O balão estava cheio, a estreia em San Siro esvaziou-o e trouxe de novo o AC Milan à sua realidade na Serie A depois do brilharete em Riade com a conquista da Supertaça após triunfos com reviravolta frente a Juventus e Inter. Sérgio Conceição foi deixando alertas à equipa em relação à importância de manter o ciclo de vitórias para recuperar posições no Campeonato italiano e chegar à segunda volta com mais opções de objetivos em aberto mas o empate na receção ao Cagliari acabou por trazer o regresso dos fantasmas que assolaram uma grande parte da era Paulo Fonseca no clube: uma primeira parte “de borla” ao adversário, uma vantagem que não foi depois mantida, mais dois pontos perdidos que deixaram os rossoneri na mesma em oitavo.

Depois do sonho, o regresso à realidade: Milan empata em casa na estreia de Conceição no Campeonato italiano

“Temos de chegar o mais alto possível. As emoções da estreia no campeonato não estão presentes, há a adrenalina normal da preparação para o jogo. Estamos a 17 pontos do topo da tabela, um clube que ganhou 19 Serie A e sete Champions não pode ter a barriga cheia para uma Supertaça. Temos de nos concentrar no jogo e convencer para terminar o mais alto possível. A Supertaça, essa, acabou”, tinha alertado o antigo treinador do FC Porto, que conquistou o 50.º título do AC Milan no futebol logo na estreia.

Sérgio chegou, viu e escreveu uma história épica: AC Milan conquista Supertaça frente ao Inter com reviravolta de três golos

“Esperava mais em todas as áreas. Considerando a qualidade da equipa que tenho à minha disposição, para ser honesto a primeira parte foi provavelmente a pior que tive nos meus 13 anos como treinador. O ritmo foi demasiado baixo. O Cagliari tinha toda a gente na defesa, era essa a sua estratégia, mas devíamos ter feito o que preparámos para procurar espaços. Não fomos suficientemente espertos. A segunda parte foi melhor, fizemos 25 remates. O Cagliari começou a tentar perder tempo, percebi que esta é a estratégia em Itália. Não há problema mas o árbitro tem de dar mais de cinco minutos de tempo extra. Mas isto não serve de desculpa, muito menos a fadiga pela Supertaça. Devíamos ter feito mais, embora não possa ignorar estes fatores”, apontou o técnico português no final da partida que marcou a estreia pelo AC Milan na Serie A.

Seguia-se uma deslocação a Como, entre muitos elogios do treinador Cesc Fàbregas. “O AC Milan agora é uma equipa que ataca mais com os avançados e joga em 4x3x3. Sérgio Conceição? Não me lembro de jogar contra ele mas lembro-me do seu FC Porto muito bem. Era uma equipa muito forte e bonita de se ver. O AC Milan mudou algumas coisas, é verdade, especialmente com a troca de treinador. Na minha opinião, eles serão ainda mais agressivos. Continuam a ser uma grande equipa. Vão tentar atacar-nos e tentar verticalizar o jogo imediatamente mas estaremos prontos”, referira o antigo campeão europeu e mundial por Espanha que passou por clubes como Arsenal, Barcelona, Chelsea e Mónaco antes de terminar no Como.

“O jogo contra o Cagliari acabou, temos que jogar agora e estou focado. Honestamente, não gosto dessas entrevistas meia hora antes do jogo. Desculpe, mas é assim. Bennacer de início? É importante, é por isso que vai jogar. Faz parte do plano pensado para o jogo. Se pensei começar com dois avançados? Foram-me passando várias coisas pela cabeça mas tenho de pensar primeiro na equipa. Vamos começar assim hoje, depois durante o jogo pode ser que mude”, referiu na antecâmara da partida, a meia hora do apito inicial. “O que disse à equipa depois do último jogo? Não falei disso. Esperemos que seja diferente hoje. Temos de melhorar em muitas áreas e trabalhámos isso”, frisou à Sky Italia. A tónica recaía no pedido de reação, que apareceu mas não como o português, sendo necessária mais uma reviravolta em cinco minutos na parte final da partida com Rafael Leão em destaque para garantir o primeiro triunfo na Serie A e a subida ao sétimo lugar, a cinco pontos da quarta posição da Lazio tendo menos um jogo do que o conjunto de Roma.

Com alterações circunstanciais na equipa, tentando consolidar o 4x3x3 desta vez com Emerson em vez de Calabria na lateral direita e Bennacer no meio-campo no lugar de Musah, o AC Milan foi sentindo problemas perante a organização do Como, que não prescindia de tentar sair com bola em construção a partir de trás mas ia também tentando explorar a profundidade tendo Cutrone como principal referência quando o jogo tinha de sair mais longo. Já os rossoneri iam tentando sair rápido como Sérgio Conceição gosta de ver nas suas equipas mas apenas conseguia criar perigo ou quando a pressão e a reação à perda apanhava jogadores visitados de fora de posição ou quando Rafael Leão conseguia sair em velocidade de frente para o jogo.

Marc Kempf ainda deixou um aviso inicial para defesa de Maignan mas seria Reijnders a ter aquela que seria a melhor oportunidade da primeira parte, na sequência de uma arrancada de Rafael Leão pelo meio a isolar o neerlandês para um remate para defesa de Jean Butez, que travou também de seguida a recarga de Morata para canto (21′). Nem mesmo nesses momentos de maior perigo o AC Milan conseguia assumir-se de forma definitiva na partida, com o Como a ganhar confiança, a perceber que poderia subir linhas sem colocar em causa a parte defensiva e a terminar a primeira parte por cima com Sérgio Conceição a ter de mudar algo para melhorar uma equipa que perdeu por lesão Pulisic, que caiu no relvado agarrado à coxa.

Tammy Abraham foi o escolhido para entrar para a posição do internacional norte-americano mas não veio sozinho do balneário, com o técnico português a lançar também Musah e Álex Jiménez para os lugares de Bennacer e Morata. Mudava os nomes, mantinha-se a estrutura, procuravam-se novas dinâmicas que fossem capazes de desfazer o nulo. Ainda assim, os lances de perigo só chegavam quando Leão conseguia partir em velocidade de frente para a baliza, assistindo Jiménez depois de mais uma arrancada para nova intervenção de Butez (52′). Sérgio Conceição começava a mostrar mais sinais de insatisfação e pior ficou quando o Como saiu da pressão do AC Milan, meteu a transição rápida e colocou Diao num 1×1 que fez o 1-0 (60′).

O coração corria o risco de se sobrepor à cabeça a partir daí mas os visitantes teriam de arriscar mais do que até aí para procurarem ainda os pontos em Como. Vontade não faltava, inspiração era pouca ou nenhuma, sobrava a transpiração pedida por Sérgio Conceição no banco entre uma substituição que, parecendo uma mera troca por troca, fez diferença: Gabbia entrou para o lugar de Thiaw, tornou-se a referência rossoneri nas bolas paradas e teve um papal preponderante no canto que deu o empate, ganhando a primeira bola antes de Theo Hernández aproveitar a confusão para atirar uma rosca que só parou na baliza (71′). Voltava tudo à estaca inicial mas com ascendente anímico do AC Milan, que beneficiou de um movimento made in Conceição que voltou a desequilibrar: Abraham saiu da zona de marcação, lançou Rafael Leão pelo meio e o internacional português só teve de picar a bola por cima de Jean Butez para fazer a reviravolta (76′).