Eram 8h10 quando vários alunos de 9.º ano da escola Básica 2, 3 de São Teotónio, em Beja, começaram a prova-ensaio para se prepararem para o exame final de Português. “A prioridade era garantir eletricidade no contentor onde estava a decorrer a prova” e, para isso tiveram de desligar os ar-condicionados dos contentores vizinhos, impedindo que o quadro elétrico fosse abaixo. A sorte, diz uma professora ouvida pelo Observador, é que esta segunda-feira não estavam 4.ºC, à semelhança da última semana. Para a Fenprof, relatos como este não são surpresa, porque “na generalidade as coisas não funcionaram bem“. Já a Associação de Diretores Escolares garante que, “globalmente, [as provas] correram bem”. E passa a batata quente ao Ministério da Educação, que “com certeza” apoiará as escolas que agora registem problemas antes do momento de avaliação final.

Esta segunda-feira realizaram-se de norte a sul do país provas-ensaio, que têm como objetivo testar o conhecimento dos alunos e a avaliação que acontecerá em formato digital dentro de poucos meses: os alunos de 4.º e 6.º ano farão a ModA (prova de Monitorização da Aprendizagem) em maio e os alunos de 9.º farão as provas finais em junho. Não foi definido um dia específico para realizar este teste, ficando ao critério das escolas. O importante é que a prova-ensaio seja feita entre o dia 10 e o dia 28 de fevereiro.

Provas dos 4.º, 6.º e 9.º anos para testar formato digital arrancam esta segunda-feira

A escola básica de São Teotónio, em Odemira, decidiu começar os testes logo no primeiro dia. “Atualmente, temos cinco contentores para cinco turmas do 9.º ano. Quatro destas turmas estão agregadas ao mesmo quadro elétrico e muitas vezes de manhã não temos eletricidade: temos de desligar os ar-condicionados para que a eletricidade aguente e podermos, por exemplo, projetar algo”, conta ao Observador uma professora desta escola que não quer se identificada.

Garante que a direção desta escola Básica está a fazer “tudo o que pode” e “desdobram-se para dar resposta a todas as situações”, mas, ainda assim, a situação não se altera. Esta segunda-feira, “a prioridade era garantir eletricidade no [único] contentor onde estava a decorrer a prova, em detrimento de ficarmos a bater o dente” nos outros três contentores que partilham o mesmo quadro elétrico, conta.

A situação não é nova — e já levou a que uma funcionária tenha a missão de estar “sempre a olhar para o quadro e, quando este dispara, levantar o interruptor”. A sorte, conta esta professora, é que “hoje não estava muito frio”. No entanto, os problemas não ficaram por aqui: houve “um outro aluno que teve dificuldades em entrar na plataforma e só conseguiu entrar 20 minutos depois”.

“Em circunstância normal, não conseguia acabar a prova”, alerta a docente, acrescentando ainda que “um dos alunos esqueceu-se do carregador e ficou com a prova a meio porque, entretanto, ficou sem bateria e não havia carregadores compatíveis”. Este estudante, acrescenta, optou por “levar o computador particular porque não recebeu computador da escola”.

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“Por cada 60 miúdos havia apenas 40 computadores”

Problemas como estes, defende o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP), devem ser corrigidos nos próximos meses, a tempo das avaliações finais: “Ainda há algum tempo para corrigir eventuais erros. Isto serve para testar o conhecimento dos alunos, mas testa também se as escolas têm material suficiente para assegurar tranquilidade na avaliação”, diz Filinto Lima.

Segundo o dirigente, as provas-ensaio realizadas esta segunda-feira “globalmente correram muito bem”. “É claro que há sempre problemas com computadores e conectividade, mas nas situações em que correu menos bem, com certeza que a escola onde foram registadas tais situações irá reportar à tutela [Ministério da Educação], que apoiará a escola a resolver o problema”, remata.

Por outro lado, a Fenprof não acredita que a pasta tutelada por Fernando Alexandre consiga corrigir todas as falhas que se têm vindo a registar até ao momento da avaliação final. “Tenho dúvidas de que corrijam as situações todas, porque já há promessas de computadores desde 2022″ e até agora ainda há escolas sem “novos materiais”, aponta o dirigente José Feliciano Costa.

Segundo o sindicalista, numa das escolas da capital, “alguns miúdos apareceram sem computador porque não os distribuíram”. “Por cada 60 miúdos havia apenas 40 computadores. E a questão que se põe é: como é que distribuem os computadores e definem prioridades?”. “Não sei como é que o MECI terá condições para corrigir tudo isto”, remata José Feliciano Costa.

“Computadores bloqueados que não arrancavam”

A avaliação que a Fenprof faz do primeiro dia de provas-ensaio choca diretamente com a da ANDAEP. “Em muitas escolas, provavelmente na generalidade, [as provas] não funcionaram muito bem, porque há falta de equipamentos e isto faz-se notar na aplicação das provas”, afirma José Feliciano Costa. O dirigente sindical salienta que ainda é muito cedo para apresentar “dados mais completos”, mas o sindicato já conseguiu reunir algumas informações sobre escolas da Área Metropolitana de Lisboa, especialmente na região de Sintra.

Houve várias escolas com “computadores que não funcionavam, o que implicou que os alunos mudassem de computador” e até “computadores bloqueados que não arrancavam”. Além disto, “os miúdos precisavam de auscultadores e alguns não funcionavam, enquanto noutros casos o som era demasiado baixo e os miúdos não ouviam”. Uma vez que “não podiam repetir” o áudio (porque na prova final é isto que acontece), “isto criava logo ansiedade e nervosismo nos alunos”. O dirigente da Fenprof destacou ainda a falta de “routers ou hotspots” à disposição dos professores.

“Temos aqui um conjunto de problemas que criaram constrangimentos” esta segunda-feira, alerta José Feliciano Costa. “Que conclusão tiramos? Que o secretário de Estado Alexandre Homem Cristo foi ontem [domingo] dizer que as escolas tinham todas as condições e, afinal, não é bem assim”, rematou o sindicalista. E relembrou que o Ministério da Educação tinha conhecimento de alguns dos problemas informáticos que as escolas portuguesas ainda enfrentam.

Ministério acredita que escolas estão preparadas para as provas digitais

No início do ano, a 23 de janeiro, o Ministério de Fernando Alexandre reuniu-se com a Associação Nacional de Professores de Informática (ANPRI), que destacou precisamente alguns dos problemas que a Fenprof agora destaca e que foram compilados num documento. “O MECI sabia destes problemas… E quando isto [as provas] for feito em simultâneo em várias turmas e escolas, em todas as salas? Aplicar a prova a 100% não dá”, argumenta o sindicalista.

Até ao final do mês de fevereiro as escolas irão preparar os alunos para a prova final de 4.º, 6º e 9.º anos através de provas-ensaio. A Fenprof já convocou uma greve que abrange todos os professores convocados para tarefas relacionadas com estas avaliações (que inclui todo o trabalho de secretariado de exames, assim como a vigilância ou correção das provas). A Fenprof diz que ainda não tem “muitos dados” sobre a adesão a esta greve, uma vez que foi apenas o primeiro dia, mas até ao final da semana será feito um balanço.