O caso rebentou na terça-feira, chega a quinta com desenvolvimentos e tem tudo para não ficar por aqui. Primeiro, chegou a notícia de que o duque de Sussex renunciou ao cargo de patrono da Sentebale, uma instituição de solidariedade africana que criou há 20 anos. “A decisão de hoje é nada menos que devastadora para todos nós, mas não vemos outro caminho a seguir como resultado de nossa perda de confiança na presidente do conselho.”
Seguido nesta posição pelo cofundador, o príncipe Seeiso do Lesoto, Harry acrescentou estar “verdadeiramente com o coração partido”. O comunicado vem no rescaldo da também saída de funções de um conjunto de curadores, Timothy Boucher, Mark Dyer, Audrey Kgosidintsi, Kelello Lerotholi e Damian West, que renunciaram por unanimidade às posições de membros do conselho. “O que aconteceu é impensável. Estamos em choque por termos que fazer isso, mas temos uma responsabilidade permanente para com os beneficiários da Sentebale, por isso partilharemos todas as nossas preocupações com a Comissão das Associações de Solidariedade sobre como isto aconteceu.”, defendeu o duque.
Na origem da debandada estão alegadas disputas internas com a presidente Sophie Chandauka, uma advogada natural do Zimbabué, nomeada para o cargo em 2023. Segundo o The Times, a divergência estaria relacionado com a estratégia seguida para a arrecadação de fundos, mas os contornos parecem ser mais vastos do que este breve resumo.
O papel de Harry na Sentebale inscreve-se num número restrito de patrocínios privados que o filho de Carlos III manteve depois de ter sido destituído dos seus privilégios reais e posições militares honorárias pela falecida rainha em 2021, após o seu afastamento do papel de membro sénior da família real. O duque estabeleceu a Sentebale no Lesoto em 2006, em homenagem à sua mãe, Diana, princesa de Gales, depois de visitar o país do sul da África durante o seu ano sabático. A organização foi criada para ajudar as pessoas no Lesoto e no Botsuana em situações de pobreza e portadoras do vírus HIV.
De acordo com o The Telegraph, nunca foi explicado o motivo da renúncia repentina de Johnny Hornby, o antecessor de Chandauka, depois de 11 anos no conselho, cinco deles como presidente. Fontes próximas do caso dizem estar aqui a semente de implosão gradual da instituição, até aqui liderada por “uma figura do establishment com ligações estreitas com figuras importantes do Partido Trabalhista”, um amigo próximo de Harry, e peça fundamental na angariação de fundos e numa forma de funcionar bem distinta da presidência posterior.
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Com uma carreira de mais de 20 anos Chandauka veio corporizar uma nova visão e perfil. Com um currículo impressionante, passou por grandes empresas como Meta, Morgan Stanley e Virgin Group. E apesar da educação de classe mundial recebida em destinos como Canadá, EUA e Reino Unido, continuava a ser “a jovem menina do Zimbabué” contra a qual estavam todas as probabilidades de chegar tão longe.
Chegou a uma bem sucedida Sentebale trazendo assim um novo perfil, e encontrou uma instituição que algumas vozes consideravam demasiado dependente da Taça de Polo anual e de uma fatia restrita de beneméritos. Segundo uma fonte, a presidente tentou “fazer diferente” e contratou a “empresa de estratégia liderada por mulheres” Lebec por um custo significativo. É nesta fase que a liderança da associação se muda de Londres para o sul de África, e que os esforços para angariar fundos se concentraram na costa oeste dos EUA. Mas aparentemente a estratégia não atraiu as grandes doações que haviam sido previstas e nem a visita de Harry ao Lesoto e Joanesburgo com executivos de potenciais doadores, incluindo a Google, inverteram o declínio.
A realidade, segundo um insider, é que as mudanças ditaram “o afastamento de uma série de homens brancos” que até aqui se prestavam a apoiar a Sentebale, um desinteresse que, de acordo com a mesma fonte, de alguma forma coincide com o regresso de Donald Trump à presidência dos EUA. Segundo o Telegraph, em novembro passado, vieram os primeiros sinais assinaláveis de problemas quando a baronesa Chalker, ex-ministra conservadora do Desenvolvimento no exterior, que havia sido curadora por 18 anos, renunciou. O amigo íntimo de Harry, Andrew Tucker, também conhecido como Tucks, deixou também o seu papel de uma década como consultor no mesmo mês.
Fontes ligadas ao processo, citadas pelo The Guardian, garantem que na origem do atual desentendimento estarão sobretudo “diferenças culturais”. Se Harry considera a liderança de Sophie “insustentável”, a responsável no centro deste furacão noticioso descreve-se como uma “denunciante” que luta contra a misoginia e o bullying, tendo chegado a processar a própria associação por “racismo”. “Há pessoas neste mundo que se comportam como se estivessem acima da lei e maltratam os outros, e então jogam a cartada da vítima e usam a própria imprensa que desdenham para prejudicar as pessoas que têm a coragem de desafiar a sua conduta”, escreveu Chandauka. “Por trás de toda a narrativa e ficção da vítima que foi distribuída para a imprensa está a história de uma mulher que ousou denunciar questões de má governança, gestão executiva fraca, abuso de poder, bullying, assédio, misoginia, misoginoire (misoginia dirigida a mulheres negras), e o encobrimento que se seguiu.”
Segundo o The Guardian, tudo foi despoletado porque Sophie Chandauka denunciou os curadores da instituição de caridade, pedindo a sua investigação, e fez um pedido ao tribunal superior para permanecer no cargo. “Os leitores mais exigentes se perguntarão: por que é que a presidente do conselho denunciaria os seus próprios curadores à Comissão? Por que é que o Supremo Tribunal da Inglaterra e do País de Gales aceitaria o seu pedido para ouvir o assunto se o caso não tivesse mérito?”
Os advogados de Chandauka recusaram fornecer mais detalhes sobre o caso da sua cliente contra Sentebale. A equipa de relações públicas de Harry também se furtou a prestar mais esclarecimentos. Num sugestivo comentário, que parece dirigido ao duque, Sophie garante que para ela a instituição de caridade não é “um projeto de vaidade” do qual poderia renunciar quando chamada a prestar contas e que continuaria como presidente do conselho.
O caso tem pelo menos acendido a reflexão sobre o papel que instituições como estas têm no ocidente e a sintonia entre os problemas reais das pessoas que assistem e toda a dinâmica gerada à margem desse auxílio. Para não falar da capacidade que a associação terá, ou não, para sobreviver por diante sem o apoio de uma figura com o perfil de Harry e outros doadores até aqui alinhados com o príncipe.
Segundo o comunicado emitido pelo porta-voz de Harry, Chandauka “processou a instituição de caridade para permanecer” no seu cargo. Mas preevem-se próximos capítulos. “Quando estivermos prontos como organização, partilharemos mais detalhes sobre os eventos que levaram a este ponto.”, rebatem os advogados da presidente.