Com o seu mais célebre romance, A Parede (1963), a austríaca Marlen Haushofer vem inserir-se numa longa linhagem de narrativas acerca de pessoas presas em lugares remotos, longe de qualquer sinal de civilização (para dar apenas alguns exemplos, pensemos em Walden, ou a Vida nos Bosques (1854), de Thoreau, O Deus das Moscas (1954), de William Golding, ou A Estrada (2006), de Cormac McCarthy, ou no grande filão de séries pós-apocalípticas, como The Last Man on Earth, The Last of Us e Quinta das Celebridades).
Além dessa condição intrínseca a todos, que nos impele a imaginarmo-nos o centro e destino da história humana, todas as gerações tiveram os seus motivos para julgar iminente o fim do mundo conforme o conhecemos. No caso de Marlen Haushofer, A Parede surge dois anos após a construção do muro de Berlim e poucos meses depois da sugestão de um conflito atómico trazida pela crise dos mísseis de Cuba.
A história resume-se em poucas linhas: a protagonista (cujo nome nunca é referido mas que aqui, por conveniência, denominaremos de P.), fora convidada por um casal amigo a passar alguns dias num pavilhão de caça nos Alpes austríacos. Por temer quase paranoicamente uma crise atómica, o homem do casal, Hugo, preparara o pavilhão para um apocalipse que o apanha fora de casa, como tantas vezes acontece a quem se tenta desesperadamente proteger do mundo. Ora, certa noite, tendo o casal descido à aldeia e deixado P. sozinha em casa, uma parede invisível vem isolar a protagonista do resto do mundo. A parede parece impenetrável e robustíssima e, do outro lado, P. não vê sinais de vida, à exceção do fumo que nessa manhã ainda sobe das chaminés e de um homem parado como uma estátua, que muitos meses mais tarde seria derrubado pelo vento e encoberto pelo musgo.
Título: “A Parede”
Autora: Marlen Hausofer
Tradução: Gilda Lopes Encarnação
Editor: Antígona
Páginas: 296
Ainda que seja evidente a linhagem em que Haushofer se vem inserir, A Parede parece escrito em permanente diálogo com o romance inaugural do estilo, Robinson Crusoe (1719). Ao longo do livro, apesar de só por uma vez haver uma alusão clara à obra de Daniel Defoe (“O passado e o futuro banhavam uma ilhota tropical chamada ‘aqui e agora'” (p.225)), Haushofer dedica-se a revisitar a célebre história do náufrago, reconstruindo-a numa perspetiva mais condizente com os valores modernos.
Desde logo, Robinson Crusoe dá à costa numa ilha perdida ao largo da Venezuela do século XVII, ao passo que P. está presa no centro da Europa, sendo que, enquanto Robinson Crusoe tudo faz para escapar à ilhota tropical onde se viu isolado, P. apenas muito esporadicamente inspeciona o muro, sem nunca sondar a sua altura, como decerto qualquer um faria para ver se poderia subir à parede e confirmar que não se tratava de uma bizarra ilusão de ótica. P. não confirma se o muro é fechado ou se haverá nele alguma abertura, não tenta parti-lo, nem o visita nervosamente à espera que desapareça tão misteriosamente como aparecera. Limita-se a assumir que se trata de uma estranha arma de guerra e não mais se apoquenta com o assunto.
Estas duas diferenças têm desde logo um corolário importante: Robinson Crusoe está rodeado de uma natureza inóspita, que tenta dominar e vencer, impondo sobre ela a astúcia e engenho da humanidade, tida então como centro absoluto da criação de Deus. A Natureza é o vilão da história e o Homem o seu herói. Já em A Parede, a protagonista vê-se presa num ambiente severamente humanizado (há cabanas, há enlatados, há tabaco, há até um automóvel) e é a presença humana que surge como invasora, agora lentamente subjugada. O Homem é o vilão da história e a Natureza o herói de uma batalha que se reproduz também dentro da protagonista.
Por vezes, sinto-me muito confusa, é como se a floresta começasse a ganhar raízes dentro de mim e usasse o meu cérebro para conceber as suas ideias ancestrais e eternas. E a floresta não quer que o homem regresse” (p.195)
Não causa por isso espanto a diferença de tratamento dado aos animais nos dois romances. Em Robinson Crusoe, para horror dos leitores modernos, o protagonista acrescenta num aparte que havia um cão e duas gatas no navio naufragado, mas que não os resgatara imediatamente por dar prioridade a outros recursos. Mais tarde, as gatas reproduzir-se-ão selvaticamente, levando o náufrago a afogar as suas crias. Aliás, muitos anos depois, também a relação de Crusoe com o servo Sexta-Feira, ainda que pautada por grande afeição e por uma ternura quase homoerótica, será sobretudo regida pela ordem do mundo de então, já que, mesmo numa ilha deserta, a estratificação social é absoluta. Ora, em A Parede, a protagonista condiciona o seu bem-estar ao dos animais e repete uma e outra vez que só lhe custaria morrer por recear o que aconteceria à sua vaca, ao seu cão e aos seus gatos (todos com direito a um nome, ao contrário da protagonista e, já agora, dos animais de Crusoe. Se Crusoe se orgulha dos animais que mata e dos expedientes que encontra para os caçar, P. ama até os animais selvagens e descreve a repulsa que sentia por ter de caçar, defendendo-se com a necessidade de garantir a sua sobrevivência e a felicidade do seu cão, bem como de assegurar que a caça não se multiplicava em excesso e acabava encurralada na floresta, sem nada para comer.
▲ A ter a companhia de alguém, a protagonista de Marlen Haushofer deseja apenas "uma mulher já idosa, inteligente e divertida, alguém com quem me pudesse rir de vez em quando" (p.69). Porque P. sabe que, presa num mundo sem lei nem ordem, teria no sexo forte o seu maior predador
Se Robinson Crusoe impõe a língua inglesa ao selvagem que resgata dos canibais, sem manifestar qualquer interesse pela linguagem de Sexta-Feira, P. parece conversar com os seus animais na língua deles, alinhando sempre nas brincadeiras por eles inventadas.
Se Robinson Crusoe se imagina na ilha por ter sido escolhido entre os homens por Deus para enfrentar tamanha provação redentora, P. nem por um segundo concebe que a parede tenha uma origem religiosa, não discerne qualquer Providência divina na tragédia e nunca orienta os pensamentos para os céus. Se Robinson Crusoe lê a Bíblia, P. lê almanaques de horticultura e entediantes livros de detetives.
Poderíamos, com toda a razoabilidade, assumir que tudo isto constituiria uma crítica a um tempo anterior, como se Marlen Haushofer revisitasse o clássico de Defoe para expor a monstruosidade do Homem do século XVII. Poderíamos achar que a escritora austríaca está aqui a mostrar-se desiludida (até desesperada) com a humanidade e a louvar uma Natureza cada vez mais fragilizada pelo Homem. Tudo isso seria, em certo sentido, verdade.
No entanto, parece-me que a diferença fundamental entre Robinson Crusoe e A Parede não é o espírito do tempo de que ambos nascem, nem a existência de bombas atómicas prestes a explodir. A principal diferença entre os dois romances é que num o protagonista é um homem e no outro uma mulher. Por isso, Robinson Crusoe anseia pelos seus semelhantes e P. foge deles como Crusoe dos canibais. Porque P. sabe que “até então todos os perigos sempre haviam procedido do mundo humano (…) o único inimigo que eu conhecera em toda a minha vida passada fora, na realidade, o ser humano” (p.23). Porque P. “nunca [teve] medo de andar à noite pela floresta, ao passo que na cidade [se] sentia sempre ameaçada” (p.60). Porque P. tem a certeza de que numa ilha deserta, sem a, já de si fraca, mediação das leis, acabaria subjugada por uma pessoa fisicamente mais forte. Afinal, “deve ser muito tentador para qualquer homem ver-se confrontado com a possibilidade de se livrar dos seus deveres. Por que razão, de resto, iria um homem trabalhar, se já ninguém o podia criticar por não o fazer?” (p.69).
A ter a companhia de alguém, a protagonista deseja apenas “uma mulher já idosa, inteligente e divertida, alguém com quem me pudesse rir de vez em quando” (p.69). Porque P. sabe que, presa num mundo sem lei nem ordem, teria no sexo forte o seu maior predador.