Depois do encontro com o Verona, decidido por um golo de Santiago Giménez após assistência do recém entrado Rafael Leão, nada mais teve importância na vida de Sérgio Conceição. O treinador português é um apaixonado pelo futebol mas coloca, e colocou sempre, a família acima de tudo. Por isso, e na sequência da notícia da morte de Pinto da Costa, o resto se tornou-se secundário. Não falhou nos compromissos com a equipa, não participou em mais nada do foro público, esteve no velório e depois no funeral do antigo líder do FC Porto sempre de forma discreta, sem falar e visivelmente consternado com o momento. Até aquelas notícias que não lê mas vão chegando, mais ou menos positivas, passaram ao lado desde a noite de sábado.

Sérgio ganhou na noite em que mais perdeu: AC Milan venceu Verona e técnico soube depois da morte de Pinto da Costa

“Antes de responder, é uma situação rara estar aqui. O treinador esteve em Portugal, teve um assunto pessoal, está a caminho”, apontou Zlatan Ibrahimovic, antiga glória do AC Milan que é agora consultor da administração para o futebol, na conferência de imprensa antes do jogo com o Feyenoord. “Sérgio Conceição está muito transtornado pelo falecimento do antigo presidente do FC Porto. Ele era como um pai para ele. Por isso, vim falar em seu lugar”, tinha referido o sueco após a partida com o Verona. Tendo total abertura da parte do clube numa altura particularmente sensível, foi o ex-avançado que deu a cara do lado dos rossoneri.

Estando presente na sala, Ibrahimovic aproveitou para responder a algumas perguntas, mais gerais do que técnicas. De forma inevitável, os dois portugueses do plantel foram tema. “Toda a gente fala do Leão, toda a gente lhe diz como deve jogar. Ele é um dos melhores do mundo. Portanto, ele sabe como jogar. Podemos dizer-lhe taticamente onde deve estar, podemos obrigá-lo a correr mais, mas é tudo uma questão tática. Ele é um dos melhores jogadores do mundo. Podem ter a certeza de que Leão sabe o que está a fazer”, referiu. “João Félix pode fazer ainda mais. O clube espera muito dos novos jogadores. Já lhes disse para ocuparem o seu espaço, não podemos esperar… Têm de entrar e equilibrar a balança”, acrescentou.

Agora, volta a ser Sérgio Conceição a assumir a batuta, com essa dúvida se voltaria a apostar nos Fab Four de início como aconteceu em Roterdão com Pulisic, João Félix, Rafael Leão e Santi Giménez na frente ao mesmo tempo. Uma coisa é certa: depois da fase irregular que se seguiu à conquista da Supertaça de Itália, o triunfo frente ao Feyenoord e consequente passagem aos oitavos da Champions era um estabilizador fulcral numa fase em que a equipa subiu ao sétimo lugar da Serie A tendo menos cinco pontos e um jogo do que a Juventus, que ocupa nesta altura a última posição com entrada direta na próxima Liga dos Campeões.

Demasiada Paixão para uma equipa com pouco amor: AC Milan de Sérgio Conceição perde com o Feyenoord

“Sérgio Conceição é um tipo intenso e muito, muito apaixonado. A paixão que ele tem pelo jogo e a sua mentalidade vencedora são o que mais se destaca. Ele preocupa-se mesmo e é isso que se precisa num treinador. Quando se tem um novo treinador a meio da época pode ser muito difícil, porque se joga de dois em dois dias, pelo que não é muito fácil pôr tudo em prática num curto espaço de tempo. Mas ele é muito claro, para sermos livres com a bola e corrermos riscos, especialmente nós, jogadores de ataque”, resumiu Cristian Pulisic, numa entrevista à Sports Illustrated, sobre o trabalho do técnico português em seis semanas.

Na antecâmara do arranque da partida, todas as câmaras estavam apontadas ao técnico que, de uma forma discreta, sentou-se no banco e beijou o terço que tinha na mão antes de guardá-lo no bolso. Este era mais do que um encontro para o português, que viu San Siro “explodir” num ambiente frenético logo aos 40 segundos com o golo inaugural: Giménez ganhou um canto na bola de saída, puxou pelos adeptos, Theo Hernández combinou com Pulisic e Thiaw fez a assistência ao segundo poste para o 1-0 do argentino (que levantou logo os braços por respeito à antiga equipa). A aposta nos Fab Four tendo Musah e Reijnders no meio estava a dar resultado pela atitude, intensidade e agressividade da equipa, com João Félix a ter mais uma oportunidade num remate que saiu por cima (18′) entre vários arranques de Leão onde faltava acertar o último passe.

Os neerlandeses esboçavam algumas saídas rápidas com muita verticalidade como se tinha visto na Luz na primeira fase mas era o AC Milan que continuava a dominar, tendo uma bola no poste por Theo Hernández numa recarga a remate com defesa incompleta de João Félix (23′). Era dos pés dos portugueses que surgiam quase todos os lances de perigo, com Rafael Leão a ter a melhor oportunidade da primeira parte já perto do intervalo para defesa de Timon Wellenreuther (42′) e os rossoneri a saírem com a eliminatória empatada quando já podiam estar na frente diante de um Feyenoord que acusava as dez ausências por lesão e tinha Paixão e Zepiqueno desaparecidos de qualquer capítulo que invertesse o filme que se via em campo.

O segundo tempo começou com as mesmas características, com Givairo Read a ter grandes dificuldades na direita da defesa dos neerlandeses antes de uma grande contrariedade para o AC Milan com o vermelho por simulação a Theo Hernández (52′). O encontro estava prestes a mudar por completo, com os rossoneri a baixarem linhas, a perderem fogo no ataque e a sofrerem mesmo o golo do empate nos 20 minutos finais, com Hugo Bueno a cruzar com todo o espaço da esquerda para o desvio de cabeça de Julián Carranza entre os centrais (73′). As próprias substituições de Sérgio Conceição partiam por completo o jogo, com Fofana a ser o único médio do AC Milan entre defesas e avançados. No entanto, nem isso desfez o nulo e consequente eliminação, em mais um capítulo de uma semana para esquecer na vida do português.