Os alunos e professores que chegaram ao Liceu Camões e Escola Artística António Arroio, em Lisboa, na manhã desta sexta-feira foram surpreendidos com portas fechadas, cartazes e palavras de ordem. Inspirados pelas acampadas em Lisboa e no Porto e pelos movimentos civis ao redor da Europa, um grupo de estudantes pernoitou no exterior dos edifícios e bloqueou as respetivas entradas com cadeados. Segundo o Instagram do movimento Fim ao Fóssil, que dinamizou a iniciativa, protestam “para mostrar que não consentem que o Governo continue a vender o seu futuro”.
Perto das 10h da manhã, o Observador confirmou com fonte oficial do Liceu Camões que a escola estava fechada: ninguém saía e ninguém entrava, e as aulas estavam suspensas até informação em contrário. A situação era idêntica na António Arroio, onde os estudantes organizados e aqueles que iam chegando entoavam cânticos, aos quais se juntaram as vozes de membros do corpo docente, que também discursaram e fizeram eco das preocupações elencadas pelos manifestantes.
A iniciativa foi organizada pelo movimento de justiça climática Fim ao Fóssil e pelo Chumbado.pt, fundado na sequência dos problemas que afetaram a correção dos exames nacionais este verão. “Movimento de alunos cansados do Ministro Fernando Alexandre”, lê-se na biografia de Instagram do núcleo. “É hora de chumbar o ministro!” Além destes, também a Associação de Estudantes da Faculdade de Belas Artes e outros grupos de alunos universitários apoiaram os protestos.
Às preocupações relacionadas com a crise climática e com a decadência do sistema público de educação, juntam-se reivindicações que pedem o fim da crise da habitação e das guerras ativas no mundo — que, de acordo com os grupos em protesto, são financiadas pelos estados europeus.
Impulsionados pelas acampadas na Praça do Rossio, na capital, e D. João I, no Porto, “os estudantes olharam para si mesmos e pensaram ‘O que vamos fazer?’”, conta a porta-voz do Fim ao Fóssil, Matilde Ventura. “Vamos bloquear as escolas e mostrar que não consentimos.”
“Os governos investem em guerra, armamento, combustíveis e desinvestem na educação, habitação e transição energética justa”, continua a ativista, entrevistada pelo Observador. “Nós exigimos um futuro digno e o fim ao fóssil até 2030”, de forma a pôr um ponto final na crise climática.
Incentivados pelos protestos que começaram em França em meados de setembro, os alunos da António Arroio pedem também melhorias na educação, uma vez que — explicam — não têm uma cantina que chegue para todos os alunos, nem oficinas funcionais e que disponham do material necessário.
À volta das 10h, três viaturas da PSP estavam estacionadas à frente da António Arroio, mas as autoridades não intervieram, “porque sabem que não vão conseguir passar por nós”, garante Ada Costa, a porta-voz do movimento na escola, ao Observador. “Há estudantes aos berros, a protestar e a dançar porque estão revoltados”, conclui a jovem.
No mesmo local, os alunos erguiam cartazes e as bandeiras da Palestina, de Cuba e da Geórgia, que “está a passar por uma das mais graves erosões dos direitos humanos desde a independência, à medida que o partido no poder recorre cada vez mais a práticas autoritárias para manter o seu domínio”, de acordo com a Amnistia Internacional. Veem-se ainda frases de ordem como “Moradia não é mercadoria”, “T1, T2, T3, T4 e a gente não tem nada” ou “Menos bastão, mais habitação”.
Assembleias de estudantes e greve geral
Cerca das 11h, os alunos de ambas as escolas reuniram-se em assembleia. O Liceu Camões anunciou o encerramento do recinto até às 13h15, pelo que os revoltosos decretaram vitória democrática e levantaram o bloqueio. Segundo o porta-voz do Fim ao Fóssil no local, os estudantes dirigiram-se para o jardim Henrique Lopes de Mendonça, imediatamente à frente da escola.
Entretanto, a escola afixou uma nota no portão da escola, onde se lê que “por motivos de corte de água, estará encerrada até às 14h”. O Observador confirmou com a instituição que, de facto, estão em curso trabalhos com vista a resolver os cortes no fornecimento de água. A direção do Liceu Camões não respondeu aos contactos do jornal, mas uma fonte da escola disse desconhecer se as aulas vão decorrer dentro da normalidade na tarde desta sexta.
Na António Arroio, durante o mesmo intervalo, discutiam-se as diligências a executar antes da greve de estudantes agendada para 20 de novembro, que foi convocada para mais de 16 países e visa fazer frente ao investimento das nações europeias em combustíveis fósseis e na militarização.
“No dia 20 de novembro, damos os primeiros passos para construir um movimento internacional e antimilitarista de estudantes e jovens. Lutem pelo nosso futuro, não nas guerras deles!”, escreve o manifesto da Youth International Strike (Greve Internacional de Jovens, em português). “Vamos abandonar as nossas salas de aula, organizar assembleias, paralisações, ações e demonstrações.”
Ainda na manhã desta sexta-feira foi convocada um segundo protesto, direcionado aos estudantes do ensino superior em especial. O comunicado emitido pelo Movimento Associativo Estudantil afirma que “dia 18 de novembro, [quando] se iniciam as votações das propostas do Orçamento do Estado [OE]”, está prevista uma “Grande Manifestação dos estudantes do Ensino Superior, do Largo do Carmo à Assembleia da República”. A convocatória critica a proposta de descongelamento das propinas e o corte de 7,6% nas verbas para o Ensino Superior, contemplados no OE 2027.
[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]