Vásquez é um dos grandes romancistas do nosso tempo e as suas reflexões sobre a escrita e o papel dos escritores têm pertinência na coetaneidade. Afinal, vive-se uma altura em que, frequentemente, se extrapola a ideia de lugar de fala – e a ideia de que cada um fala por si, de acordo com as suas experiências – ao lugar autoral. Com isto, o debate público tem afunilado as questões de autoria, não raras vezes tentando que o autor corresponda ao indivíduo, e que o primeiro nunca possa sair da condição do segundo, ou seja, que a sua produção literária nunca escape do seu biografismo. Muitas vezes, questiona-se até o direito de alguém pegar, dentro da ficção, em realidades que não são suas. Levado à prática, isto implica uma literatura que não possa ser mais do que auto-referencial e, em última instância, implica o fim do romance, ao transformar-se a produção artística em mera casuística.

Ora, Vásquez, como se adivinharia, tendo em conta a sua produção, rejeita isto. Aliás, rejeitá-lo é possibilitar-se enquanto autor, criador, inventor – mais do que descritor. E cita Proust: “O dever e a tarefa de um escritor são os de um tradutor”. Ora, traduzir a vida não consiste apenas em chapá-la à jornalismo, antes em encontrar uma forma, uma realidade paralela, com existência autónoma. A possibilidade de um autor se outrar é o que o tira das amarras da sua condição, permitindo-lhe ser e, acima de tudo, fazer outras cabeças, ao mesmo tempo que extrapolar os limites da própria condição.

Num “tempo cheio de fundamentalismos”, “a ficção tem de estar abraçada à ambiguidade”. Numa prosa clara, o autor advoga que a literatura parte de uma dúvida; que, a um escritor, não se exigem as respostas, mas as perguntas bem formuladas. Uma visão noutro sentido, no seu entender, é resultado da deterioração das relações com a dúvida, e é aí que entra o fundamentalismo: um tempo tão cheio de certezas acaba por atar a direito um escritor às suas vivências, reduzindo forçosamente o espaço dialógico da literatura.


Título: “A tradução do mundo”
Autor: Juan Gabriel Vásquez
Tradução: Rui Pires Cabral
Editora: Alfaguara
Páginas: 160

Para Vásquez, há uma “relação entre o lugar que a ficção ocupa numa sociedade e a saúde da sua democracia” (p. 18) e defende que a ficção nasce de uma espécie de “voyeurismo interpessoal, profundo fascínio pelos outros” (p. 19). Isto, claro, contrasta com a ideia de uma literatura em que cada autor fala por si. Ao invés disso, a literatura é a possibilidade de se chegar a outro lado, atirando-se para o lado a questão autoral. Neste sentido, Vásquez questiona o lugar de fala em literatura, dando exemplos da literatura ao longo dos séculos, em que os autores escreveram na voz de gente tão diferente: de outra classe social, de outro país, de outra cor, de outro sexo. Séculos de literatura estão pejados destes exemplos, por isso é importante questionar-se, não sem ironia: terá todo este património ficado datado? Terão os escritores que compõem a história da literatura perdido a autoridade ou as capacidades que, ao longo dos séculos, e também agora, lhe foram e são reconhecidas? Atente-se neste excerto:

(…) um indivíduo que não é Lázaro finge ser Lázaro. Ao fim de séculos de prática, acostumámo-nos a esta convenção, a este pacto que constitui o fundamento da ficção desde que existe ou a reconhecemos enquanto tal, e entretanto esquecemos o quão problemática foi a questão desde os primórdios da literatura: como já vimos, Platão, falando através de Sócrates, condena os poetas por assumirem vozes alheias (sem se dar conta da ironia).” (p. 35/36)

Enquanto se lê isto, parece inacreditável que este debate ainda esteja a acontecer, que haja uma parte do debate público sequestrada por um posicionamento que, em última instância, sonega não só a amplitude da literatura, mas também a possibilidade da sua existência enquanto criação e imaginação, ao invés de apenas reflexo. Neste sentido, o livro de Vásquez é particularmente pertinente, em parte pelas análises que faz à história da literatura, concluindo que, numa altura em que a literatura se voltava para o épico, “o romance teve de se disfarçar de documento para ser aceitável” (p. 37). Depois disto, claro, o pacto firmado foi outro, e os leitores passaram a assumir a suspensão da crença, e já toda a gente entende que Daniel Defoe apenas fingiu a existência de Robinson Crusoé. O nome que assina o livro não tem de equivaler ao do protagonista e é isso que permite não só que alguém fuja à sua condição, mas também que apresente uma condição, numa fórmula orgânica, a ser posteriormente interpretada – e, com ela, o mundo inteiro.

Em A tradução do mundo, Vásquez advoga a literatura como forma de mergulhar no outro, e aqui permite-se entender o outro como a condição humana, ao invés do curto espaço da própria condição. Este olhar é o que permite entender a complexidade das teias humanas e largar o confinamento da individualidade. Num tom evidentemente diferente dos tons dos seus romances, uma vez que interessa muito mais o conteúdo do que a forma, sendo a forma meramente funcional, Vásquez contribui de forma relevante para os debates actuais sobre o papel da literatura.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.