O Centro Interpretativo “Os Murais de Almada nas Gares Marítimas” foi esta segunda-feira apresentado em Lisboa pelo ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, e pelos promotores do projeto, a Administração do Porto de Lisboa, a Câmara Municipal de Lisboa e a Associação Turismo de Lisboa.

Os painéis de Almada Negreiros constituem o maior conjunto de pintura mural portuguesa do século XX e a expressão máxima do modernismo português, como destacou o ministro.

Localizado na Gare Marítima de Alcântara, este centro interpretativo permitirá a fruição daquelas obras de arte por todos os cidadãos e por turistas, dinamizando simultaneamente o seu conhecimento, sobretudo para o público escolar.

Ao longo de nove salas do piso zero estará disponível extensa informação sobre os murais de Almada Negreiros – que podem ser visitados na Gare Marítima de Alcântara (oito painéis), e na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos (seis) — mas também sobre a história da construção das gares marítimas e o seu papel histórico e social.

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Para Miguel Pinto Luz, a possibilidade de os lisboetas e todos aqueles que visitam a cidade acederem a estas obras “magníficas” é algo “absolutamente incomparável com tudo o resto que tenha sido feito”.

“Enquanto ministro das Infraestruturas, é muito bom ver que o porto de Lisboa já não está de costas voltadas para a cidade. O porto de Lisboa hoje tem que ter uma relação simbiótica com a cidade, e os lisboetas têm que ter acesso a isto, não pode estar fechado nas quatro paredes e, portanto, Almada [Negreiros] tem que estar representado neste novo centro interpretativo, para dar acesso a todos os lisboetas àquilo que vai ser o novo porto de Lisboa, um porto que não são só contentores, não é só atividade económica, mas é também virado para o Rio Tejo”, afirmou, em declarações aos jornalistas.

Este projeto inclui não só o restauro dos próprios murais, mas também a criação de todo o centro interpretativo, “um espaço museológico que representa também aquilo que era a atividade portuária na década de 1940”, acrescentou o ministro.

No futuro centro interpretativo, o visitante poderá ficar a conhecer o contexto de construção e decoração dos Terminais de Navegação, a relação entre o arquiteto Pardal Monteiro, autor dos edifícios, e o artista Almada Negreiros, os estudos de Almada Negreiros para as pinturas murais nas Gares Marítimas e os diferentes momentos políticos e históricos que atravessaram o funcionamento das Gares, incluindo a II Guerra Mundial, a emigração, as partidas para a Guerra Colonial e o processo de descolonização com o regresso dos portugueses das ex-colónias.

Será explicado igualmente o contexto da encomenda das obras ao artista e a polémica gerada à época com o resultado final, distante dos objetivos propagandísticos da ditadura.

Como destacou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, “o que está ali retratado é a Lisboa humilde que Almada queria mostrar, mas que o Estado Novo queria esconder: a vida do cais, a verdadeira realidade de Lisboa está ali. Esta é uma obra do povo de Lisboa”

Será ainda exposta a presença artística de Almada Negreiros na cidade de Lisboa, nomeadamente os espaços onde é possível encontrar outras obras suas, bem como a sua documentação sobre as Gares Marítimas, depoimentos, entrevistas, notas, fotografias e reproduções de obras e documentos.

Carlos Moedas considerou, em declarações à margem da cerimónia, este “um dia histórico e importante para Lisboa, porque é esta ligação entre a cultura e o turismo”.

“Estamos aqui a inaugurar este centro interpretativo de Almada Negreiros, com 3,5 milhões que vêm dos turistas e eu penso que é muito importante no momento em que vemos às vezes a criação de alguma fricção em relação a um setor tão importante para a economia como é o turismo, que o turismo contribua para os lisboetas”.

Na opinião do diretor-geral do Turismo de Lisboa, a criação do centro interpretativo de um conjunto de painéis que são considerados “o expoente máximo da pintura mural em Portugal e na Europa” também, “um passo muito grande para concretizar um desejo” com muitos anos.

Lembrando que os painéis existem há cerca de 80 anos, Vitor Costa lamentou que só sejam conhecidos por alguns grupos escolares, ou através da televisão e Internet, assinalando que a possibilidade de contactar com a obra, que agora se abre, e conhecer o seu enquadramento, constitui um enriquecimento da oferta cultural lisboeta.

Neste momento estão a ser restaurados os painéis da gare da Rocha do Conde de Óbidos, que deverão ficar concluídos no final deste ano, disse o responsável, adiantando que os restantes vão ser alvo de trabalhos de restauro durante o próximo ano, após a abertura ao público.

“Iremos criar aqui uma situação, em que os painéis estão a ser restaurados progressivamente e as pessoas também podem assistir e perceber o que é que isso significa, esse trabalho minucioso e artístico que é restaurar estes painéis”, adiantou aos jornalistas.

A coordenação de conteúdos do Centro Interpretativo está a cargo de Mariana Pinto dos Santos, historiadora da arte e curadora independente e investigadora do Instituto de História da Arte da NOVA Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

Colaboram no projeto a família de Almada Negreiros, o Centro de Estudos e Documentação Almada Negreiros — Sarah Affonso (NOVA FCSH), o Instituto de História da Arte da NOVA FCSH, o Laboratório HERCULES, a Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian, a RTP, o Arquivo Municipal de Lisboa e o Museu Nacional de Arte Antiga.

Centro Interpretativo beneficia de financiamento global de 8,2ME

O Centro Interpretativo beneficia de um financiamento global de 8,2 milhões de euros, somando compartições financeiras do Turismo de Lisboa, do World Monuments Fund e da Administração do Porto de Lisboa, para os dois edifícios.

O presidente da Administração do Porto de Lisboa, Carlos Correia, especificou aos jornalistas que além da participação financeira da Associação Turismo de Lisboa, que tem o valor de 3,5 milhões de euros, o centro interpretativo conta ainda com 700 mil euros de financiamento da World Monuments Fund, um “grupo de filantropos estrangeiros que apoiam o restauro dos painéis”, e quatro milhões de euros a cargo da Administração do Porto de Lisboa.

Esta última verba é para intervenção nos próprios edifícios, clarificou, especificando que serão adstritos dois milhões a cada uma das gares – a Gare de Alcântara e Gare da Rocha Conde de Óbidos.

O presidente da Administração do Porto de Lisboa adiantou que um dos principais objetivos é tornar aquele espaço “dinâmico e atrativo” e, por isso, uma das componentes que o centro interpretativo irá ter é “a criação de um restaurante, que será equipado, ou dotado, à época da criação das gares e dos painéis, portanto, todo em arte Déco, de forma a que as pessoas que visitam o Centro Interpretativo e os painéis possam frequentar esse restaurante e se sintam imbuídos do espírito da época”.

O restaurante vai ser no edifício da gare de Alcântara e terá uma esplanada nos varandins que em tempos serviram pra as pessoas se despedirem ou esperarem a chegada dos seus familiares de barco.

Segundo o responsável, o restauro dos painéis da Rocha do Conde de Óbidos deverá terminar no próximo mês, ao passo que os de Alcântara deverão começar entre janeiro e fevereiro do próximo ano.

Previamente, será necessário fazer algumas intervenções, designadamente na impermeabilização da cobertura e na passagem das escaleiras.

“Neste edifício, à altura da construção, todo o sistema de drenagem era anterior ao próprio edifício, e nós vamos ter que passar esse sistema de drenagem para fora do edifício, por forma a evitar infiltrações que comprometam depois o restauro dos próprios painéis”, acrescentou.