A corrida do sol estava a correr como esperado. Ao cabo de três dias, a primeira grande prova por etapas da temporada — a par do Tirreno-Adriático, que também acontece por estes dias — não trouxe surpresas. Tim Merlier (Soudal Quick-Step) deu continuidade à grande forma mostrado neste início de ano e dominou as chegadas de Le Perray-en-Yvelines e Bellegarde, nas duas primeiras etapas da corrida francesa. No terceiro dia apareceu o primeiro desafio para os homens da geral e, como seria de esperar, a Visma-Lease a Bike voltou a dominar um contrarrelógio por equipas, levando Matteo Jorgenson, o vencedor de 2024, à liderança e Jonas Vingegaard ao segundo lugar. João Almeida (UAE Team Emirates-XRG) acabou por ser um dos mais penalizados, perdendo 41 segundos para as abelhas.

Um pesadelo sem fim à Visma para a UAE de Almeida: Jorgensen fica de amarelo e Vingegaard ganha terreno à concorrência no Paris-Nice

“Para ser honesto, a prova foi perfeita. Estávamos muito fortes e não cometemos erros. Foi o mais próximo que poderíamos estar da perfeição. Os meus colegas de equipa também estiveram incríveis. A minha forma física também está muito boa. Sinto-me mais forte a cada dia. Agora estamos em primeiro e segundo lugar na classificação geral e vamos tentar manter-nos. Estou muito bem, as pernas estão melhor e espero que amanhã [quarta-feira] também me sinta bem. Vamos ver…”, comentou o dinamarquês que já venceu a Volta a França em duas ocasiões.

O aviso estava dado à concorrência e, para esta quarta-feira, a ligação de 163,4 quilómetros, entre Vichy e La Loge des Gardes, prometia voltar a mexer com a classificação geral desta 83.ª edição do Paris-Nice. O pelotão tinha pela frente a primeira etapa de montanha, com cinco subidas categorizadas antes da chegada de primeira categoria, num final com 6,7 quilómetros e uma inclinação média de 7,1%. O formato ondulado da quarta tirada até podia beneficiar a fuga mas, por outro lado, os candidatos da geral que se encontravam mais atrasados estavam obrigados a mexer na corrida, como era o caso da… Emirates.

Com Andreas Leknessund (Uno-X Mobility), que se encontrava a 1.26 minutos de Jorgensson, a integrar a fuga do dia, estavam praticamente arrumadas as aspirações de vitória. A par do norueguês, juntaram-se na frente Ben Swift (Ineos Grenadiers), Thibault Guernalec (Arkéa-B&B Hotels), Vincenzo Albanese (EF Education-EasyPost), Sylvain Moniquet (Cofidis), Dion Smith (Intermarché-Wanty), Thomas Gachignard (TotalEnergies) e Edward Planckaert (Alpecin-Deceuninck). A chuva e o frio começaram a instalar-se na corrida e, a cerca de 58 quilómetros da meta, provocaram uma dupla queda e o abandono de Santiago Buitrago (Bahrain-Victorious), que embateu com a cabeça no asfalto.

Pouco depois, numa altura em que Tobias Foss (Ineos) e o companheiro Joshua Tarling fugiram ao pelotão, a corrida foi neutralizada pela organização devido à queda de granizo, durante a descida de Côte du Canon. As condições climatéricas adversas obrigaram a organização a tirar cerca de 20 quilómetros à etapa e levaram uma das motos dos comissários a despistar-se, bem como um dos carros da Decathlon AG2R La Mondiale. Depois de mais de 15 quilómetros em marcha lenta, a corrida foi retomada já dentro dos últimos 30 quilómetros. Já sem Julian Alaphilippe (Tudor), devido a um furo, o pelotão entrou na subida final a 40 segundos do grupo da frente.

Com Mads Pedersen (Lidl-Trek) na dianteira do grupo dos favoritos, a fuga foi alcançada paulatinamente, resistindo apenas Foss. Os ataque começaram a aparecer e reduziram o grupo a cerca de 15 elementos, entre eles João Almeida, que aumentou o ritmo a três quilómetros do alto. Pouco depois, Lenny Martinez (Bahrain) atacou, Vingegaard respondeu, os dois alcançaram Foss, mas o francês acabou por ceder. No último quilómetro, o português voltou a atacar, reduziu a desvantagem do dinamarquês, ultrapassou-o nos últimos metros e garantiu a vitória em La Loge des Gardes. Desta forma, o ciclista de A dos Francos levantou os braços pela primeira vez em 2025 e deu a Portugal o primeiro triunfo de sempre no Paris-Nice.

“Estou super feliz. Foi um dia difícil, aconteceu muita coisa durante a etap. Apanhámos um pouco de granizo, mas nunca desisti. Acho que merecemos e estou muito feliz com a vitória. Senti-me muito bem. Não sou o melhor ciclista com temperaturas frias, sofri um pouco com isso, mas nunca desisti. A subida [final] não era íngreme o suficiente, por isso era difícil reduzir mais o grupo. O Jonas [Vingegaard] atacou num bom momento porque eu não estava na melhor posição. Ontem [terça-feira] não foi o nosso dia, tivemos alguns contratempos. Ontem foi ontem e hoje houve outra oportunidade. Temos de tirar os pontos positivos de ontem. Perdemos em equipa e vencemos como equipa e acho que hoje merecemos”, partilhou Almeida na flash-interview após a vitória.

No que respeita à geral, esta vitória permitiu a João Almeida subir 13 posições e ganhar cinco segundos a Jonas Vingegaard, que é o novo líder da Corrida do Sol. O português é agora quinto, a 37 segundos do dinamarquês, estando a apenas quatro de entrar no pódio. Matteo Jorgenson caiu para segundo, a cinco segundos do companheiro, ao passo que Mattias Skjelmose (Lidl-Trek) é terceiro a 33. Segue-se Florian Lipowitz (Red Bull-Bora-hansgrohe) a 36. Para além disso, Almeida é o novo líder da camisola da montanha, fruto dos 20 pontos alcançados esta quarta-feira.

Atualizado às 16h22 com as declarações de João Almeida.