Foi uma semana de loucos. Pelo menos para quem veste de vermelho, para quem apoia quem veste de vermelho e para quem treina quem veste de vermelho. O Benfica perdeu com o Barcelona na Luz depois de ter estado a ganhar por dois golos de diferença, voltou a perder com o Casa Pia em Rio Maior e distanciou-se do Sporting e viu um áudio de pouco mais de um minuto agitar um universo que ainda este mês conquistou um troféu. 

A meia-hora que Bruno Lage passou nas garagens da Luz na noite de sábado, depois de toda a comitiva chegar da derrota em Rio Maior, lançou o Benfica para horas de incerteza e dúvida. O treinador encarnado pareceu criticar a estrutura, pareceu criticar os jogadores e pareceu criticar um aparente estado a que o clube chegou — mas não demorou 24 horas a convocar uma conferência de imprensa para se explicar, sozinho numa mesa com Rui Costa, Rui Pedro Braz e Lourenço Coelho à frente, garantindo que tudo o que disse já tinha sido transmitido ao plantel.

Ficha de jogo

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Juventus-Benfica, 0-2

Fase de liga da Liga dos Campeões

Allianz Stadium, em Turim (Itália)

Árbitro: Istvan Kovács (Roménia)

Juventus: Mattia Perin, Kenan Yıldız, Federico Gatti, Pierre Manuel Locatelli, 16′), Douglas Luiz, Khéphren Thuram (Koopmeiners, 61′), Weston McKennie, Tim Weah, Francisco Conceição, Vlahovic, Samuel Mbangula (Nico González, 61′)

Suplentes não utilizados: Carlo Pinsoglio, Michele Di Gregorio, Vasilije Adzic, Nicolò Fagioli, Nicolò Savona, Jonas Rouhi

Treinador: Thiago Motta

Benfica: Trubin, Tomás Araújo (João Rego, 90+2′), António Silva, Otamendi, Alexander Bah, Florentino, Kökçü (Rollheiser, 90+2′), Fredrik Aursnes, Di María (Leandro Barreiro, 72′), Pavlidis (Amdouni, 84′), Schjelderup (Aktürkoğlu, 72′)

Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Adrian Bajrami, João Fonseca, Jan-Niklas Beste, Leandro Santos, Nuno Félix, Gianluca Prestianni

Treinador: Bruno Lage

Golos: Pavlidis (16′), Kökçü (80′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Vlahovic (56′), a Otamendi (63′), a Alexander Bah (78′)

Esta terça-feira, na antevisão do jogo crucial com a Juventus, Bruno Lage voltou a falar. Tentou colocar o foco no que se passava dentro das quatro linhas, mas não conseguiu esconder o óbvio: o resultado em Turim, a continuidade ou não na Liga dos Campeões, tinha uma sombra clara criada por um áudio de pouco mais de um minuto. “Falei sobre determinadas situações que a nossa equipa não pode fazer. Trabalhámos nesse assunto e os problemas resolvem-se no campo, a treinar e a mostrar o trabalho em jogo. É isso que sinto. Sei o que tenho de fazer, o passo que temos de dar para sermos mais consistentes, e há questões que temos de treinar. Mas há detalhes que não se resolvem apenas com treino. Demora muito tempo, dedicação, e temos de saber fazer crescer a equipa nesse sentido. Estou de consciência tranquila, o que fiz foi em defesa do grupo”, atirou o treinador, que garantiu que não iria colocar o lugar à disposição independentemente do jogo de Itália.

Ora, neste contexto e sem Álvaro Carreras e Arthur Cabral, ambos expulsos há uma semana contra o Barcelona, Bruno Lage lançava Alexander Bah na esquerda da defesa, com Tomás Araújo no lado contrário, e voltava a apostar em Schjelderup em detrimento de Aktürkoğlu. O Benfica precisava apenas de um empate para garantir a presença no playoff de acesso aos oitavos de final e do outro lado, numa Juventus que tinha mais dois pontos, Thiago Motta tinha Vlahovic como a natural referência ofensiva e Francisco Conceição no onze inicial.

O jogo começou a um ritmo louco e o golo poderia ter aparecido logo nos instantes iniciais e em qualquer uma das balizas. Pavlidis falhou o desvio por centímetros depois de um cruzamento de Di María na direita (2′) e Schjelderup viu Mattia Perin travar um remate com uma boa defesa (2′), mas Trubin também teve de se aplicar para parar um cabeceamento forte de Mbangula (2′). A Juventus tentava claramente explorar o corredor direito do ataque, lançando Francisco Conceição em velocidade, enquanto que o Benfica conseguia encontrar espaço nas costas da defesa italiana com alguma facilidade.

Schjelderup voltou a ficar muito perto de marcar ainda dentro dos dez minutos iniciais, com mais um remate que Mattia Perin defendeu (6′), e Thiago Motta acabou por ter de realizar uma substituição forçada à passagem do quarto de hora inicial por lesão de Kalulu, lançando Locatelli. Logo depois, o Benfica conseguiu marcar. Aursnes tirou um passe perfeito a descobrir Bah descaído na esquerda, o dinamarquês segurou e assistiu Pavlidis, que de primeira e já na área atirou para abrir o marcador (16′). 

A Juventus não conseguiu propriamente reagir ao golo sofrido e, apesar de passar muito tempo no meio-campo contrário, mostrava-se algo inconsequente. Francisco Conceição era mesmo o principal desequilibrador dos italianos, apoiado pela veia ofensiva do lateral Tim Weah, mas o Benfica ia conseguindo obrigar o adversário a lateralizar e a apostar essencialmente em cruzamentos que não davam frutos. Do outro lado, com recurso a lances rápidos e diretos, os encarnados criavam perigo quase sempre que se aproximavam da baliza de Mattia Perin — e Pavlidis poderia ter bisado à meia-hora, de cabeça, com o guarda-redes a segurar (30′).

Já pouco aconteceu até ao fim da primeira parte, com a Juventus a pressionar essencialmente através da posse de bola e o Benfica a manter-se muito seguro e alicerçado numa exibição sonante de Florentino, que não abria a porta a qualquer sobressalto para a defesa encarnada. Pavlidis teve uma enorme ocasião para aumentar a vantagem já nos descontos, rematando na área para mais uma defesa importante de Mattia Perin (45+3′), e o Benfica foi mesmo a ganhar pela margem mínima para o intervalo — e virtualmente apurado para o playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e a primeira oportunidade da segunda parte pertenceu à Juventus, com Mbangula a rematar com muita força para uma defesa importante de Trubin (49′). O Benfica respondeu por Kökçü, que atirou rasteiro e ao lado depois de uma assistência preciosa de Di María (51′), e a lógica do encontro mantinha-se: os italianos tinham mais bola, os encarnados não tinham muitas dificuldades para chegar ao último terço com poucos passes.

Kenan Yıldız quase empatou já perto da hora de jogo, com um pontapé que foi à malha lateral (58′) e já depois de um remate rasteiro de Khéphren Thuram (58′), e surgia a sensação de que a Juventus estava a crescer e a chegar de forma mais recorrente e intensa à baliza de Trubin. Thiago Motta procurou surfar essa onda, lançando Nico González e Koopmeiners, e Bruno Lage tentou refrescar a equipa e a transição defensiva ao trocar Di María e Schjelderup por Aktürkoğlu e Leandro Barreiro.

Trubin voltou a ser decisivo à entrada para o último quarto de hora, ao parar um desvio de Douglas Luiz na área (75′), e o Benfica ia atravessando a fase mais complicada de toda a partida. Leandro Barreiro até poderia ter aumentado a vantagem, num lance em que rematou fraco para as mãos de Mattia Perin na cara do guarda-redes (76′), mas a Juventus estava claramente por cima das ocorrências a continuava a provocar muito trabalho à linha defensiva encarnada. Só não conseguiu ser eficaz.

A dez minutos do fim, na sequência de uma ótima movimentação ofensiva de toda a equipa, Leandro Barreiro jogou com Pavlidis, o grego colocou à entrada da grande área e Kökçü, aproveitando uma simulação de Aktürkoğlu, atirou rasteiro para aumentar a vantagem e sentenciar o resultado (80′). O Benfica venceu a Juventus em Turim e garantiu a presença no playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões sem espaço para grandes dúvidas. Mais do que isso, o Benfica conseguiu realizar uma exibição sólida e estável depois de uma semana débil e instável. E aí, Florentino foi o verdadeiro hacker que até um áudio soube desarmar.