Tem a mesma densidade competitiva dos rivais diretos, enfrenta os mesmos problemas com ausências por motivos físicos dos rivais diretos (com a agravante de ter perdido dois potenciais titulares com lesões graves no joelho no mesmo encontro e num par de minutos), atravessa uma fase melhor do que os rivais diretos. O impacto da derrota em Rio Maior frente ao Casa Pia não foi fácil, toda a rábula criada em torno do áudio da conversa de Bruno Lage com adeptos na garagem adensou esse cenário mas, com exibições mais ou menos conseguidas, as vitórias foram surgindo. Uma, duas, três, cinco consecutivas. A meio de fevereiro, e depois da conquista da Taça da Liga, o Benfica dependia de si no Campeonato (dois pontos de atraso para o Sporting), na Taça de Portugal (quartos frente ao Sp. Braga) e na Champions, com essa vantagem de um golo.

Benfica empata com Mónaco e segue na Champions, onde vai defrontar Liverpool ou Barcelona nos oitavos

Seria esse avanço determinante? Poderiam as duas vitórias esta temporada no Principado fazer a diferença? Estaria o histórico dos encarnados frente a equipas francesas em casa, sem derrotas entre 13 vitórias e cinco empates, talhado para definir algo agora? Não. Em parte podia ajudar, no caso do triunfo por 1-0 na primeira mão, mas nada mais do que isso. E era sobre essa realidade que Bruno Lage se debruçava na antecâmara da partida. “Mais importante do que tipo de Mónaco, é que tipo de Benfica teremos. É um Benfica que não pode pensar nas duas vitórias anteriores, nem jogar em função do resultado. A nossa determinação tem de ser fazer um bom jogo, estar na nossa melhor versão de Champions e fazer um resultado que nos permita seguir em frente na prova. É esse o nosso objetivo e seria muito importante, quer para nós, quer para o clube e pelo prestígio nacional”, apontara o técnico dos encarnados na antecâmara do jogo com o Mónaco.

Em paralelo, Lage recusava priorizar qualquer competição nesta fase da época, explicando também possíveis razões para haver um menor número de golos marcados nesta fase. “Não podemos pensar nisso nessa forma. Independentemente de ter trazido o caderno de apontamentos ou não, há algo que fala mais alto, que é de 1904, que nos diz que o Benfica tem de dar sempre uma boa reposta a cada momento. E o momento é de Liga dos Campeões e temos de ter o melhor onze. Golos? O mais importante é criarmos as oportunidades de golo. Isso é que tem de ser o nosso trabalho, dar motivação aos nossos jogadores. As coisas vão acontecer com naturalidade, só não podemos descurar o trabalho”, comentara o treinador dos encarnados.

O que poderia também fazer a diferença? A parte física. Manu Silva, Bah, Florentino Luís (que além de estar lesionado, cumpria castigo), Ángel Di María, Renato Sanches e Tiago Gouveia estavam de fora, Aursnes era ainda uma dúvida em aberto, a isso acrescia ainda o risco de exclusão para o próximo encontro de Álvaro Carreras, Otamendi, Kökçü e o próprio Aursnes. “Disse que os jogadores iam jogar no limite mas pelo facto de não termos o tempo mínimo de recuperação. A partir do momento em que não se tem esse tempo, jogar é um risco para qualquer jogador, que se pode lesionar. Fica numa situação em que está sujeito a isso mas não vou especificar”, apontou, entre uma ironia para resumir o que têm sido as últimas semanas: “O Fabrizio Romano, entre janeiro e fevereiro, tem apresentado mais lesões do que contratações…”.

Esse jogar no limite notou-se. Adi Hütter ganhou a batalha a Bruno Lage sobretudo pela capacidade de ter um maior domínio do meio-campo, Bruno Lage ganhou a batalha a Adi Hütter nas substituições pela forma como conseguiu colocar o Benfica melhor e o Mónaco na trajetória contrária perdendo vitalidade no último terço. Sobrou o resultado, sobrou a passagem aos oitavos, sobrou um espírito de equipa que fez toda a diferença no final com Kökçü a ir buscar forças onde parecia não existir para fazer o 3-3 logo na resposta a nova vantagem do Mónaco que selou o resultado e “apagou” tudo o que não correu bem esta noite na Luz com essa certeza que fica evidente: com Manu Silva lesionado, Florentino Luís faz muita falta à equipa.

Ficha de jogo

↓ Mostrar ↑ Esconder

Benfica-Mónaco, 3-3

2.ª mão do playoff da Liga dos Campeões

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Glenn Nyberg (Suécia)

Benfica: Trubin; Tomás Araújo, António Silva, Otamendi, Carreras; Aursnes, Leandro Barreiro, Kökçü (João Rêgo, 87′); Aktürkoglu (Amdouni, 58′), Schjelderup (Dahl, 58′) e Pavlidis (Belotti, 87′)

Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Leandro Santos, Bajrami, Nuno Félix, Diogo Prioste, Tiago Freitas, Prestianni e Arthur Cabral

Treinador: Bruno Lage

Mónaco: Majecki; Diatta, Singo, Kehrer, Caio Henrique (Ouattara, 80′); Akliouche, Camara, Mawissa (Ilenikhena, 80′), Ben Seghir; Embolo (Biereth, 65′) e Minamino (Michal, 87′)

Suplentes não utilizados: Kohn, Lienard, Salisu, Coulibaly, Diop e Bouabre

Treinador: Adi Hutter

Golos: Aktürkoglu (22′), Minamino (32′), Ben Seghir (51′), Pavlidis (76′, g.p.), Ilenikhena (81′) e Kökçü (84′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Akliouche (62′), Leandro Barreiro (67′) e Amdouni (71′)

O jogo teve um início frenético, com três ameaças com muito perigo em pouco mais de cinco minutos: logo a abrir, Kökçü marcou um livre lateral do lado direito, Pavlidis desviou ao primeiro poste e Leandro Barreiro rematou no coração da área para defesa de Majecki (2′); de seguida, Embolo surgiu isolado na área contrária, caiu sem que Trubin chegasse a tocar na bola, ficou a pedir penálti sem que Glenn Nyberg atendesse a esses protestos e o seguimento do lance teve um remate que saiu perto da baliza (4′); pouco depois, Diatta recebeu ao segundo poste após um cruzamento longo da esquerda do ataque, preparou o remate sem oposição mas Trubin teve uma defesa monstruosa a evitar o golo dos monegascos (7′). Ainda não se tinha percebido o que uma e outra equipa podiam promover em campo e já se descobrira aquilo que estavam proibidas de fazer.

Ainda houve jogadas nos minutos seguintes em que o Benfica descobriu espaços sem que o último passe saísse como devia mas essa entrada do Mónaco a todo o gás deixou os encarnados em alerta e à procura de encontrar uma zona de conforto que permitisse evitar que o encontro se partisse e Maghnes Akliouche tivesse tempo para pensar e mostrar que é uma estrela em ascensão acima da média. Era no meio-campo que estava a chave do jogo, foi no meio-campo que nasceu o primeiro momento de desequilíbrio para golo do encontro: Leandro Barreiro subiu uns metros na sua zona de pressão, obrigou Singo a errar com uma interceção à saída do primeiro terço, Pavlidis recuperou a bola posição sem espaço para esboçar o remate mas cruzou tenso para o poste contrário onde apareceu Aktürkoglu a fazer o desvio de primeira para o 1-0 (22′).

Ainda houve mais um desvio de cabeça de António Silva após canto que podia ter levado algum perigo mas o Mónaco teve o mérito de nunca desligar do jogo mesmo em desvantagem. A par disso, fosse na sequência de recuperações ou interceções no meio-campo contrário, fosse em transições rápidas, os franceses conseguiam colocar a bola com facilidade no último terço. Primeiro, após um cruzamento de Diatta, Embolo subiu mais alto na área mas acertou de cabeça no poste (31′). Depois, no minuto seguinte, o meio-campo monegasco cortou mais uma bola após um lançamento lateral de Carreras e Minamino surgiu com espaço para rematar para o empate (32′). O Benfica enfrentava grandes dificuldades no meio-campo, com Leandro Barreiro ainda meio tocado pelo lance que originou o 1-0, Aursnes fazia aquele jogo de regresso após lesão e Kökçü não tinha as melhores referências sem bola, e foi por aí que nasceu a última oportunidade antes do intervalo, com Akliouche a sair rápido em velocidade antes de isolar Embolo na área que rematou por cima (45+4′).

O aviso estava dado, com os adeptos a manifestarem através de assobios a ansiedade por uma primeira parte onde ficavam à vista os sinais de alarme entre os encarnados. Sem mexer em jogadores, Bruno Lage tentou fazer correções sobretudo nas dinâmicas sem bola e na capacidade de ter mais bola para evitar a cadência de jogo ofensivo contrário. Não conseguiu. Pelo contrário, ainda viu a situação piorar: Ben Seghir obrigou logo a abrir Trubin a uma grande defesa para canto após diagonal da esquerda para o meio (47′) mas não perdoou na oportunidade seguinte, com Akliouche a ter mais uma jogada fantástica de pé esquerdo antes de assistir Ben Seghir para o disparo sem hipóteses que fez a reviravolta (51′). Voltava tudo à estaca zero, com os minutos seguintes a serem importantes para o Benfica estabilizar o seu jogo, beneficiar da entrada de Zeki Amdouni para jogar próximo de Pavlidis e contar com o público para recuperar em termos emocionais.

Sem grande inspiração, e com forças limitadas à mistura que condicionavam as decisões, valeu o coração do Benfica em três momentos chave: 1) a forma como o Benfica conseguiu estancar a saída do Mónaco a partir das entradas de Dahl e Amdouni, que deram outra versatilidade em termos ofensivos mas foram importantes na maneira e que impediram o envolvimento dos alas na frente; 2) o espírito de sacrifício de Aursnes, que num lance que parecia perdido sofreu falta de Kehrer na área e permitiu a Pavlidis fazer o empate (76′); 3) a capacidade de reação à adversidade depois do 3-2 de Ilenikhena em mais um lance em que Trubin ficou mal na fotografia, com Carreras a ganhar uma segunda bola numa insistência dos encarnados e a assistir Kökçü num movimento de rutura em que se antecipou a Majecki e desviou para o 3-3 (84′). Com muito sofrimento até desnecessário à mistura, os encarnados saíram por cima e estão nos oitavos.