Depois do funeral, que levou milhares e milhares de pessoas à Igreja das Antas, ao Estádio do Dragão e ao cemitério do Prado do Repouso entre ruas cheias para a última despedida, o dia do adeus a Pinto da Costa foi marcado por um comunicado oficial do FC Porto a agradecer todas as mensagens endereçadas em memória do presidente honorário do clube mas também a lamentar a falta de reação dos rivais Benfica e Sporting. A seguir, esta terça-feira, os dragões informaram também que o memorial com milhares de cachecóis, cartazes, camisolas e demais objetos que se foi avolumando junto à porta 24 será guardado para criação de um espaço de homenagem nessa zona do Estádio do Dragão. Nada mais. No entanto, uma publicação feita por Francisco J. Marques, antigo diretor de comunicação e informação dos portistas, agitou o universo azul e branco.

Num longo texto publicado na conta oficial da rede X, o ex-dirigente aborda a ausência de reação por parte dos rivais, elogia alguns aspetos da despedida ao antigo líder do FC Porto ao longo de mais de quatro décadas mas sai depois em sua defesa em algumas notícias que foram surgindo publicamente com a mira apontada à atual Direção e, de forma mais específica, a André Villas-Boas. “O silêncio dos dois grandes clubes de Lisboa é condenável e ilustra mais de quatro décadas de subalternidade perante um FC Porto que venceu mais sozinho do que os rivais de Lisboa juntos. Mas o que dizer das palavras do presidente André Villas-Boas, que ouvimos falar nos valores de Pinto da Costa, que lemos fortes elogios num texto publicado pela imprensa, depois de ter andado a passar para a Tânia Laranjo que Pinto da Costa tinha comprado joias com o dinheiro do FC Porto, o que é uma vergonhosa e inaceitável mentira?”, começa por escrever J. Marques.

“No fundo, AVB [André Villas-Boas] insinuou várias vezes, direta e indiretamente, que JNPC [Jorge Nuno Pinto da Costa] roubou o FC Porto e agora veio encher a boca com palavras bonitas. Não sei quais são as falsas, só AVB pode dizer, mas ou estava a ser falso quando insinuava que PdC roubou, ou estava a ser falso quando fez o elogio fúnebre. Lamento muito desagradar tanto ao exército de bots anónimos e alguns de carne e osso, mas para mim o comportamento dos últimos meses de AVB e da direção do FC Porto é muito pior do que a lamentável atitude de Benfica e Sporting”, salienta o antigo diretor de comunicação.

“O impacto que isso teve nos últimos meses de vida de Jorge Nuno Pinto da Costa, a desilusão que eu testemunhei por a nova direção criar uma narrativa que o apresentava como alguém que não foi sério, que não se sacrificou sempre pelo FC Porto, deixou-o muito, muito triste e não pode ser esquecido. É verdade que desde a notícia da morte houve muita coisa que merece ser elogiada. AVB e restante direção respeitaram o pedido para não irem ao funeral, o estádio foi bem preparado para os sócios e adeptos se despedirem, aquela iniciativa das portas do estádio foi ótima”, aponta, antes de dar exemplos de atitudes como a cerimónia de 28 de setembro ou a correspondência que chegava ao Dragão depois das eleições.

“Antes, a direção de AVB andou a hostilizar JNPC desde que tomou posse, a tratá-lo mal, não cumprindo sequer o protocolo devido a um presidente honorário. Não foi convidado, por exemplo, para a cerimónia de hastear da bandeira do aniversário do clube, a 28 de setembro. Pior, quando o JN pediu uma reação a comunicação do FC Porto mentiu, ao dizer que foram convidados os órgãos sociais, o que é falso, pois Pinto da Costa integrava o Conselho Superior, que faz parte dos órgãos sociais, e não foi convidado, bem como todos os membros do Conselho Superior da anterior direção. Ao mesmo nível rasteiro e inaceitável esteve a rejeição da correspondência enviada para o Estádio do Dragão para Jorge Nuno Pinto da Costa, com a indicação de destinatário desconhecido”, refere Francisco J. Marques a esse propósito.

“Este é mesmo dos episódios mais lamentáveis e claro que ninguém com dois dedos de testa acredita que uma coisa destas seja feita por decisão de um funcionário menor (conheço bem a competência e responsabilidade da grande maioria dos funcionários do FC Porto). Na AG de novembro AVB fez-se de sonso, disse que não sabia e que ia averiguar, mas a verdade é que nunca prestou qualquer esclarecimento sobre um assunto que só mostra pequenez e um qualquer espírito de vingançazinha ridículo. Mas o pior de tudo foi mesmo repetirem à exaustão que Pinto da Costa se serviu do FC Porto, que gastou dinheiro do FC Porto indevidamente, através de uma auditoria feita à medida, até temporalmente, para deixar ficar mal o gigante que nos pegou pela mão e nos levou ao céu”, escreve na longa publicação na rede X.

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Francisco J. Marques entra depois na questão da auditoria e dos gastos, falando de informações que saíam do clube para um meio de comunicação no sentido de atingir Pinto da Costa. “A auditoria faz referência que entre outros gastos indevidos houve até joias compradas com dinheiro do FC Porto. No texto da auditoria não é identificado o autor, mas logo um dia depois da sua divulgação a Tânia Laranjo surgiu na CMTV a dizer que esses gastos tinham sido feitos por JNPC, repetindo a graça nas páginas do CM. Ora, como, que se saiba, não tem acesso aos escritórios do Dragão, teve de ser alguém do FC Porto a passar-lhe esse pormenor que não consta no texto da auditoria. Quem o fez fê-lo obviamente para deixar ficar mal JNPC, para criar a ideia de que o presidente honorário afinal se tinha servido do FC Porto”, salienta.

“Como eu disse na AG de janeiro, não sei quem o fez, mas sei quem é o responsável, chama-se AVB. Confrontei AVB com isso, apontei-lhe o dedo, mas curiosamente o presidente esqueceu-se de esclarecer isso quando respondeu e era exatamente a isso que tinha de responder, o resto era menos importante. Eu não sei se JNPC comprou joias ou não, mas há uma coisa que sei e ninguém me pode desmentir. Sei eu, sabe-o toda a gente que trabalhou e trabalha no FC Porto, sabe-o AVB, sabe-o Angelino Ferreira, sabe-o a direção atual do FC Porto. Aquele dinheiro era salário e com o salário cada um de nós faz o que muito bem entende. Sim, salário puro e duro, salário de JNPC, salário dos restantes administradores, salário de todos os quadros médios altos do FC Porto. Internamente chama-se DRPs, é uma espécie de complemento salarial e o modelo que está ainda hoje em vigor foi uma sugestão de engenharia fiscal feita, imagine-se, pela Deloitte, em 2010 (já antes havia o modelo, mas foi nessa altura que se generalizou)”, sustenta, antes de especificar como funcionavam os tais DRPs e explica o porquê de terem sido feito interpretações truncadas.

“O pagamento de complementos salariais continua em vigor no FC Porto e a direção de AVB ainda no passado mês de janeiro pagou aos funcionários o valor de DRPs em atraso desde que assumiu funções. O pagamento de DRPs funciona da seguinte maneira: há uma plataforma onde se entra com a respetiva password e se tem acesso à página onde consta o plafond anual. O pagamento é feito de forma irregular, à medida que vai havendo disponibilidade, contra a apresentação de comprovativo do gasto. E que gastos são elegíveis? Essencialmente, faturas de refeições, de viagens. Percebem a desfaçatez que é dizer que havia viagens que nada tinham a ver com a atividade do clube? Claro que não tinham, tratava-se de férias”, diz.

“Eu, por exemplo, metia sempre as faturas das férias. Eu e toda a gente. Caros amigos, eu não corro o risco de ser desmentido em nada disto e toda a gente que trabalha no FC Porto o pode confirmar. A direção de AVB está a mentir aos sócios quando diz que havia administradores a apresentar viagens que nada tinham a ver com a atividade do clube para serem pagas pelo clube, porque na verdade estavam a ser pagas com o próprio salário. Podemos discutir se os salários dos administradores eram demasiado altos – e na minha modesta opinião, eram – mas não tinham sido decididos pelos próprios, mas sim pela Comissão de Vencimentos. O presidente do Conselho Fiscal e Disciplinar pode confirmar tudo isto, pois enquanto foi administrador financeiro da SAD do FC Porto beneficiou exatamente da mesma situação, como o próprio confirmou recentemente. No caso de Angelino, AVB não quer ser ressarcido?”, questiona o ex-responsável.

“Para finalizar, sendo que voltarei a este tema sempre que a direção do FC Porto mentir publicamente sobre o assunto, JNPC foi vítima de uma campanha miserável protagonizada pela direção de André Villas-Boas. Desde a tomada de posse, em maio, até à morte de Pinto da Costa a direção do FC Porto só procurou diminuir o legado do melhor de todos nós, talvez porque sabe de antemão que nunca poderá resistir à comparação, como desgraçadamente tem ficado tão evidente nas diversas equipas, sejam de futebol ou das modalidades”, conclui, ressalvando que irá sempre defender o legado de Pinto da Costa “com verdade, com respeito e com admiração”: “Tinha qualidades e defeitos, como todos, mas a verdade é que era muito melhor do que todos nós e o trabalho que fez no FC Porto é a maior façanha de um português contemporâneo”.