Tudo começou com declarações ao Expresso de Virgílio Bento, fundador e CEO da Sword Health. O unicórnio português contava que tinha tentado instalar, gratuitamente, uma solução de inteligência artificial no atendimento do INEM mas não tinha conseguido, porque “o sistema do INEM é obsoleto, frágil. (…) O que encontrámos é assustador”. Ao Expresso o empreendedor forçou o tom, dizendo mesmo que “o estado do sistema de informação assemelha-se à ponte em Entre-os-Rios. Caiu porque não teve manutenção e antevemos um desastre, um colapso, no INEM, dado o sistema de informação que tem”.
Nessas mesmas declarações arrasava ainda a gestão e os técnicos do INEM. “A equipa ficou perplexa com a incapacidade dos técnicos, mais ainda por se tratar de um sistema crítico, absolutamente essencial. O sistema está em risco e não pode acontecer. É um sistema crítico, as pessoas vivem ou morrem com base nesse sistema. Dizemos a verdade, livres, porque não temos nem esperamos contratos com o Governo. Não devemos nem queremos favores e alguém tem de dizer o que está a acontecer no INEM. O feedback da equipa é que estamos perante uma bomba-relógio”.
Perante estas acusações, o INEM, citado pela Lusa, respondeu para “garantir que os sistemas de informação de suporte à atividade de emergência médica são fiáveis e robustos, dando uma resposta competente a mais de 1,5 milhões de chamadas por ano”. E, em comunicado, a Comissão de Trabalhadores do INEM reconhece que o sistema de triagem necessita de melhorias e inovação, tanto a nível tecnológico como clínico, mas apontou como “absolutamente falso que o mesmo se encontre numa situação de ‘bomba-relógio’ e de colapso iminente”.
INEM garante que os seus sistemas de informação são fiáveis e robustos
Perante a polémica, Virgílio Bento recorreu ao Linkedin para reforçar algumas críticas, indicando, no entanto, que os técnicos de emergência médica mostraram disponibilidade, mas a camada intermédia está há 10/20 anos na mesma posição “sem conhecimentos básicos”.
“Curiosamente, seria de esperar que a aversão a um sistema de AI (inteligência artificial) como este viesse dos técnicos que executam o trabalho, mas o que vimos foi que tiveram todo o interesse e disponibilidade em ajudar-nos. O que revela bem a sua preocupação com o que está a acontecer no momento. Um obrigado especial a eles por isso”. E estende os elogios à ministra da Saúde e ao presidente do INEM pelo “interesse e vontade” e pela abertura que “sempre mostraram em relação à nossa solução e a importância da sua implementação”.
Ainda assim, explica que “é impossível conseguir alguma coisa com a camada intermédia de técnicos que estão na mesma posição há 10/20 anos sem conhecimentos básicos. Adicionalmente, há uma aversão à mudança patológica. Esses dois ingredientes combinados explicam o estado do sistema de informação que encontrámos”, o que se torna mais grave, diz, porque “é um sistema crítico em que se falhar, há pessoas que morrem. E neste momento, se o sistema falhar, a nossa opinião é que não há lá ninguém que possa resolver no momento o problema – mas talvez estejamos enganados. Não é comum, mas acontece”.
“As verdadeiras vítimas disto tudo são os técnicos de emergência médica que trabalham com sentido de missão e têm um sistema que em vez de lhes tornar a vida mais fácil, torna o trabalho deles ainda mais difícil”, aponta.
Por outro lado, diz ficar surpreendido “como temos empresas portuguesas líderes em sistemas críticos como a Critical Software, mas dependemos de técnicos do Estado sem conhecimento ou de empresas que parasitam o sistema. Custa assim tanto desviar os milhões pagos à Altice para a Critical Software fazer um trabalho bem feito?”.
No final da mensagem diz que gostaria que a solução desenvolvida pela Sword Health “fosse uma realidade no INEM, mas a integração não depende de nós. Se acontecer vai melhorar o sistema de emergência. Se não, ao menos peçam uma auditoria ao sistema de informação e garantam que é robusto e não falha. Só isso já evita um desastre no futuro”.
Virgílio Bento explica que o sistema de IA desenvolvido pela empresa “segue uma árvore de decisão clínica especificada por nós que tem como objetivo fazer uma rápida avaliação da gravidade do problema por forma a acionar o envio da ambulância o mais rapidamente possível”. Para tal, seria necessário o acesso às chamadas gravados do INEM. “Nunca tivemos acesso às mesmas o que tornou significativamente mais difícil o desenvolvimento do sistema”.