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Oito discos que levamos do verão para ouvir até ao final do ano

Este artigo tem mais de 2 anos

Um best-of de edições lançadas no mundo quando o mundo (ou parte dele) estava entretido a descascar camarão ou o próprio corpo. Que sirva de boa companhia nos próximos meses.

Pôr creme ou comer uma bola de Berlim, apanhar aquela onda, chegar a casa e tomar banho para tirar o sal da pele, pôr toalhas a secar, lavar calções, comer peixinho, beber vinho branco, possivelmente ficar o dia todo junto à piscina ou, para quem tem filhos, eventualmente fazer uns castelos na areia, ficar junto ao mar, de braços atrás das costas, a verificar a segurança dos garotos. Todas estas são (chamemos-lhes, à falta de melhor palavra) – tradições de tal modo associadas ao verão que há indústrias inteiras que tentam aproveitar-se destes comportamentos para fazer uns trocados.

Ao contrário, a indústria musical quase que pára em agosto – deixa os discos com potencial de vendas para setembro, para a rentrée, porque sabe que em agosto as pessoas gastam o dinheiro todo nas atividades acima descritas. Mas não pára por completo e por vezes até guarda discos fortes, com o de Sabrina Carpenter ou o dos Fontaines DC para os últimos dias de agosto, como que preparando a reentrada em força do mercado, cheio de vontade de vender streamings e merchandising.

É muito possível que isto vos passe ao lado, entretidos que estiveram em viver a melhor vida possível nas férias – o que é manifestamente incompatível com estar atento a todos os lançamentos de música pop. A pensar nisso fica aqui um resumo do melhor que agosto nos ofereceu, mas com um truque – aqui e ali incluímos um ou outro disco de junho ou julho, daqueles que passou ao lado de toda a gente e que manifestamente merecem mais atenção da que até agora tiveram.

“brat”

Charli xcx

É o disco de verão, tanta foi a força com que bateu, não só musicalmente mas também em termos de viralidade nas redes – o verde de brat serviu para inúmeros memes e tratou de fazer com que o disco se tornasse omnipresente. E no entanto não lembra imediatamente o verão, no sentido em que não é luzidio – quando muito pode recordar as luzes brilhantes de um clube noturno onde vamos dançar (de férias ou não).

Tudo em brat é electro-pop que não tem medo de experimentar mas também não recusa um grande refrão quando este se lhe apresenta. Como todo o bom disco pop, tem singles em barda, a começar por Girl, so confusing, uma estupenda canção electro, e passando por 360, 365, Sympathy is a knife e a melancólica I might say something stupid. Indicado para quem gosta de grandes beats e prefere a noite ao dia.

“Short n’Sweet”

Sabrina Carpenter

Se Charli xcx ganha o campeonato de disco pop deste verão, Sabrina Carpenter sacou o single da época, graças ao extraordinário Espresso, uma leveza disco-pop que se aninha nos nossos ouvidos e nunca mais de lá sai. Mas Short n’Sweet não se resume a uma canção – apesar da sua escassa duração há mais 11 temas que apontam nas mais diversas direções.

A pop-rock pura de Taste, o refrão açucarado de Please please please, que parece feita em laboratório, de tão perfeita que é; Dumb & Poetic serve, por trás da sua melancolia, para atacar todos os rapazes que se fingem sensíveis para sacar garotas; Juno volta à pop leve e orelhuda, desta feita tingida de anos 80; Slim Pickins aponta ao mercado country (e volta a denunciar os douchebags, tema recorrente no disco). Short n’Sweet é um mosaico que emula as tabelas de vendas dos EUA: todo o género que encontrou êxito nos últimos tempos encontra-se lá representado – no balanço final há meia-dúzia de refrões que não esquecemos e isso é tudo o que importa.

Estamos todos a viver (e a cantar) o verão de Sabrina Carpenter, Charli XCX e Chappell Roan

“All Hell”

Los Campesinos

Por esta altura já ninguém se lembrava que os Los Campesinos ainda existiam, quanto mais apostar que poderiam fazer um grande disco. Mas isso mesmo que All Hell é: um álbum cheio de malhas gigantes, pronto a ser berrado em estádios.

All Hell abre com a perfeita The Coin-Op Guillotine, que lembra o melhor dos dEUS na gestão dos ritmos e volume; em Long Throes encontramos mais um refrão que sobe e sobe, cheio de coros e volteios, enquanto em Moonstruck as guitarras voltam a disparar – mas ainda assim consegue-se chegar a um refrão que poderia muito bem ser cantado por milhares num festival de verão. O rock tem andado distante do topo das tabelas de vendas, mas quem tiver saudades de guitarras frenéticas e berros tem aqui o seu porto de abrigo.

“Sentir que no sabes”

Mabe Frati

Este é meio batota tendo em conta que saiu em junho e não é propriamente um disco de verão – não está cheio de ganchos nem preocupado com refrões que possam trepar as tabelas de vendas. Mas é um grande, tremendo disco esquisito, que parte do que poderia ser jazz para se misturar com todos os géneros e no fim ainda soar razoavelmente pop e dentro dos limites do que chamamos canção (embora pondo os ditos limites à prova).

Desde a abertura, com a magnífica Kravitz, movida a linha de contra-baixo e muitos metais, que percebemos que não estamos em território comum – e quando chegamos à maravilhosa Oídos a certeza é total: há metais suaves, um violoncelo em câmara lenta, um piano a desfazer-se, antes de um lindo, lindo, refrão, e no entanto tudo isto é magnético, hipnotizante, misterioso e só queremos ouvir mais e mais. Dos discos mais surpreendentes e fascinantes dos últimos tempos.

“Passage du desir”

Johnny Blue Skies / Sturgill Simpson

Não é certa a razão pela qual Sturgill Simpson, o nosso bad boy preferido da country, resolveu editar o seu novo disco sob o nome Johnny Blue Skies mas isso acaba por ser irrelevante – o que importa é que Passage du desir é o verdadeiro herdeiro do extraordinário A Sailor’s Guide to Earth, com a diferença de que aqui há menos metais, menos r’n’b e mais percussão, mais arranjos de cordas espaciais e guitarras blues.

Pontos altos: Jupiter’s Faerie, dedicada a um amigo que morreu antes que Sturgill pudesse fazer as pazes com ele; e One for the Road, em que as guitarras bradam alto como um serrote desvairado. Sturgill Simpson – o único homem ao cimo da Terra a fazer da country música avant-garde.

“No name”

Jack White

Já ninguém esperava isto: que Jack White fosse capaz de fazer um disco ao nível dos White Stripes. Mas são 42 minutos a dar cabo de amplificadores, a colocar o volume no 11, a estraçalhar as seis cordas – e que bem que isto sabe, e que saudades tínhamos disto. O instinto primário dos blues está aqui bem vivo e White bota toda a gasolina possível, nunca tirando o pé do acelerador.

Se é estranho que Jack White nem sequer tenha feito uma campanha de marketing para um disco tão agressivamente bom? Sim. Se é estranho que nem se tenha dado ao trabalho de o nomear, simplesmente lançou-o durante a noite sem avisar previamente da sua existência? Sim. Mas se calhar White precisava disto: de fazer um disco pela calada, sem ninguém saber e limitar-se a pô-lo no mundo, cheio de fúria e riffs memoráveis. O rock, como sempre, ressuscita depois da morte anunciada.

“Charm”

Clairo

A música de elevador tem mau nome, talvez porque um elevador seja um lugar complicado para colocarmos um sofá e nos dedicarmos a ouvir a música que gostamos sem interrupções de outras pessoas. Imaginada para ser anódina, a música de elevador exagera na suavidade até ao enjoo – mas quando olhamos para cada um dos seus elementos em separado percebemos que há ali muito material para ser trabalhado.

É isso que Clairo faz, com mestria, neste tratado de soft-rock criado para danças a dois e olhares cruzados e perfumes, camisas abertas e primeiros beijos. Talvez seja exagero dizer que é o disco mais Sade desde que Sade deixou de fazer discos mas é com esse exagero que vamos hoje.

“Romance”

Fontaines D.C.

Romance é o disco que vai fazer dos Fontaines D.C. uma banda de estádio, o disco em que eles abrem o seu som para lá do pós-punk e do debitar de riffs à The Fall.

Estas coisas importam: o produtor é James Ford, que está farto de trabalhar com bandas de multidões, como os Depeche Mode, os Gorillaz ou os Arctic Monkeys e o som é agora uma amálgama que ora lembra os Cure ou a própria britpop e, claro, o rock alternativo dos anos 90. Isto não é uma crise de identidade nem eles se venderam – é simplesmente uma grande banda que não quer ficar presa a um som e que descobriu que sabe fazer grandes canções em muitos géneros diferentes.

Fontaines D.C.: rock’n’roll aqui e agora

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