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Um Coração Independente em casa do duque de Alba. Palácio de Líria abre salões nunca antes visitados para exposição de Joana Vasconcelos

Este artigo tem mais de 1 ano

É a primeira vez que a artista portuguesa expõe num palácio habitado. Líria, a residência oficial do duque de Alba, em Madrid, recebe a exposição "Flamboyant" a partir de 14 de fevereiro.

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De um lado sapatos gigantes feitos com panelas e tampas de aço inoxidável. Do outro, quadros dos séculos XVII e XVIII, de Velázquez ou Goya. “Marilyn”, uma das peças mais icónicas de Joana Vasconcelos, é uma das mais de 20 obras da artista portuguesa que compõem a exposição Flamboyant, que inaugura no dia 14 de fevereiro no Palácio de Líria, em Madrid (Na galeria pode ver algumas das peças que estarão expostas, fotografadas em exposições anteriores). Aberto à visitas desde 2019, é a primeira vez que o público poderá conhecer algumas das salas da residência oficial do duque de Alba, como a capela, o salão de música ou os jardins em estilo francês, que abriga o cemitério de animais domésticos da família. É também a primeira vez que a artista expõe num palácio habitado, já tendo a experiência das instalações em Versalhes, em 2012, e no Palácio da Ajuda, em 2015. Ao Observador, Joana Vasconcelos assume que esta é uma mostra especial. “Exatamente por ser planeada num palácio habitado esta exposição exigiu uma abordagem cuidadosa e uma criteriosa seleção das obras. Foi essencial garantir que as minhas peças estabelecessem um diálogo com os espaços, respeitando a integridade do palácio. Cada instalação foi pensada para interagir de forma sensível com a arquitetura, os interiores e os jardins, oferecendo novas perspetivas”, explica Joana Vasconcelos.

Peças como o enorme coração de Viana feito em talheres de plástico, o Coração Independente Preto, ou o Solitário, gigante anel composto por jantes douradas de carros de luxo, são alguns exemplos do que o público poderá ver nos vários salões recheados de obras do século XVII de artistas como Rubens, Ticiano ou Murillo. “Ao planear as instalações para as salas que serão abertas ao público pela primeira vez, procurei criar um diálogo que realçasse a singularidade desses espaços. A intenção foi surpreender os visitantes, oferecendo-lhes uma nova perspectiva sobre o palácio e sobre a minha obra, ao mesmo tempo que se preserva a essência e a história de cada sala”, explica a artista.

▲ O Palácio de Líria é a residência oficial do duque de Alba

Museu de arte e residência oficial do duque de Alba

Localizado no centro de Madrid, na Calle Princesa, o palácio é parte da Fundação Casa de Alba e a residência oficial de Carlos Fitz-James Stuart y Martínez de Irujo, 19º duque de Alba. Foi construído entre 1767 e 1785, numa arquitetura neoclássica muito parecida com a do palácio real de Madrid. Entretanto, em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, o edifício foi bombardeado e saqueado, sendo reconstruído entre 1945 e 1956. Foi nesta altura que o atual duque de Alba veio viver na residência, quando tinha 8 anos de idade. “Não mudei nada na casa. A decoração é toda da minha mãe. Esta é a sua criação”, diz, numa entrevista à revista espanhola XL semanal.

Decoração que inclui, por exemplo, pratos de porcelana com as imagens da rainha Isabel II e o duque de Edimburgo. Ou os 37 vasos gregos do século quatro antes de Cristo. Ou ainda uma coleção de 80 gravuras de Goya. Peças que fazem parte do acervo da família, e que terão sido organizadas pela popular duquesa de Alba, Cayetana Fitz-James Stuart, que morreu em 2014. Abrir as portas do palácio já era desejo da duquesa, que em 1959 transformou os corredores em passarelle para um desfile da Christian Dior, quando Yves Saint Laurent ainda estava à frente da marca. Em 2019 a família decidiu abrir algumas áreas da residência para visitas, fazendo do Palácio de Líria um dos principais museus de arte de Madrid. “A abertura do palácio ao público é um sucesso. É essencial partilhar a história e a coleção de arte. Somos a maior família nobre da Espanha e a única que ainda existe. Esta continuidade dá um certo orgulho”, diz o duque.

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Apesar de gostar de arte, o duque de Alba assume que não entende de arte contemporânea: “mas quero partilhar os aspetos mais positivos com o mundo. Tenho curiosidade e desejo, o que acontece é que atualmente é muito difícil ser um colecionador por causa dos preços altos das obras”. Atualmente o duque de 76 anos administra a fortuna da família, que inclui 10 palácios, 19 castelos, mais de 250 obras de arte, a biblioteca que abriga cartas assinadas por Cristóvão Colombo, além de 38 mil hectares de terras.

▲ O presidente da câmara de Madrid, José Luis Martínez-Almeida, o duque de Alba e Joana Vasconcelos

© Lionel Balteiro/ LaMousse

Grande investimento e exposição sem precedentes

A 14 de janeiro, durante uma conferência de imprensa de apresentação da exposição, o duque de Alba reconheceu que a ideia de trazer as obras de Joana Vasconcelos ao Palácio de Líria foi um impulso do filho e da nora, Fernando e Sofia, os duques de Huéscar, responsáveis pela programação de arte contemporânea do palácio. “O apoio aos artistas contemporâneos não é novo na história da nossa família. Os duques de Alba sempre foram mecenas e colecionadores de alguns dos mais importantes artistas do nosso tempo”, disse o duque de Alba no evento. “Sinto que tenho o dever de partilhar não só este património com a sociedade, como também apoiar artistas contemporâneos. Estou seguro que esta intervenção de Joana Vasconcelos no Palácio de Líria será um capítulo único na sua larga existência e se converterá numa das grandes exposições da próxima primavera para a cidade de Madrid.”

A aposta na artista portuguesa foi grande. Para a instalação das cerca de duas dezenas de peças de Joana Vasconcelos o palácio teve de ficar fechado por duas semanas. Foi a primeira vez desde 2019 que as visitas foram interrompidas, o que Fernando Fitz-James Stuart reconhece à XL semanal ser “um grande investimento”, a considerar as mais de 107 mil entradas em 2024. Investimento que a Casa de Alba considera justificado: “esta exposição vai estabelecer uma bela sinfonia de contrastes entre a arte clássica aqui presente e a obra contemporânea e monumental criada por Joana. Para mim e para a Fundação Casa de Alba, é uma honra expor a obra de Joana aqui no Palácio de Líria”, assume o duque de Alba. Joana Vasconcelos sente o mesmo. “A receção por parte do Duque de Alba e de toda a família foi extremamente calorosa e acolhedora. Sinto-me honrada por ter a oportunidade de expor neste local de profunda importância histórica e cultural, que alberga uma das mais prestigiadas coleções privadas de arte de todo o mundo.”

A exposição abre a 14 de fevereiro e pode ser vista no Palácio de Líria, em Madrid, até 31 de julho de 2025. Os bilhetes custam 23 euros e incluem audioguia.

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