Foi um início a todo o gás, tornou-se um arranque com demasiado gás. Um mês depois de fazer a estreia pelo AC Milan nas meias-finais da Supertaça de Itália frente à Juventus, Sérgio Conceição já ganhou, empatou e perdeu, já celebrou ou demonstrou insatisfação com golos decisivos em período de descontos, já venceu um troféu, já mudou parte do plantel sendo uma das formações transalpinas com maior número de mexidas no mercado de transferências, já se chateou com jogadores (um deles, o capitão David Calabria, deixou a equipa em janeiro), já mereceu elogios de dentro e de fora, já apontou o dedo à imprensa. Um pouco de tudo com apenas um mês de reinado nos rossoneri. A partir de agora, havia uma espécie de novo início de era.

Sérgio jogou com onze e um poste quase até ao fim, mas não chegou: AC Milan e Inter empatam no dérbi de Milão

A última semana foi tudo menos fácil para o treinador português. Primeiro, pela derrota e sobretudo o nível da exibição da equipa em Zagreb frente ao Dínamo na última jornada da Liga dos Campeões. Depois, pelas várias notícias que foram dando conta de um desagrado crescente no balneário, com jogadores a pedirem para deixar Milanello (como aconteceu mesmo com Álvaro Morata), descontentes pelos métodos de trabalho em campo e desconfortáveis com as críticas e chamadas de atenção em tom elevado nos balneários – a ponto de haver mesmo um jornal que falava em possíveis sucessores como Massimiliano Allegri, Xavi Hernández ou Edin Terzic. Por fim, pelo empate com sabor a derrota no dérbi com o Inter, que teve o AC Milan a sair na frente ao intervalo mas a consentir o 1-1 no penúltimo minuto de descontos após uma pressão dos nerazzurri que teve pelo meio três bolas nos ferros. A lua de mel da Supertaça estaria de vez “esfumada”.

“Compreendo o momento e o ambiente mas temos de ser mais fortes. Estamos no AC Milan. Os jogadores têm de assumir a responsabilidade de manter a bola e parar os adversários, não permitindo que cheguem à nossa baliza muitas vezes. Já tive uma equipa com estas características no passado. É verdade que o tempo não é suficiente. Houve rumores sobre o meu futuro mas acabei de chegar. Ainda tenho bagagem no carro e a imprensa já me quer mandar embora. Tem havido muito ruído mas há coisas que não são verdadeiras. O importante foi demonstrar personalidade, ambição e vontade de ganhar um jogo que era mais do que um jogo. Temos de ter esta consistência no Campeonato e noutras competições”, apontou.

“Falámos com eles de coisas positivas e negativas, isso fica no balneário. Eles aceitam o que propomos, temos pouco tempo e não é fácil. Há momentos em que a equipa não tem a bola e analisá-la apenas no vídeo é difícil. A intensidade que peço sem bola é a treinar e não tenho tido tempo. Baixámos a equipa contra o Inter e compreendemos o momento. Houve momentos que gostei mais e menos. O problema mental estava lá, temos de ter continuidade e isso não é negociável. Se não há vontade de jogar, algo não está bem”, frisou depois de mais um empate que deixou a equipa na oitava posição, a oito da Lazio na luta pela Champions.

Agora, começava a tal nova “era”. Logo à cabeça, a receção à Roma (adversário com quem Paulo Fonseca empatou em San Siro antes de ser dispensado) era para a Taça de Itália, sem margem de erro visando uma qualificação para as meias-finais da competição. Depois porque o mercado fechara, com as entradas de João Félix, Santiago Giménez, Riccardo Sottil e Warren Bondo entre as saídas de Álvaro Morata, Bennacer, David Calabria, Okafor e Kevin Zeroli, “blindando” o grupo ao habitual ruído dos últimos dias de transferências. Por fim, e acima de tudo isso, porque as opções ofensivas do AC Milan subiram e muito, com Abraham, que está emprestado pela Roma, a bisar antes de uma estreia de sonho de João Félix logo a marcar, com uma celebração onde fez questão de calar os críticos face aos constantes projetos falhados dos últimos anos.

Apesar do dérbi intenso de domingo, Sérgio Conceição optou por fazer apenas duas alterações na formação inicial com as saídas de Bennacer (que saiu para o Marselha por empréstimo no último dia de transferências) e Rafael Leão para as entradas de Fofana e Jiménez. Podia esperar-se um jogo de maior contenção, aquilo que se viu foi o oposto: um clássico aberto, com várias oportunidades, a ter um técnico português bem mais ativo na zona técnica do que Claudio Ranieri. Tammy Abraham deu o mote com o 1-0 logo aos 16′, na sequência de um cruzamento de Theo Hernández após defesa da Svilar a remate de Reijnedrs com um grande gesto de cabeça que deixou o antigo guarda-redes do Benfica “pregado” ao chão. Era apenas o início.

Como aconteceu com o Nápoles na última jornada no Olímpico, em que Angeliño conseguiu materializar a boa reação à desvantagem com o empate nos descontos, a Roma voltou a ter uma resposta forte ao golo do inglês apesar de mais um aviso do avançado com um desvio de cabeça por cima após cruzamento de Pulisic. Pisilli teve a melhor oportunidade com um cabeceamento à trave (20′) mas o AC Milan não conseguia ter um jogo capaz de contrariar a pressão dos giallorossi, com Dybala a assumir cada vez maior protagonismo e Maignan a evitar por mais do que uma vez o 1-1. Os visitantes não marcaram, os visitantes acabaram por sofrer: Musah conseguiu virar o centro de jogo, Theo Hernández entrou por dentro aproveitando os maus posicionamentos dos romanos na transição e Tammy Abraham não perdoou isolado na área (42′).

Ranieri não perdeu tempo a mexer na equipa, lançando Dovbyk, Pellegrini e Devyne Rensch ao intervalo, e as características da partida foram prolongadas do final da primeira parte, com a Roma a ter mais bola e linhas de pressão mais altas frente ao AC Milan a querer controlar com bola olhando sempre para transições que pudessem encontrar os espaços que ficavam em aberto. Kyle Walker, com um remate de cabeça à trave após canto, poderia ter acabado de vez com as contas mas foram os romanos que conseguiram reduzir por Dovbyk, num desvio na pequena área (54′). O jogo ficava ainda mais reaberto, com Sérgio Conceição a lançar Santi Giménez e João Félix, a jogar com o número 79 como nos seis meses de Benfica, juntando um pouco depois Rafael Leão à “festa”. 12 minutos depois, tudo ficou resolvido: Giménez isolou Félix e o português fez um chapéu com classe a Svilar para o 3-1 (71′), sentenciando a passagem às meias-finais da Taça.