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Ninguém se apercebeu de nada. O mar está calmo. É apenas mais uma noite tranquila nas Caraíbas. Estamos a bordo do paquete Santa Maria, um navio transatlântico que se dirige para Miami, nos Estados Unidos. É a joia da coroa da Companhia Colonial de Navegação Portuguesa. Leva quase mil pessoas a bordo, 650 passageiros e mais de 300 tripulantes. Esta noite, todos jantaram e se divertiram a bordo do cruzeiro. Sem fazerem qualquer ideia de que entre eles está um grupo de homens armados prestes a mudar o rumo da embarcação. Entraram a bordo há pouco mais de 24 horas, sem levantar qualquer suspeita. A Operação Dulcineia está em curso. Madrugada de 22 de janeiro de 1961, 1h45 da manhã. Os homens armados entram de rompante na ponte de comando do navio e ameaçam a tripulação. Apanhados de surpresa, alguns elementos tentam resistir. São disparados tiros. Um dos pilotos morre logo no local. Outros dois elementos da tripulação ficam gravemente feridos. Não estava nos planos de quem preparou esta operação durante mais de um ano. Mas o plano vai para a frente. Está em curso a mais espetacular tentativa de começar um golpe de Estado e deitar abaixo a ditadura em Portugal. Depois de tomarem o controle do navio, os operacionais invertem o rumo. O paquete desaparece misteriosamente no meio do Atlântico. Seria apenas o início. 1961 vai ficar para a história como o ano que faz tremer o Estado Novo. O princípio do fim. Ainda que a ditadura tenha demorado mais de uma década para cair. No final de janeiro, o grupo de homens liderado pelo comandante Henrique Galvão, um dissidente do regime, desvia o paquete Santa Maria e dá origem a um caso de proporções internacionais. Entra para a história. É o primeiro navio do mundo sequestrado com fins políticos. Dias depois, vão ser lançados os primeiros ataques de guerrilha em Angola. Há um homem que vai estar em todo o lado. Jorge Jardim, o agente secreto não oficial do regime, vai envolver-se em todas as frentes. Este é "O Misterioso Engenheiro Jardim, uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, com banda sonora original dos HMB. Episódio dois: Canetas que disparam balas.
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Só ao nascer do dia é que os passageiros percebem que algo de errado se está a passar. O paquete está agora nas mãos de um grupo de revolucionários portugueses e espanhóis chamado Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação, que se opõe às ditaduras de Portugal e Espanha. Vinte operacionais subiram a bordo quando o navio parou no porto de La Guaira, na Venezuela. Entre eles estava Camilo Mortágua. Um dia depois, nas Antilhas, entraram mais três homens e Henrique Galvão, o líder do grupo. Galvão chegou a ser um dos militares preferidos de Salazar antes de passar para a oposição. Tinha fugido do país dois anos antes e vivia agora na Venezuela, onde conseguiu asilo político. O plano é audaz: desaparecer com o pacote no meio do Atlântico, chegar à costa africana, tomar Luanda e começar uma revolução a partir de Angola. Galvão está coordenado com o general Humberto Delgado. É o principal rosto da oposição a Salazar, que dois anos antes foi derrotado de forma polêmica nas eleições presidenciais, com acusações de fraude. Mas as coisas começam a correr mal desde o início. Quando o navio passa ao largo da ilha de Santa Lúcia, Galvão decide desembarcar os feridos, que são transportados pra costa numa das lanchas a motor. Perde-se o fator surpresa. O mundo fica a saber que o paquete foi assaltado e a embarcação começa a ser ativamente procurada pela aviação norte-americana. Quando o paquete é encontrado, a armada americana obriga Henrique Galvão a desviar a rota pro Brasil. E é nesta altura que Jorge Jardim entra em ação.
Há ali um período de negociação com as autoridades brasileiras. A certa altura, precisavam ter alguém que gerisse esse ambiente, e aí aparece o meu sogro, não se terá voluntariado a dizer: "eu preciso ir, vou eu." Ter-lhe-ão é falado: " temos esta coisa." E ele começou a dizer: "bom, se for pra fazer assim, eu vou lá." E é nesse estatuto que ele aparece. Para ser alguém com mão naquele tudo, porque sabia até onde é que o governo português podia ir ou queria ir e, portanto, tinha a percepção política da situação.
Orlando Thames de Oliveira é genro de Jorge Jardim. Conta como foi o próprio sogro que se ofereceu pra aquela missão, como quase sempre acontecia. Jardim viaja em segredo pro Recife. O Santa Maria está ao largo da costa. De Portugal traz um plano, pelo menos para a forma como tenciona enviar para Lisboa as informações secretas sobre o que está a acontecer. Nem que, pra isso, seja necessário recorrer a sabonetes e sabões. Jardim tem um problema. Acha que os corredores da embaixada de Portugal no Brasil estão vigiados por elementos ligados ao novo presidente brasileiro. Jânio Quadros declara-se abertamente contra Salazar e vai tomar posse dentro de dias. Por isso, monta um esquema criativo. Inventa uma empresa brasileira de óleos e sabões que vai entrar em contato com a Sonae Bel, a Sociedade Nacional de Sabões Portuguesa. E ainda antes de sair de Portugal, passa ao presidente da Sonae Bel um código pras comunicações. À primeira vista, são apenas telegramas sem grande interesse entre os técnicos brasileiros e os portugueses. Mas, na verdade, escondem informação sobre o que se está a passar no caso do Santa Maria. Henrique Galvão, por exemplo, tem como nome de código "Torre de lavagem de detergentes". O problema é que pra passar informações corretas, Jardim precisa de saber o que se passa realmente no interior do paquete. Não confia em ninguém. Tem que conseguir ir ele próprio a bordo. Só ainda não sabe como. O caso centra as atenções do mundo. Dezenas de repórteres viajam para o Brasil pra acompanhar o impasse e as negociações entre Galvão, enviados americanos e brasileiros. Todos querem um exclusivo. Um duplo de cinema a trabalhar pra uma agência de notícias francesa e um fotojornalista da revista Paris Match levam a cabo uma ação espetacular. Metem-se num avião que vai no encalço do Santa Maria, saltam de paraquedas e acabam recolhidos pela tripulação no mar. A ousadia vale à revista francesa um exclusivo mundial com os sequestradores, que seria publicado com o título "A fantástica aventura de Galvão e dos piratas da revolução". Ninguém quer ficar pra trás. Um grupo arranca num barco a motor e também consegue subir a bordo do Santa Maria. São todos jornalistas. Todos, menos um Entre eles, segue um homem disfarçado que, na realidade, não trabalha para nenhum jornal, nem para nenhuma revista, nem para nenhuma rádio. É o engenheiro Jorge Jardim.
Ele acaba por entrar dentro do Santa Maria como jornalista, porque foi numa altura em que entrou um grupo de jornalistas e ele também foi.
A 2 de fevereiro, ao início da manhã, o Santa Maria entra no porto do Recife, acompanhado por quatro navios de guerra norte-americanos. Depois de 12 dias sob sequestro, os passageiros saem finalmente em liberdade. No dia seguinte, são os sequestradores que abandonam o paquete e se entregam às autoridades brasileiras, que depois transferem a embarcação para os portugueses. Antes de regressar a terra, o grupo de Henrique Galvão já tinha uma garantia por parte do novo presidente. Todos teriam direito a asilo político no Brasil. Já o Santa Maria regressa a Lisboa, onde há de ser recebido de forma vitoriosa por Salazar. A coberto de segredo e sem aparecer nas centenas de notícias publicadas na altura, Jardim teve um papel importante na resolução do caso. Confirma o historiador Pedro Aires Oliveira.
Quando o paquete Santa Maria é entregue às autoridades brasileiras, é o Jorge Jardim e uma brigada naval da Legião Portuguesa que vão lá tomar conta do navio. O Jorge Jardim desmultiplica-se em iniciativas e em papéis neste período muito sensível, de grande também vulnerabilidade do império português.
Durante a crise do Santa Maria, Jorge Jardim atuou como um agente secreto informal. Na verdade, estava a imitar o grande herói dele.
Nine à la banque.
I need another thousand.
I admire your courage, miss...
Trench. Sylvia Trench. I admire your luck, mister...
Bond. James Bond.
Ele copiava, é um fato, do princípio ao fim, o James Bond. Não perdia um filme do James Bond, tinha as mesmas pastas do James Bond. Se o James Bond tinha um casaco não sei quanto, meu pai comprava o casaco não sei o quê. Mas ele adorava.
A filha mais velha, Isabel Maria, conhecida na família como Patucha, foi muitas vezes ao cinema com o pai ver os filmes do James Bond assim que estreavam. Jardim queria copiar todos os gadgets que via o agente 007 usar em missões. Tem microdispositivos de gravação áudio e até uma pequena máquina fotográfica Minox B, muito fininha, que os agentes usam para fotografar discretamente documentos. E tem também outros objetos surpreendentes, como uma caneta especial, que um dia é esquecida num fato que vai para lavar.
E os fatos iam para limpar. Normalmente, a minha mãe costumava fazer uma revisão antes do fato ir para dentro, porque o meu pai metia o que quer que seja nos bolsos. O Mainato começa a tirar as coisas dos bolsos e põe ao lado para ele entregar ao senhor engenheiro, como era costume. Sai uma caneta e o Mainato que agarrou na caneta e quando ia a mostrar ao outro, faz assim com a caneta e a caneta parte o vidro. Eram umas canetas que tinham umas balas, umas balazinhas, não sei, mas eles tremiam. Eu lembro-me tão bem de chegarmos e eles falavam muito comigo, que também era a mais velha. "Patucha, ouves? O senhor engenheiro tem uma caneta, é muito perigoso, não podem mexer em nada. O senhor engenheiro tem uma caneta que deita balas."
Ausências prolongadas, viagens misteriosas, canetas que disparam balas. Aos poucos, a filha mais velha vai tendo pistas sobre o que o pai anda realmente a fazer. Jorge Jardim nunca revela nada aos filhos antes de sair em missão, mas a próxima operação vai ser especialmente perigosa. Por isso, decide reunir o clã e conta-lhes tudo.
Cinco de fevereiro de 1961. Os sinos da vetusta sede Luanda dobram afinados. A súbita e insólita imagem da morte dos filhos de Angola, dos portugueses de Angola.
O conflito em Angola rebenta quase ao mesmo tempo em que, no Brasil, decorre a crise com o paquete Santa Maria. A 4 de fevereiro de 1961, são atacadas prisões em Luanda e outros pontos-chave da administração portuguesa. O objetivo é libertar presos políticos e conseguir armas para dar início à luta armada Um mês e meio depois, a 15 de março, os ataques em fazendas no norte do território lançados pela UPA, a União dos Povos de Angola, resultam na morte de centenas de brancos, incluindo mulheres e crianças. A resposta de Lisboa será dura. Em abril, Salazar ordena o envio de tropas rapidamente e em força.
É o objetivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão.
É o início oficial da guerra em África. O Ministro do Ultramar, Adriano Moreira, é enviado numa viagem ao norte de Angola para acalmar as populações e num gesto de afirmação da soberania portuguesa. Viaja de jipe até à cidade do Uíge. A poucos quilómetros do destino, depara-se com uma milícia de civis portugueses armados. Alguns estão deitados a descansar à beira da estrada, com as espingardas pousadas em cima do peito. De repente, um dos homens levanta um chapéu indiano cinzento escuro e acena ao Ministro. O rosto é familiar. Adriano Moreira reconhece-o de imediato. É o engenheiro Jorge Jardim. Terá decidido ir para Angola depois de uma conversa com o próprio Salazar. A filha mais velha, Patucha Jardim, recorda que, ainda antes da partida, a viagem para Angola já era diferente das outras. Foi a primeira vez que o pai falou abertamente de uma missão e revelou para onde ia.
Nunca nos puseram um cenário horrível. Quer dizer, tiveram sempre o cuidado de não nos assustar demasiado. Mas aí percebemos que a coisa era muito grave. E rezámos com ele, sim. E dissemos: "Pronto, o pai há de voltar, se Deus quiser. Era uma operação bem mais grave que das outras vezes, não é uma operação política, é uma operação de guerra."
Em Angola, Jardim participa ativamente na guerra e colabora nas primeiras campanhas de contrasubversão. Vai a Moçambique e passa os meses seguintes a tentar recrutar voluntários para combater, mas com pouco sucesso. Acaba por juntar um grupo que integra funcionários das empresas que administra, aos quais oferece dois meses de licença. Entre eles, um piloto. Volta para Angola em agosto. Junta-se a uma companhia de infantaria e participa em várias operações no mato, enquanto o piloto faz a cobertura aérea. Jardim passa-lhe as indicações para o dia numa folha escrita com uma máquina de escrever que levou para a guerra. E usa um código de cores que só os dois percebem. Desenha retângulos coloridos, uma espécie de bandeiras. Duas verdes significa que está tudo a correr como planeado. Uma verde e uma amarela, que é preciso avançar com precaução. Duas vermelhas significa que há vítimas mortais. Uma das operações em que participa, em setembro de 1961, tem como nome de código "Operação Ervilha." Numa das notas ao piloto, escreve: "Boa sorte e olho aberto. Nada de deixar furar o avião. O seguro não paga." Mas o certo é que o avião há de regressar a Moçambique cravejado de balas. Anos mais tarde, Jorge Jardim iria admitir: "Vi centenas de mortos e não foram poucos os abatidos por mim ou pelos meus camaradas. Atravessei povoações arrasadas e muitas delas foram destruídas por minha ordem." Os relatos da altura revelam que Jardim, que não era um militar de formação, vivia intensamente a guerra. Para muitos, seria uma forma de compensar a mágoa de, em jovem, não ter sido dado como apto para o exército. Pedro Pezarat Correia, general na reforma, que na década de 60 chegou a colaborar com Jardim em operações secretas em Moçambique, também concorda.
Aquilo foi para compensar a sua frustração de não ter sido militar. Depois, ele tinha uma grande veneração pelos militares. Isso é verdade.
Mas Jardim irá admitir também que a experiência o marcou profundamente, que a guerra por si só não conduzia à resolução do problema, mas era justificável como atitude defensiva e como forma de esperar por outras soluções. Vai colocar esses motivos numa carta que escreve anos mais tarde a Carmo, uma das filhas.
Foi a guerra mais suja que se teve que fazer para salvar realmente pessoas, mas que ele tinha pena que fosse necessário Para atingirem os seus objetivos e para se chegar à paz. E realmente ele escreve nessa carta, que é uma carta que eu guardo muito bem, porque ele explica muito bem a razão porque foi pra Angola.
Jardim passa boa parte do ano de 1961 em Angola. A mulher, Teresa, chega mesmo a ir ter com ele.
Minha mãe ia ter com ele em toda a parte, fosse mato, fosse Nova York, fosse o que queira, a minha mãe ia sempre. A minha mãe depois foi lá ter, ao mato. Ele dizia: "Podes vir?", lá se ia ela embora e a minha mãe foi ter à Angola com ele.
Teresa Jardim era uma mulher discreta, mas corajosa. No espaço de 16 anos, teve 12 filhos. E não hesitava em seguir o marido, para onde fosse preciso. Depois da experiência em Angola, Jorge Jardim fica convencido de que a guerra não tardará também a chegar a Moçambique. E é aí que começa o processo de reforço da segurança da casa onde vive com a família. Fica dentro das instalações da fábrica da Lusalite, a empresa que ele administra. Jardim tem um brevê de piloto e um avião pessoal. A casa tem uma pista de aterragem e até uma torre de controle.
Foi considerada a única casa em África, não sei se no resto da Europa ou do mundo, com controle à séria. Uma torre de controle, que comunicava com os aviões, o avião do meu pai, o avião que eu voava, o Cessna 172, com os aviões todos.
Convence os donos da Lusalite a gastarem 2 mil contos num sistema de defesa e prepara-se para a possibilidade de ataques armados. Carmo Jardim recorda que a torre não servia apenas para comunicar com os aviões. Todos os carros da família estavam ligados por um sistema de rádio.
A torre de controle conseguia saber sempre onde é que nós estávamos, porque vivíamos a 30 km da beira, para norte. E essa estrada era uma estrada sem luz. Era uma estrada muito fácil de sofrer uma emboscada. Portanto, a função dos rádios também era um bocado essa. Estava sempre atento a que, se acontecesse qualquer coisa, a família seria socorrida imediatamente.
Depois, não seria fácil pra um intruso entrar dentro de casa.
Além das seguranças que tinha, era de uma segurança brutal. E as sirenes nos portões, cada vez que aparecia uma hórrea, disparava as sirenes todas. Em cada rotunda que houvesse, desde a entrada da Lusalite até à nossa casa, havia guaritas, por todo lado, com seguranças. Era um conjunto de casas muito bem guardadas.
A guerra iria mesmo chegar a Moçambique, mas muito mais tarde do que à Angola. O historiador Pedro Aires Oliveira, especialista no período da guerra em África e da descolonização, explica que isso acontece porque, no caso moçambicano, foi mais difícil aos movimentos nacionalistas organizarem-se.
Por um lado, os nacionalistas africanos, muitos deles radicados em territórios contíguos, como a Tanzânia, como mais a norte, no Quénia, tinham dificuldade em se entender, em constituir uma frente unida. Isso demora mais algum tempo do que noutros territórios. E, portanto, sem haver uma coesão, uma unidade política para desencadear a luta armada, torna-se difícil que ela verdadeiramente aconteça. Portanto, os portugueses puderam retardar um pouco essa situação.
A FRELIMO, Frente de Libertação de Moçambique, é criada apenas em 1962, na vizinha Tanzânia, fruto da união de vários grupos nacionalistas. O primeiro líder é Eduardo Mondlane, um sociólogo que tinha estudado nos Estados Unidos. Depois de dois anos a tentar a via política, Mondlane decide finalmente iniciar a luta armada. Em setembro de 1964, a FRELIMO lança a primeira ação. Grupos de guerrilheiros atacam duas localidades no norte do território. Até o final desse ano, as operações de guerrilha vão alastrar e espalhar o medo e a insegurança entre a população. Moçambique é uma enorme língua de território com uma costa de mais de 2500 km, banhada pelo Oceano Índico e cercada por inúmeros países A sul tem a pequena Suazilândia e a África do Sul, que por esta altura já vive num regime de apartheid, separação entre brancos e negros. A oeste fica o atual Zimbabué, à época chamado Rodésia do Sul, onde os colonos brancos, liderados por Ian Smith, declaram a independência do Reino Unido em 1965 e instauram um regime racista parecido com o sul-africano. A Zâmbia também declara a independência por esta altura, mas é governada pela maioria negra. Os principais problemas vêm do norte e da Tanzânia. A FRELIMO não tem apenas sede na capital, tem várias bases operacionais a sul, na zona de fronteira, de onde são lançados ataques para o norte de Moçambique. Uma zona de importância estratégica é o gigantesco lago Niassa, partilhado entre os dois países e um terceiro que estava prestes a nascer, o Malawi. Jorge Jardim percebe desde cedo a importância desta zona. E percebe também que, em tempo de guerra, nem sempre as armas são o recurso mais eficaz. Assim que o avião aterra na pequena pista improvisada de terra batida, a multidão corre em direção ao aparelho. Mas Jorge Jardim vem preparado. Traz uma carga especial para esta missão. Mais concretamente, 100 quilos de rebuçados, 50 quilos de bombons, pipocas, cerveja e Coca-Cola, rádios a pilhas e uma quantidade enorme de capulanas, tecidos estampados com padrões africanos. É uma operação de charme. Estamos na pequena ilha de Licoma, um ponto estratégico no lago Niassa. Depois de a guerra começar, a população aumentou. Tornou-se um destino de refugiados, mas também de elementos da FRELIMO, explica o genro de Jardim, Orlando Temas de Oliveira, que também viveu em Moçambique.
Porque a ilha de Licoma era uma ilha de Malome, mas que estava muito perto da costa portuguesa. E não convinha que nessa ilha se baseassem indivíduos da FRELIMO. O charme foi: "estão aqui os portugueses, eles não têm problema nenhum com vocês, não querem mal nenhum, não querem a ilha pra nada, mas faz favor, não incomodem os vizinhos". Era este gênero de missões ou de organizações que esta pessoa era exímia nisso. Em vez de pensar: "não, o melhor é a gente chegar lá e destruir a ilha". Não foi nada por esse caminho. Lá vem ao de cima o que era a sua mentalidade.
No pequeno avião que segue para a missão em Licoma, vão três pessoas. Jorge Jardim, o piloto e uma rapariga de apenas 18 anos, Patucha Jardim.
Lá chegamos nós de avião, caixotes de rebuçados, de bolachas, umas bebidas, uns sumos e aquelas coisas. Criançada toda vem a correr, aterrou um avião.
Há muito que a filha mais velha insistia com o pai para ir numa missão. Finalmente, tinha uma oportunidade. E não seria a última. Jorge Jardim faz centenas de missões em todo o país, sempre com o mesmo avião. A filha participa em várias. Distribui os rebuçados e bolachas enquanto as mulheres e crianças olham pra ela com ar de espanto e lhe agarram os cabelos muito lisos, que nunca tinham visto antes. O pai estabelece relações com os líderes tribais. Isso vai ser muito útil para aumentar a influência em Moçambique. Para se conseguir deslocar facilmente no terreno e fazer esses contactos, tem até uma pequena motorizada desmontável que segue sempre a bordo, pronta a entrar em ação.
Estava sempre no avião. Sempre no avião.
Estava com uma coisa assim desta tamanho.
Quando ele aterrava em algum sítio, às vezes eles aterrava em descampados, não era pista, sequer. E depois ele tinha que ir ter com quem, qual era a missão que ele ia fazer. Desmontava, montava a motinha num instante e lá ia com a motinha. Claro que não era uma mota 100 cv, era uma mota pequenina, mas era uma motinha. Não sei se algum James Bond tinha uma mota daquelas.
É uma tarde de primavera de 1963. Jorge Jardim está em Lisboa quando é subitamente convocado para a residência oficial do presidente do Conselho, na Calçada da Estrela. Salazar quer falar com ele. Não estava na agenda, mas Jardim não estranha. Não é a primeira vez que acontece. Quando sabe que ele está em Portugal, o chefe do governo chama-o várias vezes para conversar sobre política ou outros assuntos de menor importância Jardim entra no gabinete, vê papéis espalhados pela mesa de trabalho, pelas cadeiras e até em parte do velho tapete que cobre o chão. Salazar começa por recordar as missões na Índia e em Angola, em que Jardim participou com sucesso. Depois, vira a atenção para África. Prevê que a guerra se vai agravar também em Moçambique e dá-lhe uma missão. Diz-lhe: "Ou conseguimos isto ou o nosso ultramar conhecerá uma catástrofe." À partida, a missão poderia até parecer simples. Jardim tem apenas de chegar a um homem em África. O problema é que não é um homem qualquer, é o líder de um país. Passa meses a tentar perceber qual será a melhor forma de fazer uma aproximação. É preciso montar um plano arriscado. Vai no avião dele, consegue entrar no palácio presidencial e fica frente a frente com o homem. Basta um tiro para o matar. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
Tirei a brevê de avião com 17 anos, mas não tinha carta de condução. Eu achava aquilo de outro mundo e pensava: "Não, nós temos que ser paraquedistas, eu quero ser paraquedista."
Mas estava a dizer: "Quanto é que eu estou? Gastei tanto." Ele passava ali o cheque imediatamente e aquilo eram verbas confidenciais.
"Se dentro de uns 15, 20 minutos eu não regressar, encontramo-nos em Moçambique." Eu olhei para ele e disse: "Não fizeste curso de combate?" Ele disse: "Fiz." "Então, encontramo-nos em Moçambique."
"O Misterioso Engenheiro Jardim" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, e tem banda sonora original dos HMB. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Se gostar desta série, pode seguir, dar cinco estrelas e comentar o episódio na Apple Podcasts ou no Spotify. Pode subscrever e gostar no YouTube. Assim, recebe uma notificação sempre que houver um novo episódio. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
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