Deus saberá o que é a linguagem. Nós, trancados do lado de cá, obrigados a falar dela através dela e sem ângulo para a ver a partir de cima, efabulamos, disfarçando como podemos. Seja como for, não será muito polémico dizer que isso a que chamamos alta literatura passa sempre por uma certa habilidade no uso da linguagem, isto é, por uma certa mestria na hora de escolher palavras e juntá-las a outras palavras.

Embora se tenha tornado prática comum apresentar os livros através dos “temas” em causa, talvez a melhor maneira de atacar os contos de Lygia Fagundes Telles (1918-2022) reunidos em Os Objectos (ed. Tinta-da-China) passe precisamente por chamar a atenção para o modo como a linguagem ganha forma nestas assombrosas miniaturas literárias. Estamos diante de uma estilista de primeira, a quem o Prémio Camões de 2005 não ficou largo com o passar do tempo. Poderia desaparecer o dom do raciocínio, poderia extinguir-se o desejo de interpretação, que a música verbal de Lygia F. T. seria já, por si só, uma delícia.

As palavras que formam os contos – representativos de todo o percurso literário da autora e selecionados por Clara Rowland e Joana Matos Frias, responsáveis também pelo exercício crítico que encerra o volume – são contidas, mas também cortantes como a tesoura da menina suicida em “Uma Branca Sombra Pálida”; são calorosas, mas também opressivas como o jazigo do cemitério, em “Venha ver o pôr-do-sol”, onde acabará fechada para sempre a “a minha querida Raquel”. A apetência por frases curtas e enredos nítidos, o respeito pela economia que o formato do conto requer, não limita de nenhum modo o alcance do discurso – a língua de Lygia F. T. é uma língua para todas as estações.

Se quisermos provas imediatas da expressividade da escritora brasileira, vale a pena considerar a maneira como tece as suas descrições. Quem alguma vez teve pretensões literárias sabe que o momento de descrever corresponde a uma situação delicada: de um lado, espreita-nos a fossa da banalidade; do outro, o precipício da afectação. Em “A Estrutura da Bolha de Sabão”, em vez de comentar directamente a emoção da mulher que no meio de um evento social acaba de receber uma notícia dura, Lygia F. T. opta por descrever o estado de espírito da personagem concentrando-se nos objectos próximos: “A bandeja de uísque oscilou perigosamente acima do nível das nossas cabeças. Os copos tilintaram na inclinação para a direita, para a esquerda, deslizando num só bloco na dança de um convés na tempestade.” Em “Tigrela”, um conto peculiar no qual as fronteiras entre a tigresa e a dona da tigresa se vão esbatendo progressivamente, o orgulho desesperado da protagonista é tratado nos seguintes termos: “Dois dias sem comer, arrastando pela casa o colar e a soberba”. A lista de achados deste tipo – descrições tão minimalistas quanto agudas – poderia encher vários parágrafos. Exemplos que servem apenas para mostrar como os contos de “Os Objectos” conservam um ténue encanto de redacção escolar mas, em vez de serem capturados por fórmulas esquemáticas ou ousadias de amador, juntam-lhe a precisão e a inventividade do melhor lirismo.


Título: “Os Objectos”
Autora: Lygia Fagundes Telles
Editora: Tinta da China

Páginas: 224

Outro aspecto estilístico notável, que parece estar na base do título escolhido para a antologia, prende-se com a capacidade de Lygia F. T. para sondar grandes problemas da vida amarrando a história a pequenas coisas concretas. Uma perseguição aos “temas” lygianos descobrirá com facilidade os suspeitos do costume. A morte é presença constante nestes contos. O suicídio, em particular, parece ser uma das obsessões da escritora. A loucura, a incomunicabilidade e o amor têm também direito a generosos tempo de antena. Mas o ponto relevante é que, ao tratar tão elevadas matérias, a narração não sente necessidade de se pôr em bicos de pés ou aclarar a voz de pregador. Lygia F. T. prefere manter a história a num registo raso, rente à concretude do mundo, fazendo que os objectos, os animais e os comportamentos humanos ecoem estranhas sugestões de sentido. Detém-se num dedo com anel, semi-enterrado na areia, descoberto por acaso num passeio pela praia. Constrói pesadelos a partir de uma tapeçaria exposta no fundo da loja de antiguidades, a partir de flores brancas e flores vermelhas que competem pela atenção duma morta. Faz menção a uma “lupa poderosa” que “revelaria montes e vales na superfície da página” e que parece, na verdade, uma metonímia do próprio poder ampliativo destes textos.

A escrita de Lygia F. T. tem qualidades que a ligam a uma linhagem importante na literatura do século XX, da qual saíram alguns dos mais brilhantes marcos na história da ficção breve. Essa linhagem inclui nomes como Franz Kafka e Dino Buzzati, e caracteriza-se por um duplo mandato programático: máxima clareza na forma, máxima opacidade quanto ao sentido. Várias dos contos reunidos em Os Objectos partilham desta natureza ambígua, definida pelo facto de o contraste entre a transparência do “como” e a nebulosidade do “quê” resultar num efeito expressivo de grande força estética.

O leitor não encontra aqui o frasear longo de alguns romancistas franceses, nem o tom hermético de alguns romancistas germânicos. O estilo de Lygia é límpido, é sacudido, tem os contornos marcados de um dia de sol sem nuvens. No entanto, tal como em Kafka ou Buzzati, o lugar de onde as palavras partem – que é também o lugar a que regressam, em finais quase sempre perturbadores – é a consciência do violento e inapreensível mistério da vida. A estas histórias, assenta bem o título do célebre livro de Carlos Drummond de Andrade, leitor confesso da autora, que numa carta que lhe é dirigida refere com propriedade o talento para “sugerir a história profunda sob a história aparente”. Parafraseemos o poeta: os contos de Lygia F. T. são claros enigmas. Textos com uma arquitectura de linhas definidas e paredes sólidas, que afinal nos surpreendem como paredes falsas, através das quais vamos dar a recantos espantosamente sombrios da existência.

Se quase todos os contos reunidos na antologia são lições de bem escrever, alguns destacam-se como autênticas obras-primas do género. Entre estes últimos, salta à vista a repetição de um procedimento formal pelo qual a autora parece ter uma simpatia muito particular. Chamemos-lhe a amnésia do herói. Pelo menos três histórias – “A Fuga”, “O Noivo” e “O Encontro” – seguem uma estrutura idêntica: a personagem principal está, desde o início, esquecida de aspectos decisivos da situação em que se encontra. Do ponto de vista técnico, o expediente pode ser encarado como um mecanismo de prolongamento do suspense, um truque para manter desperta a curiosidade do leitor. Mas o que eleva estes contos a outro nível é o valor espectral do esquecimento em causa e da tensão para a sua anulação que anima as histórias. Por outras palavras, o expediente narrativo a que Lygia F. T. recorre nestes três contos mimetiza um esquecimento mais fundamental – a ignorância de cada sujeito sobre o que se passa consigo – e permite pôr diante do leitor, sob uma luz nova, o fascínio insólito das coisas: uma doença, uma floresta, um casamento por arrasto, o que for. “Esquecemo-nos de que nos esquecemos”, afirmou certa vez Chesterton, procurando descrever o estado de sonambulismo existencial em que nos encontramos por defeito. Dos contos de Lygia F. T. pode muito bem dizer-se – anjos da literatura, soem a trombeta, por favor! – que nos lembram desse esquecimento original.

Deus saberá o que é a vida. Nós, trancados do lado de cá, fazemos as nossas apostas ou ressonamos sobre o assunto, dormindo o agitado sono do quotidiano, dormindo o pacífico sono do quotidiano. Seja como for, não será muito polémico dizer que a alta literatura se define pela capacidade de sobressaltar o registo comum de percepção da realidade. Eis aquilo que, com uma graça insólita, os contos de Lygia F. T. são capazes de fazer. Aproximam-se de nós, abrem-nos os olhos, seguram-nos as pupilas pesadas e ainda nos põem uma lupa poderosa à frente, acrescentando: “Vê? Vê? Esse é o mistério doido.”