Em 2112 a sociedade vai usar preto e peças com inspiração cyberpunk, em casacos volumosos, com mangas tão longas que quase arrastam no chão, golas que chegam a cobrir o queixo e muitos tecidos e texturas. Pelo menos é essa a visão do destaque do concurso Sangue Novo, que teve as coleções finais apresentadas ao público nesta sexta-feira, 7 de março, no Pátio da Galé. Duarte Jorge é o vencedor do Prémio ModaLisboa x IED Istituto Europeo di Design e ganhou um mestrado em Fashion Brand Management no IED Firenze, que dura nove meses e tem início em novembro de 2025, além de uma bolsa de 4 mil euros. Para chegar lá garante ao Observador que foram meses de “muito trabalho e pouco tempo de sono”. “Sinto que houve evolução no lado dos materiais, não apenas no sentido de ser mais sustentável mas também conseguir usar mais materiais e misturá-los mais, conseguindo fazer com que ficasse coeso na mesma. Penso que explorei o lado escultórico mais casualmente mesmo dentro do artísticos.”

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Duarte Jorge

Foram seis looks com seis casacos. O designer assume a preferência: “Sinto que casacos demoram mais, são mais complexos, mas penso que também consigo trabalhar mais as esculturas e gosto de poder fazer coisas grandes, além do corpo, não apenas o modelo que está a usar uma roupa mas uma peça de arte que as pessoas podem usar.”

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Uma das propostas de Duarte Jorge

Duarte Jorge tem licenciatura e mestrado em moda e têxteis e destacou-se na última edição da ModaLisboa com as peças em preto e branco e as escolhas de tecidos ousadas. Sob a marca Hellabuv, chegou a vestir algumas figuras públicas como as cantoras Bárbara Bandeira, Nenny e Iolanda ou a atriz Carolina Carvalho e diz-nos que já recebeu alguns pedidos desde outubro. “Ter uma marca é um grande sonho meu não apenas para poder partilhar, mas porque eu quero ter esta possibilidade de criar as minhas peças e fazer arte no geral através do design. Já há algumas pessoas a usarem as minhas peças, o apresentador hoje também usou uma peça minha da coleção passada”, destaca o jovem criador.

“De volta ao mar”

O outro destaque da noite foi Gabriel Silva Barros, que conquistou o prémio ModaLisboa x RDD Textiles e ganhou um estágio de três meses na RDD Textiles para o desenvolvimento de uma coleção com materiais e processos inovadores, alternativos aos convencionalmente produzidos, além de uma bolsa de 1.750 euros. “São dez anos a estudar, a trabalhar e chega um ponto em que se não tens o financiamento para continuar não conseguia avançar mais. Sinto-me visto, era dessa ajuda que eu precisava“, diz o designer ao Observador.

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Uma das propostas de Gabriel Silva Barros

Criado na Madeira, Gabriel Silva Barros fez faculdade e vive em Londres, onde trabalhou com nomes como Palmer//Harding e Vivienne Westwood. “Sinto que Lisboa tem um fresh feeling, é empolgante, está a ferver. Estou contente por isso, vir aqui e criar algo enquanto está a ferver”, diz Gabriel. Se na edição anterior apresentou uma coleção que pretendia transgredir géneros, com a “energia opulenta e excentrica de uma noite num cabaré”, nesta final o jovem criador optou por uma continuação. Na passarelle os modelos traziam elementos da “noite anterior”, como sapatos de saltos altos, collants de rede, brincos e chapéus dramáticos, com plumas, lantejoulas e brilhos.

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Gabriel Silva Barros

“Na coleção anterior a história era os pescadores que foram para um cabaré e passaram a noite a fazer crossdressing e esta é tipo a manhã seguinte. Passada a noite vão de volta ao mar, ao trabalho, para a realidade. É esse sentimento que eu queria transmitir nessa coleção, aquele acordar, não saber onde está, tentar lembrar-se o que é que aconteceu na noite passada, o quem eu sou”. A ideia ficou evidente nas peças de roupa com recortes e partes que parecem não se encaixar, dando a impressão de terem sido vestidas na confusão de uma manhã de ressaca. “Queria pôr estas perguntas porque acho que os homens estão muito confortáveis. Quero libertar os homens um pouco.”

Coleções que priviegiam tecidos e texturas

Os outros três criadores Sangue Novo também seguiram as mesmas linhas estéticas que os trouxeram à final. Ihanny Luquessa é nascido em Angola e veio para Portugal em 2020, onde tirou a licenciatura em moda. À passarelle da ModaLisboa levou peças em branco e preto que apostam na reinvenção de formatos tradicionais. Botões desencontrados, golas como mangas, estrutura das costas como parte da frente. Em comum, todos os modelos tinham o corpo de alguma forma restrito — seja por cordas a amarrar os braços ou roupas que não permitiam ter todos os membros livres. Nos últimos meses Ihanny Luquessa conseguiu algum destaque no mercado da moda com a The Art of Seeing, com a qual vestiu a atriz Kelly Bailey para a Vogue Portugal e o apresentador Manuel Luís Goucha para a GQ. Mais recentemente teve peças numa produção para a Elle Sérvia.

Dri Martins licenciou-se em Paris onde se interessou pela tecnologia 3D, que é hoje um elemento central nas suas criações, além do foco na responsabilidade ambiental. Nesta coleção apostou nas combinações de tecidos mais agressivos como o látex e a suavidade da transparência, o contraste do preto com o rosa claro, além dos elementos em 3D que representam a sua identidade como criadora de moda. Escolheu fechar o desfile com uma noiva num vestido todo em látex branco e peças em 3D a decorar a saia. Agora segue sob a marca DRIONADREAM.

Tal como em outubro passado, Francisca Nabinho destacou-se pelas cores vivas, escolha diferente dos outros criadores. Camisas brancas serviram de fundo para os looks com mini saias estruturadas ou calças sociais, em peças que privilegiam o material e as texturas. O demasiado perfeito encontra a realidade com os acabamentos desfiados dos trançados ou os furos nas peças em tricô. Filha do galerista Manuel Nabinho, Francisca cresceu no meio da arte, o que a pode ter influenciado a seguir uma licenciatura em história da arte depois de seguir para o mestrado em moda. A jovem criadora lançou em janeiro um site em nome próprio onde vende as peças sob medida.

Um semestre para explorar e amadurecer

O que o público da ModaLisboa viu esta sexta-feira, 7 de março, é o resultado do trabalho dos últimos cinco meses. Os cinco finalistas foram selecionados num grupo de 10 candidatos na última edição da ModaLisboa, em outubro de 2024 e desde então fizeram sessões de mentoria com o os jurados, um processo que contribuiu para o crescimento e a maturidade dos conceitos artísticos e das ideias comerciais.

O júri é composto por profissionais polivalentes que puderam analisar os jovens criadores em diferentes áreas de atuação no mercado da moda. O presidente do júri, Miguel Flor, vencedor Sangue Novo em 1996, é diretor criativo e editor-in-chief da revista Prinçipal ModaPortugal, designer de moda de formação e fotógrafo. A outra designer que faz parte do painel e ajudou a escolher o vencedor é Constança Entrudo, que também apresentou a sua coleção numa performance no CAM na tarde desta sexta-feira. Da parte da ModaLisboa está Joana Jorge, gestora de projetos na associação. Rune Park, coproprietário de uma loja multimarcas de luxo de Lisboa e com 20 anos de experiência em retail online e offline, representa o lado comercial da moda de luxo, enquanto Ana Tavares, CEO da RDD Têxtiles, empresa que desenvolve e amplia tecnologias para a indústria têxtil, entra como uma especialista em economia circular e sustentabilidade. Quem se junta ao júri nesta segunda fase do concurso é Danilo Venturi, diretor do IED Milano, com experiência em curadoria, planeamento estratégico e branding de moda.