O crítico confessa-se. Não foi num espírito de desinteressado serviço ao espaço público, com os olhos postos já nesta recensão, que me lancei a Os Mistérios, traduzido por Sofia Carvalho e publicado pela Gradiva. Quando tive conhecimento de que, passados quase trinta anos desde o último Calvin & Hobbes, Bill Watterson publicara um novo livro em parceria com John Kascht, uma espécie de necessidade biográfica obrigou-me a fazê-lo.
Quem passou pela infância com a saga empilhada na mesa-de-cabeceira sabe que Calvin & Hobbes não é apenas uma banda-desenhada lúcida e divertida. É uma autêntica iniciação cómica à viagem, que decorrerá ao longo dos anos seguintes, pelas brechas entre experiência e sentido. Por meio de interposta personagem, um rapazito com algumas obrigações escolares e bastante tempo livre, Calvin funciona como um espelho – hilariante, provocador, comovente – do que significa crescer, isto é, chocar de forma progressivamente consciente com a estranheza e o encanto da vida. Bill Watterson conseguiu o feito de aliar uma hábil reconstituição do ponto de vista infantil a doses generosas de sabedoria existencial, num registo muitas vezes imitado (em BD como FoxTrot, de Bill Amend, por exemplo), mas nunca igualado.
Título: “Os Mistérios”
Autores: Bill Watterson e John Kascht
Tradução: Sofia Carvalho
Editora: Gradiva
Páginas: 72
As tiras do lourinho insolente e do seu inseparável tigre não são apenas capazes de colorir o tempo da infância. Como estudante de filosofia, cruzei-me nas páginas de Calvin com teses também presentes nos calhamaços dos filósofos, formuladas com menos pompa e uma pontaria cirúrgica. Como professor do secundário, fui assombrado pela figura de Miss Wormwood, encontrando um estímulo na provocação feita pelo diabrete de seis anos à velha educadora: “You can present the material. But you cannot make me care!” Como pai, a consciência de um fosso entre o olhar paterno e o olhar filial, e a repetição de tiradas como “Fortalece o carácter!”, fazem parte do dia-a-dia. Não exagero se acrescentar que ocupa um lugar de destaque nas minhas memórias o dia em que, tendo ouvido o meu filho de oito anos às gargalhadas numa outra divisão da casa, fui deparar com ele agarrado ao Canto do Alasca, esse libelo cómico sem piedade para com as pretensões ridículas dos crescidos, que abre um dos melhores livros de Bill Watterson – e cuja leitura não faria nada mal à cabeça de alguns senhores engravatados de mais nas suas fantasias de auto-reconhecimento.
Quando chegou o momento de ler Os Mistérios, tive portanto de endireitar as costas, contrair os músculos da cara e aclarar a garganta, com a falta de jeito de quem tenta manter o profissionalismo perante um objecto carregado de significado pessoal.
As imagens surpreendem desde o primeiro instante. Um negrume sem tréguas, um grotesco contido mas sem abertas, a muitas milhas do universo a que os fãs de Calvin se habituaram. Bill Watterson abandonou o ambiente domingueiro dos desenhos que o celebrizaram, John Kascht abandonou os cartoons redondinhos que costuma publicar na imprensa norte-americana, e juntos criaram um objecto sem qualquer preocupação de agradar ao seu público. Agradecemos por isso.
A página da esquerda traz o texto – regra geral, uma frase singela, como “As pessoas viviam desconfiadas e com medo” – e, a da direita, as tais imagens surpreendentes. Os autores não queriam que a parte visual funcionasse como uma mera tradução do texto para outro tipo de linguagem. As imagens deveriam assumir protagonismo narrativo. Uma aplicação particularmente bem conseguida deste princípio pode ser encontrada a meio do livro. Se o texto à esquerda nos informa que “as pessoas deixaram de temer os Mistérios” e que, enfim emancipadas, riem-se agora dos quadros antigos de artistas supersticiosos, a imagem à direita mostra-nos, ao lado de um guarda de museu muito composto, de perna cruzada, uma gigantesca tela em que a morte, montada a cavalo, salta sobre a cidade, saltando de algum modo também sobre a própria história, para aterrar nas páginas finais e mostrar quem manda. Um prenúncio tão discreto quanto vigoroso de que a última palavra não pertence à humanidade.
De modo mais geral, o que encontramos nas imagens do livro são fragmentos de um mundo marcado por sugestões perturbadoras, cuja força vem de um certo travo mítico da expressão, de um uso semi-irónico da caricatura e do tom apocalíptico do conjunto. No mesmo quadrado misturam-se diferentes registos artísticos, da modulação do barro ao desenho; no mesmo quadrado, diferentes evocações históricas, das figuras associadas à tragédia isabelina a paisagens urbanas contemporâneas. Um peculiar casamento de estilos, referências, materiais, que dá uma forma intencionalmente misteriosa a esta parábola contra a prepotência humana.
O vídeo lançado no YouTube pela editora Andrew McMeel Publishing – no qual, num subtil piscar-de-olho aos “Mistérios” que dão título ao livro, nunca vemos as caras dos autores, somente as mãos que trabalham e as vozes que comentam – permite ficar a conhecer alguns dados curiosos do trabalho de Watterson e Kascht. Nenhum dos dois tinha, antes deste projecto, trabalhado em colaboração com outros artistas. Uma das regras que estabeleceram à partida consistia no direito de veto de ambos em relação às propostas do parceiro. Ficamos a saber que o trabalho árduo de um, durante semanas seguidas, era chumbado sem cerimónia pelo outro, e que a sintonia criativa foi tudo menos imediata. Esse desencontro entre duas personalidades artísticas – Watterson longe da obsessão de Kascht pelo rigor anatómico na construção das figuras – terá contribuído, de maneira feliz, para o efeito de estranheza final.
A história é da exclusiva responsabilidade de Bill Watterson e serviu como ponto de partida da colaboração. Trata-se de uma parábola sobre a pretensão humana de domínio da natureza ou, de modo mais geral, sobre a orgulhosa cegueira da nossa espécie, uma parábola que traduz uma teoria simplificada do desenvolvimento histórico da humanidade. Começa no medo primitivo perante fenómenos alegadamente estranhos na floresta; passa pela fase do conhecimento científico e a consequente banalização de tudo quanto acontece; e acaba, numa tragédia ecológica de contornos vagos, com o desaparecimento dos homens e uma punchline excelente: “E os Mistérios viveram felizes para sempre.” Não podemos dizer que se trata de um portento literário, vindo do Ohio para deitar abaixo as portas do cânone. Mas, na sua simplicidade um tanto esquemática, tem qualidades interessantes.
Um dos aspectos notáveis prende-se com a indeterminação da narrativa – com o efeito que tal indeterminação ajuda a produzir. Note-se que a história de Os Mistérios não tem protagonista. Não tem, sequer, nomes próprios. Há o Rei, Feiticeiros, Artistas, Cavaleiros e, repetidamente, Pessoas, ou seja, é uma história em que a singularidade está abafada, o que reforça a impressão de estarmos perante uma parábola universal que trata de uma escala maior do que a escala do indivíduo. Os próprios termos impessoais em que a história se estrutura fecham a parábola apocalíptica sobre si mesma, bloqueando qualquer hipótese de salvação atribuível ao livre-arbítrio das personagens e dotando-a de uma inevitabilidade trágica com ecos das tragédias gregas.
Já ficou claro que Os Mistérios não vive à sombra dos méritos passados dos autores. Mas faz sentido recorrer a um título de Calvin & Hobbes para resumir a sua ideia mais forte: Progresso Científico… uma Treta! De facto, o principal mérito deste livro está na maneira como diz, por palavras, mas sobretudo por imagens, que, não obstante todo o “progresso” do conhecimento humano, habitamos um reino mais misterioso do que supõem os nossos esforços colectivos de dominação.
O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.