A revolta do 18 de Janeiro de 1934 custou anos de prisão a muita gente e foi uma forma de mostrar ao regime fascista o descontentamento dos trabalhadores, disse à agência Lusa o filho de um antigo revoltoso.
Júlio Silva ia fazer dois anos quando o pai, Pedro Silva, integrou o grupo de revoltosos contra as condições precárias do país. Aos 91 anos, Júlio Silva recorda a história que sempre ouviu contar — não pela boca do pai, que faleceu de acidente pouco tempo depois da revolta — mas pelos amigos e pelas gentes da Marinha Grande. “Após o 25 de Abril fui dos primeiros dirigentes do Sindicato dos Vidreiros”, conta, ao referir que esteve na origem do primeiro contrato coletivo de trabalho.
Júlio Silva adiantou que a revolução dos trabalhadores foi precedida de um “descontentamento que existia no país”. “A Marinha Grande era uma vila com muito trabalho e pouco dinheiro e um grupo de homens reuniu-se em Casal Galego e foram preparando um atentado que era para ser a nível nacional e acabou por ser na Marinha Grande”, recordou.
Com a capital de distrito — Leiria — paredes meias com a Marinha Grande, o exército e a GNR rapidamente avançaram, mas tiveram de desobstruir a estrada na zona da Albergaria, onde os trabalhadores tinham colocado várias árvores.
“Os maiores revolucionários fugiram para a mata durante alguns dias, mas a força fascista acabou por derrubá-los e muitos foram detidos”, revelou, lamentando as “patifarias que foram feitas aos trabalhadores” pelas forças militares.
Apesar de muitos pensarem que não se ganhou nada com a revolta, Júlio Silva confessou que “houve ganhos, sobretudo, ao provar ao fascismo o descontentamento das pessoas”, o que “custou anos de prisão a muita gente”. “Foram 36 marinhenses presos. O 18 de Janeiro deixou uma marca na Marinha Grande”, reforçou.
Além disso, assumiu, o 25 de Abril acaba por acontecer 40 anos depois, porque “o caminho estava preparado pelos trabalhadores”. “Tem tudo a ver com o 18 de Janeiro, porque foram 40 anos de luta contra o governo fascista”, que mantinha a população “na escuridão e impedia que fossem estudar, porque o analfabetismo convinha”.
Júlio Silva contou ainda um episódio que liga o seu pai à revolta: “Andava eu a brincar numa quinta onde morávamos e ao esgravatar um terreno descobri um revólver embrulhado num pano. Imagino que o meu pai teve uma participação ativa no 18 de Janeiro e que tivesse escondido a arma com medo”.
Em 18 de Janeiro de 1934, no âmbito de uma greve nacional, vários trabalhadores da Marinha Grande, na sua maioria vidreiros, reuniram-se em Casal Galego, tendo, depois, cortado estradas de acesso à cidade e a linha ferroviária.
Ocuparam também a Estação dos Correios e o posto da GNR, mas o movimento acabou contido logo ao início da manhã, com a chegada à Marinha Grande de forças policiais e militares.
Os revoltosos ainda resistiram, mas, pela manhã, as autoridades tomaram a cidade. O número de detidos terá ascendido a 131 pessoas, sendo que 45 revoltosos foram processados e condenados ao desterro pelo Tribunal Militar Especial, com penas entre três e 14 anos de prisão e ao pagamento de pesadas multas.