Tiago Grila, o influencer que confessou num podcast ter atropelado uma mulher na Amadora, viajou na manhã desta quinta-feira para Luanda num voo da companhia aérea angolana TAAG.

Entretanto, no TikTok, Tiago Grila publicou alguns vídeos exclusivos para subscritores momentos antes de embarcar, já no aeroporto da Portela, em Lisboa, e em que justifica a saída do país com “questões de segurança” — mas sem nunca referir qual o seu destino.

“Derivado a questões de segurança, muitas ameaças que tenho recebido, até isto estar resolvido vou numas feriazinhas”, começa por dizer, garantindo que não está a fugir. “Antes que eles comecem a dizer ‘fugiste”, “tu não podes sair do país”… deixei uma procuração”, diz o influencer mostrando o papel que diz ser a procuração.

A confissão do atropelamento num podcast

A polémica começou quando Tiago Grila foi questionado no Podcast do Mestre, disponível no YouTube, sobre um segredo que ninguém sabia e confessou ter atropelado uma mulher junto ao Bingo da Amadora. “Atropelei uma pessoa e fugi. A sério. Ali na subida de quem sai do Bingo da Amadora. Não vi, ia agarrado ao telemóvel, ouço um estoiro e partiu o vidro [do carro]”.

O influencer, que tem quase 64 mil seguidores no Tik Tok, disse, no entanto, que se tinha apercebido na altura de que a vítima não tinha morrido. “Vi que ela se levantou. Atenção, calma. Mas partiu-me o vidro com o chapéu de chuva. A pessoa está viva, calma. Foi só um toquezinho”, acrescentou.

“Fiquei em estado grave, levei pontos na cabeça”: vítima de atropelamento reage a confissão de influencer

Pouco depois da confissão, foi tornado público que há um ano que a polícia procurava o responsável de um acidente naquele local e que correspondia com a descrição feita, tendo a confissão sido de imediato comunicada ao Ministério Público da Amadora.

Tiago Grila acabaria por negar a confissão, dizendo mesmo que o episódio descrito nunca tinha acontecido. Esta quarta-feira anunciou nas redes sociais ter sido identificado pela PSP, o que não corresponde à verdade. O Observador apurou junto de fonte policial que a PSP continua as diligências de investigação, mas não procedeu à inquirição do influencer, nem tampouco o identificou.

Nos vídeos publicados na manhã desta quinta-feira, exclusivos para subscritores, Grila afirma: “Eu quero ver é quando sair ‘Grila inocente’”. O influencer mostra ainda o interior do avião, na viagem para Luanda, para que se veja que viaja em primeira classe: “Ali é a zona dos reles”.

Vítima diz ter ficado com marcas para a vida

Mariana Braga, a mulher atropelada junto ao Bingo da Amadora há um ano tem dado várias entrevistas, dizendo rever-se na descrição feita, mas não se tratou de um “toquezinho”.

“Parti o rádio distal do braço, levei pontos na cabeça e parti estes dentes da frente, que ainda tenho por arranjar”, contou em declarações à SIC, explicando que logo após o atropelamento foi “de urgência” para o hospital e submetida a uma cirurgia. “Disseram logo que tinha o braço partido e bastantes hematomas”.

“Fiquei em estado grave, levei pontos na cabeça”: vítima de atropelamento reage a confissão de influencer

A vítima do acidente disse mesmo ter-se sentido indignada com a forma como o episódio foi contado, em tom jocoso: “Não teve piada nenhuma. Isto foi uma coisa grave que me deixou limitada para a minha vida. Estou há um ano parada e sem poder trabalhar, fiquei em estado grave. Não foi um toquezinho, como ele disse”, acrescentou.

As ligações de Grila a Angola

No mesmo podcast onde confessa o atropelamento na Amadora, Tiago Grila fala sobre a sua ligação com Angola. “Eu quero que a minha mãe, que está em Angola, esteja descansada. Por exemplo, se eu ligar para a minha mãe agora, ela atende em aflição” [em relação ao vício em jogo e cocaína].

Grila afirma que não é luso-angolano, mas que a mãe trabalha no país desde os 18 anos: “Começou como diretora do ‘Continente’ de lá, e agora é diretora da Delta Cafés. 1.000 euros lá equivale a 5.000 euros, é como o real, no Brasil, e então o teu nível de vida dá para teres um empregado para te ‘fazer’ os pés e pagas 1 euro”.

Em Portugal, esteve internado numa clínica de reabilitação devido ao vício em cocaína. Quando terminou o tratamento, voltou para Angola para trabalhar como gerente de um estabelecimento.

“Eu estive lá seis meses, inicialmente. Depois da clínica, estive um bocadinho cá em Portugal e fui para Angola para a frente de um espaço, como gerente, porque lá um branco é sempre sobrevalorizado”, defende Grila. “O racismo vem de lá, é a minha opinião, o racismo é mesmo entre eles, eles é que fazem racismo. Vi vários episódios, a Carolina [namorada] depois foi comigo, porque ela também gostou muito do nível de vida, de fazer um nível de vida muito alto com pouco dinheiro”.

[No podcast “Somos Todos Malucos“, António Raminhos fala sobre os nossos medos, ansiedades e superações em conversas descomplicadas e divertidas em torno da saúde mental. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts e no Spotify]

O influencer afirma ter vivido um estilo de vida luxuoso em Angola, tendo-se deixado levar pela “falta de humildade” e tido comportamentos que descreve como “parvos”.

“[A maior diferença em termos de qualidade de vida é] o poder económico. Eu ali sinto que fui rico. Depois lá está a [minha] falta de humildade (…). Eu dei-me ao luxo, luxo que é parvo, de gozar com as pessoas, mas eu não faço com essa intenção, de estar numa discoteca, e via aquilo nos filmes e disse ‘Eu quero fazer isto’. Tinha um bloco de notas, que se calhar não passava de 200 euros, mas 200 euros é dinheiro, e ‘zá zá zá’ [movimento de espalhar notas]. Mas é aquela coisa, como isto dos cinco anões, eu quero ter cinco anões. Eu sinto-me realizado, porque eu já fiz tanto, que nada me sabe bem”.

Vivia numa casa com piscina e dois empregados. Afirma que “nunca explorou ninguém”: “O Nicolau era meu empregado e o homem era feliz. Ainda agora me manda [mensagem a dizer] ‘Boss, quando é que vem?’”.

“É 30.000 kwanzas, o que eles recebem. O Nicolau recebia um bocadinho mais, 45.000, dava-lhe 45 euros. A Lai [empregada] recebia 60.000, que são 60 euros. Ela fazia o almoço, fazia o jantar, tratava da roupa, já veio a Portugal de férias com a minha mãe”, explica o influencer.

Explica ainda que o boom Grila, o fenómeno Grila, se deu quando chegou a Angola. “Eu já tinha algumas visualizações, mas quando se dá o ‘coiso’ é aquele meu jogo de cintura, o estilo de vida, o ‘antes de ser temos que parecer’. Aquilo simplesmente era a casa da minha mãe, a casa da minha mãe, com uma piscina e 2 empregados”, contou.