Entre a ficção dedicada ao tempo do nazismo, Reencontro destaca-se, antes de mais, por dirigir as atenções para uma figura peculiar. Trata-se do judeu assimilado. A categoria inclui pessoas que poderiam reconhecer-se mais como alemãs do que como judias, que poderiam julgar o sionismo uma ideia disparatada, que até poderiam ter dado o corpo às balas pela Alemanha, poucos anos antes, nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial; mas cujo “sangue impuro” não deixou de atrair a violência de Hitler e seus cúmplices.

A novela escrita pelo também pintor Fred Uhlman em 1971, agora reeditada pela Presença, com tradução de Paula Vitória, conta a história da amizade entre Hans Schwarz, de uma família de judeus estabelecida há séculos na Alemanha, e Konradin von Hohenfels. Tudo começa em Estugarda, no ano de 1932. Sentado numa carteira de madeira do liceu Karl Alexander Gymnasium, o protagonista vê chegar à turma um novo aluno, que sobressai pela extraordinária elegância dos seus trajes e diante de quem os professores da escola executam gestos de reverência que invertem a hierarquia habitual. É Konradin von Hohenfels, membro da ilustríssima família que, durante os serões na ópera, ofusca com o brilho da sua árvore genealógica o Presidente da República e restantes figuras da alta sociedade alemã.

Depois de uns dias sem trocarem qualquer palavra, devido à hesitação de Hans em aproximar-se da nova estrela social da escola e devido à timidez de ambos, os dois estudantes acabam por forjar uma grande amizade, marcada pela paixão por Holdërlin, pelo colecionismo de preciosidades greco-romanas e por feitios introspetivos semelhantes. Os problemas chegam mais tarde, quando as famílias entram em jogo e as leis anti-semitas apertam. Os amigos veem-se então numa situação muito tensa, com as consequências sociais do nazismo a interpor-se entre os dois. O livro pode ser descrito, portanto, como um relato da amizade entre Hans e Konrad sob o fundo da ascensão do nazismo – com a tensão acumulada a culminar num desfecho inesperado, bem conseguido, que quebra no derradeiro suspiro uma certa apatia que, entretanto, pôde apoderar-se do leitor.


Título: “Reencontro”
Autor: Fred Uhlman
Tradução: Paula Vitória

Editora: Presença
Páginas: 80

No prefácio, Arthur Koestler chama a atenção para o “tom menor” da novela. De facto, salta à vista o registo discreto, pouco dado a exuberâncias estilísticas ou floreados sentimentais, da escrita de Fred Uhlman. Não acontece apenas que o ângulo escolhido seja o ângulo modesto da amizade entre dois jovens – a própria linguagem é contida, o próprio enredo poupado nos detalhes da violência anti-semita. A opção narrativa por uma voz tão singela dá espaço, com o realismo possível, à perspetiva inocente de um adolescente alemão, afastado do centro político do país, no início da década de 1930. Fred Uhlman é explícito quanto à intenção de despir a narração de uma consciência retrospetiva do horror nazi:

De fora do nosso círculo mágico chegavam rumores de agitação política, mas o centro da tempestade estava longe – em Berlim, donde chegavam notícias de recontros entre nazis e comunistas. Estugarda parecia tão tranquila e sensata como sempre. É verdade que houve alguns incidentes menores. (…) As pessoas falavam dos sítios para onde iriam nas férias de Verão – os meus pais mencionaram a Suíça, e o Konradin disse-me que iria ter com o pai e a mãe à Sicília. Parecia não haver motivo algum para preocupações. A política era assunto para os adultos; tínhamos os nossos próprios problemas para resolver.”

Além de um expediente formal para que a narração não esteja, à partida, contaminada pelas tais ideias retrospetivas que todos temos sobre o período nazi – e para que, assim, possa replicar mais fielmente a ótica de quem viu o nazismo irromper como um acontecimento novo –, a sobriedade estilística de Reencontro tem um outro efeito interessante. Cria uma espécie de dissonância entre a forma do texto e a própria paisagem histórica em causa, uma dissonância que surpreende as nossas expectativas acerca de um livro sobre judeus e nazis. Uhlman envolve a trama numa atmosfera friamente sinistra, digamos assim, por via do contraste entre a placidez do relato e a enormidade do flagelo social que, à medida que avançamos na leitura, vai reduzindo a escombros “três quartos de Estugarda” e fazendo de “Heilbronn um matadouro no qual pereceram doze mil pessoas”.

No entanto, o “tom menor” levanta também algumas dificuldades, de que a novela não sai incólume. Reencontro pretende ser uma história sobre a grandeza da amizade. Ora, como se sabe, é particularmente difícil construir hoje ficção “virtuosa”. Não digo isto por qualquer preconceito cínico contra histórias com final feliz ou que recuperem formas clássicas de heroísmo. Pelo contrário: os meus braços de leitor estender-se-iam de bom grado para uma literatura que, no meio de tanto ceticismo de pacotilha, de tanto pessimismo preguiçoso, conseguisse conjugar as exigências da melhor ficção com uma luz existencial doutro tipo. É um facto, porém, que, provavelmente devido a fatores estruturais como a nossa própria indigência constitutiva e a fatores epocais como as atrocidades do século XX relatadas no livro de Uhlman, a criação bem-sucedida de histórias “positivas” requer habilidades literárias muito especiais. E Reencontro tem dificuldades em superar o desafio a que se propõe. O problema não está nas boas intenções de Fred Uhlman. Está nas três fraquezas capitais da novela.

A primeira tem que ver com a personagem de Hans Schwarz, narrador e protagonista. Apesar de passarmos todo o tempo dentro dos seus pensamentos, é uma personagem um pouco plana, à qual falta espessura psicológica e complexidade humana. Demasiado correto para interpelar o leitor… A segunda fraqueza está ligada a uma tendência explicativa excessiva: ideias que ganhariam força em ser mostradas, através da ação, são antes, muitas vezes, explicadas pelo narrador, num movimento que acaba por amaciar o confronto do leitor com aquilo que está em causa na narrativa. A terceira limitação importante, por fim, diz respeito à “energia linguística” de Uhlman, para recorrermos a uma das categorias usadas por Harold Bloom para qualificar os altos méritos literários de Dante e Shakespeare. Talvez um uso poderoso e criativo da linguagem pudesse compensar algumas dos anteriores problemas. Só que “energia linguística” é um dom que não transborda da mão competente, mas em muitos momentos contida demais, de Fred Uhlman.

Seria injusto, apresentado este elenco, não reconhecer as qualidades também presentes no livro que agora volta às livrarias portuguesas. A construção do arco narrativo está exemplarmente bem feita e, além disso, tem o mérito de mostrar que há mais no coração humano do que o cinismo pré-congelado do nosso tempo se dispõe a admitir – nunca caindo em qualquer tipo de discurso forçado ou arroubo emotivista na representação da amizade. No entanto, as entronizações de Arthur Koestler, Ian McEwan e Jean d’Ormesson – segundo os quais estamos perante uma obra-prima do século XX – parecem manifestamente exageradas.