A entrada de sonho depressa se tornou um pesadelo. Sérgio Conceição chegou ao AC Milan há cerca de um mês, conquistou a Supertaça nos primeiros dois jogos que fez e parecia ser o homem certo para dar a volta a uma temporada difícil dos rossoneri — mas o crédito inicial não demorou a ser substituído por dúvidas, questões e incertezas. 

Depois da vitória tirada a ferros contra o Parma, onde o treinador português substituiu Theo Hernández e Rafael Leão ao intervalo e acabou a discutir com Davide Calabria, o AC Milan estatelou-se na Croácia e perdeu com o Dínamo Zagreb, numa derrota que não colocou em causa o apuramento para o playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões. Ainda assim, a semana deixou marcas e poderá continuar a ter ondas de choque.

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De acordo com a imprensa italiana, o plantel do AC Milan está a estranhar a abordagem mais dura e implacável de Sérgio Conceição, com estágios antes dos jogos, treinos noturnos e sessões duplas, para além de palavras mais agressivas no balneário e um tom que não era comum em Stefano Pioli ou Paulo Fonseca. Davide Calabria está de saída para o Bolonha, Álvaro Morata pediu para sair e vai jogar no Galatasaray e o treinador português terá mesmo contado com a ajuda de Zlatan Ibrahimovic para ter uma conversa mais intimista e motivacional com os jogadores na antecâmara do dérbi deste domingo contra o Inter Milão.

Pelo meio, Sérgio Conceição recebeu um apoio importante: o de Christian Vieri, antigo internacional italiano que jogou com o português na Lazio e que também representou o AC Milan. “O Sérgio é como um irmão para mim. Adorava ter estado na mesma equipa que ele toda a minha carreira. Hoje vejo nele um grande coração, uma grande paixão e uma grande determinação. Os treinadores são os primeiros a levar com m**** na cara. Se treinas o AC Milan, o Inter ou a Juventus tens de ganhar. Caso contrário, pagas a fatura. Acham que o Paulo Fonseca é mau? Ou o Pioli? O Sérgio também não é, mas é preciso tempo e capacidade para construir uma equipa. Mas quando treinas o AC Milan tens de ganhar muito rapidamente”, disse o antigo avançado em entrevista à Gazzetta dello Sport.

Neste contexto, o treinador português lançava Yunus Musah, Bennacer e Reijnders no meio-campo, com Pulisic e Rafael Leão no apoio a Tammy Abraham, deixando Chukwueze, Luka Jovic e Noah Okafor no banco. Do outro lado, num Inter Milão que vinha de quatro vitórias consecutivas, Simone Inzaghi apostava nos crónicos Lautaro e Marcus Thuram na frente, com Dumfries e Dimarco a desempenharem os habituais papéis cruciais nos corredores.

O Inter começou claramente melhor, com Dimarco a acertar na baliza ainda dentro dos dez minutos iniciais mas o golo a ser anulado por fora de jogo de Lautaro, que fez a assistência (6′). O AC Milan tinha muita dificuldade para sair a jogar com a bola controlada, falhando demasiados passes no próprio meio-campo, e apostava essencialmente na profundidade e na vertigem de Rafael Leão para tentar aliviar a pressão adversária.

A equipa de Simone Inzaghi ficou muito perto de marcar ainda no primeiro quarto de hora, com Barella a obrigar Mike Maignan a uma defesa atenta (12′), e o conjunto de Sérgio Conceição ia vendo o tempo passar sem conseguir criar uma situação de perigo. O Inter teve mais um golo anulado, com Barella a ser apanhado em posição irregular antes de assistir Lautaro (33′), e o AC Milan assustou pela primeira vez já perto do intervalo e com Reijnders a ver Yann Sommer evitar o golo com uma boa defesa (38′).

Em cima do final da primeira parte, porém, reinou a eficácia. Na sequência de um contra-ataque vertiginoso e conduzido por Rafael Leão, o português atirou rasteiro para uma defesa incompleta de Yann Sommer e Reijnders, na recarga, atirou para abrir o marcador (45′). Ao intervalo, apesar da superioridade clara do Inter, o AC Milan estava a vencer o dérbi de Milão.

Sérgio Conceição mexeu logo no início da segunda parte e fez uma alteração no meio-campo, trocando Bennacer por Álex Jiménez. O Inter poderia ter empatado logo nos primeiros instantes após o intervalo, com Mike Maignan a parar um remate de Lautaro (46′), e a história do primeiro tempo repetia-se à boleia da superioridade dos nerazzurri e da dificuldade dos rossoneri para fugir às amarras do adversário.

Simone Inzaghi mexeu à passagem da hora de jogo, lançando Carlos Augusto, Zielinski e Bisseck de uma vez, e o Inter viu um golo ser anulado pela terceira vez, desta feita por falta de Dumfries sobre Theo Hernández antes de assistir Lautaro (64′). O AC Milan ia afundando e sofrendo cada vez mais, com menor capacidade de sair em velocidade e soltar-se do último terço, e foi neste período que Bisseck cabeceou ao poste depois de um canto (67′).

Ainda assim, o encontro mudou nos últimos 20 minutos e partiu ligeiramente, abrindo mais espaços e relativizando a superioridade do Inter. Reijnders poderia ter bisado neste período, com um remate que Yann Sommer encaixou (75′), e o AC Milan reconquistou a vontade de explorar as costas da defesa adversária e ferir o oponente em transição e velocidade. Sérgio Conceição voltou a mexer já no derradeiro quarto de hora lançando os jovens Francesco Camarda e Filippo Terracciano, os nerazzurri acertaram no poste em duas ocasiões nos últimos instantes e os rossoneri acabaram por não resistir às últimas investidas contrárias.

Já bem dentro dos descontos, Bisseck cruzou da direita para a esquerda, Zalewski amorteceu a bola com o peito e De Vrij atirou para finalmente bater Mike Maignan e empatar o jogo (90+3′), colocando alguma justiça no resultado face a tudo o que tinha acontecido. No fim, AC Milan e Inter Milão empataram no primeiro dérbi de Sérgio Conceição em Itália, com a equipa do treinador português a cair para o oitavo lugar e a ficar a quatro pontos da zona de apuramento para as competições europeias.