arte de falar torna-se, por isso, com toda a justiça, uma arte de ser”. É uma grande lição para todos nós, sobretudo para quem tem responsabilidades públicas. As palavras não são indiferentes: podem esclarecer ou confundir, podem aproximar ou afastar. E quem fala tem o dever de responder pelo que diz.

Hoje, a sua missão não tem fronteiras. O Papa confiou-lhe uma tarefa gigante. É o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano. Uma missão que abrange a rede de escolas e universidades católicas espalhadas pelo mundo. Falamos de milhões de alunos e professores, de comunidades inteiras. É uma responsabilidade imensa. Ajudar a orientar esta rede significa contribuir para o futuro do pensamento e levar a educação a contextos de paz, mas também de conflito e pobreza. Porque educar não é apenas transmitir conhecimentos, é abrir possibilidades, é ajudar cada pessoa a descobrir aquilo que pode ser.

O terceiro ponto a salientar em Tolentino Mendonça é o do diálogo e da moderação. Parece algo simples, mas não é. O Cardeal é um homem de diálogo e usa a cultura e as artes para aproximar as pessoas. Tem uma capacidade invulgar de gerar consensos. Viver num tempo de polarização exige coragem. É fácil ceder ao grito. É fácil excluir o outro. Difícil é a moderação, é sentar à mesma mesa quem pensa de forma diferente.

Na sua Oração pelos amigos, Tolentino Mendonça agradece àqueles “que discordam de nós permanecendo connosco”. Como precisamos desta capacidade de discordar sem romper, de discutir sem desumanizar, de permanecer juntos, mesmo quando não pensamos da mesma maneira.

Nesse discurso do Dia de Portugal, em 2020, recordou-nos ainda que “a raiz da civilização é, por isso, a comunidade” e que a primeira tarefa de uma comunidade é “cuidar da vida”. Esta visão tem uma raiz profunda. A Epístola aos Hebreus contém uma belíssima passagem: “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, sem o saberem, hospedaram anjos.” Na sua vida, a hospitalidade não é apenas uma virtude religiosa, é um compromisso humano. É dar lugar ao outro, também ao que não conhecemos, também ao que não compreendemos.

O Cardeal Tolentino Mendonça faz dessa hospitalidade da palavra e desse cuidado o seu método de ação. O seu trabalho em prol do desenvolvimento humano inspira-nos. Num mundo tão dividido, a sua voz une. Para unir e dialogar é preciso moderação. Não deixar que as paixões mais violentas nos dominem. Procurar um entendimento mais elevado sem abdicar das convicções, sem desistir das pessoas.

Foi isso que fez ao longo da vida – e que continua a fazer. Não por acaso venceu a primeira edição do Grande Prémio da Fundação Ilídio Pinho. Uma distinção que celebra a excelência da portugalidade no mundo. Tive a honra de fazer parte desse júri, enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e recordo com orgulho o voto unânime no seu nome. Porque Tolentino Mendonça representa o melhor que Portugal dá ao mundo.

Lisboa é uma cidade aberta. Uma cidade de cultura, inovação e humanismo. Ao olhar para Tolentino Mendonça, Lisboa vê espelhado o seu melhor futuro. Vê uma cidade que não se fecha e que se oferece ao mundo. Os seus valores são os nossos valores. Precisamos da sua poesia, do seu pensamento, da sua capacidade de unir.

Como disse um dia, “a esperança não é um acessório, é um bem de primeira necessidade”. O Cardeal Tolentino Mendonça tem feito essa esperança acontecer. Na palavra que ilumina. Na educação que liberta. No diálogo que aproxima. A Medalha de Honra que lhe atribuímos foi o nosso agradecimento, o agradecimento de Lisboa. Faço votos de que continue a levar a nossa língua pelo mundo e a construir pontes. O mundo precisa dessa voz. Lisboa terá sempre uma porta aberta e será sempre a casa de José Tolentino Mendonça.