Em The Funeral, o filme de 1996 de Abel Ferrara, uma série de pessoas presta a sua última homenagem a Johny, um gangster, antes de uma série de flashbacks nos mostrarem a vida do morto. Johny parece ser o mais sensível de três irmãos, enquanto Ray é mais frio e cínico, por contra-ponto à explosividade de Chez.
Toda a gente reage de forma diferente à chegada do momento final e a nossa reação depende tanto do nosso feitio como do que perdemos – não raro, quando morre uma estrela da música sentimos que perdemos um dos nossos: a partida de Prince fez-me sentir, durante meses, que me tinham retirado um órgão; o suicídio de David Berman ainda é um dos momentos mais tristes da minha vida, como se o meu próprio irmão mais velho, em quem eu confiava para me guiar pela vida, tivesse desaparecido.
Há umas semanas, as Porridge Radio anunciaram, a meio da digressão de promoção ao ótimo Clouds In the Sky Will Be Always There For Me, que a presente tour seria a última – quando os concertos acabarem a banda deixará de existir, cada um dos quatro elementos irá à sua vida e, suponho, restam os discos para nos fazer companhia.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Chamo-lhes “As” Porridge Radio (em vez de “Os” Porridge Radio) porque metade da banda são raparigas e porque, se quisermos ser honestos, a banda é só um veículo para a indagação existencial que a espantosa Dana Margolin leva a cabo, verso após verso, canção após canção, disco após disco.
É uma sensação estranha, esta, de ir a um concerto (aconteceu na noite de sexta-feira, no LAV, em Lisboa) de uma banda que acabou de lançar um disco fortíssimo, uma banda que desde o extraordinário Every Bad (de 2020) nunca parou de fazer canções com o condão de exibirem a confusão existencial que aflige tantos de nós, traduzida em refrões explosivos em que Dana berrava como se berrar fosse a única coisa que lhe restasse, berrar para exorcizar os demónios, berrar porque manter dentro de si o berro a deixaria doente, esmagaria os órgãos, envenenaria as veias, queimaria os pulmões.
Ainda mais estranho é isto: nada do que aconteceu naquele palco pareceu, por um momento, um funeral ou uma despedida – antes um concerto normal (ótimo, mas normal) de uma banda no topo do seu jogo. Nem sequer houve, ao contrário de O Funeral, flashbacks que nos mostrassem a história passada: dos 16 temas tocados, a esmagadora maioria foram do recente Clouds In the Sky Will Be Always There For Me – ou seja, tratou-se de um concerto convencional (ótimo, mas convencional) de uma banda a promover um disco.
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E podia ter sido muito diferente: só de Every Bad eu esperava ouvir três ou quatro canções, em particular a espantosa Born Confused, a primeira canção delas pela qual me enamorei – mas elas nem sequer se abeiraram do disco. Waterslide, Diving Board, Ladder to the Sky, de 2022 e o álbum que se seguiu a Every Bad, teve direito a duas canções: The Rip e o tema-título. Para lá disso, recuperou-se 7 seconds, um single de 2020, foram buscar Good For You, uma canção de 2020 que não está em nenhum álbum, e Don’t Want to Dance, retirado de The Machine Starts To Sing, um EP já deste ano. Que banda é que lança um EP quando já decidiu que vai acabar?
Esta podia ter sido a oportunidade de fazer um festão, de dizer adeus recorrendo a todos os mini-êxitos que uma banda de culto como as Porridge Radio foram acumulando – mas elas não estavam interessadas nisso – aquilo a que tivemos direito foi a Clouds In the Sky Will Be Always There For Me quase por completo. Entre os humoristas é comum que quando se cria um novo espectáculo se abandone as piadas antigas, por mais eficazes que sejam – é uma forma que alguns têm de se obrigar a criar novo material de qualidade, a não estagnarem. Foi mais ou menos isso que as Porridge Radio fizeram na sexta: dedicaram-se à última criação, renegando o que estava para trás.
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Não dá propriamente para reclamar, tendo em conta a qualidade do material: o concerto abre com Sick of the blues, seguida de A hole in the ground, (ambas de Clouds In the Sky) e logo ali ficou estabelecida a premissa do concerto, que é a premissa de toda a música de Dana Margolin: uma intensidade danada. As coisas acalmam ligeiramente com Don’t Want to Dance (de The Machine Starts To Sing EP) e ao quarto tema, Good For You (de 2020, nunca editada em álbum) aquela voz enche a sala toda e ficamos com a impressão de que os intestinos de Dana estão à mostra.
Essa sensação dura o concerto todo: em You Will Come Home (também de Clouds In the Sky Will Be Always There For Me) ela berra com tanta ferocidade que ficamos com a impressão que só berrar a impede de morrer naquele instante. A arte de Margolin é a arte da purga: os seus refrões são como um remédio que nos faz vomitar e, no ato, limpar o que estava a intoxicar-nos. O que nos intoxica, ou o que intoxica e obceca Margolin, são as relações amorosas falhadas, as pequenas coisas que nos dizem e nos fazem sentir que somos pequeninos e burros e quando damos por ela gostamos menos de nós e porque é que estamos numa relação se isso só nos faz sentir uma merda? Perante isto, e não encontrando soluções para os seus problemas, Margolin berra. Berrar faz-lhe bem.
Muita gente berra no mundo do rock e isso não significa que nos agrade ou que acreditemos no que está a ser berrado. É um dom – ou, eventualmente, algo que se trabalha – a capacidade de gritar e fazer com que o grito soe essencial e que essa suposta catarse não o seja apenas para quem berra mas também para quem ouve. Sentimos isso na magnífica Lavender, Raspberries, uma espécie de montanha-russa emocional, ou no desespero amordaçado e em crescendo de Sleeptalker, ou na procissão de corações esmagados de Pieces of heaven: sentimos que o que está a ser cantado é vital, essencial.
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Essa sempre foi a grande qualidade das Porridge Radio: a facilidade com que nos arrastavam para os seus altos muito altos e os seus baixos muito baixos – mesmo que não estivéssemos com o coração partido sabíamos exatamente do que ela estava a falar e queríamos berrar ou ciciar com ela – eventualmente dar-lhe um leite com chocolate quente, uma mantinha e uma lareira. Ela não era só uma de nós, humanos sofridos e desamparados – era aquela que de nós melhor sabia verbalizar a nossa confusão.
Até In a Dream I’m a Painting ela estava de cabelo apanhado; no início da canção liberta o cabelo e é como se aquele simples gesto simbolizasse que finalmente ela se sentira à vontade, que agora sim estava em casa, que agora sim era uma de nós. Ela tinha de libertar aquele cabelo como como tudo nas suas canções dela tem de ser libertado, até que o que é suposto não dizermos ou não admitirmos a nós próprios se transforme em coisa dizível, apesar de a sociedade nos ensinar que certas coisas não se dizem.
Em Born Confused, a espantosa canção que abria Every Bad, a primeira coisa que Dana cantava (enquanto um violino sofria em fundo) era “I’m bored to death / let’s argue” antes de admitir “Maybe I was born confused”. E a dado momento ela gritava “Thank you for leaving me / thank you for making me happy”. Era uma canção sobre um amor que chegara ao fim – Dana não a tocou na sexta; talvez nós devêssemos tê-la cantado, porque é exatamente isso que sentimos neste momento confuso em que as Porridge Radio resolvem desaparecer no topo do jogo: obrigado por a tua eterna infelicidade me fazer feliz, Dana. É egoísta, eu sei, mas posso jurar que é sincero.