Depois de ter publicado Arquitectura Branca. Os Sanatórios para a Tuberculose em Portugal, de José Avelãs Nunes (2022, 504 pp.), trabalho galardoado com dois prémios académicos, a editora By the Book lança este grosso volume de 734 páginas dedicado especificamente ao sanatório marítimo do Outão, instalado num velho forte na barra do rio Sado, a 7 km de Setúbal, e à sua relevância na primeira metade do século passado para o tratamento da “peste branca de Oitocentos” (p. 17), ou “mal proletário” (p. 26), entre a população infantil e juvenil. Boa parte do livro é, aliás, a descrição e análise clínica das patologias de 4910 crianças ali tratadas, com relatórios individuais que nos dão uma viva ideia dos suplícios que a falta de saúde lhes infligiu, e quais as terapias de diferente inspiração científica que tentaram dar-lhes bálsamo, de efeitos não tão rápidos quanto desejável. Nesse sentido, este livro é também uma breve história da medicina portuguesa, ou, melhor dito, um capítulo da sua história recente (se recente podemos chamar ao período 1900-50), e ainda da história do país, repercutindo por sua vez grandes acontecimentos internacionais e grandes mudanças científicas — que Paulo Ferrinho aflora com precisão e acuidade no prefácio. “No dobrar do século a doença matava em Portugal c. 15-20 mil pessoas por ano” (p. 126). O grande, detalhado cartaz duma campanha da ANT, datado de 1904, e reproduzido na p. 537, podia ter merecido extensa análise crítica, como representação do estado da arte nesse período, mas o autor não o viu assim.

Médico no Outão entre 1977 e 2015, Rogério Palma-Rodrigues faz uma ampla, informada mas todavia talvez dispensável — ou abreviável — digressão histórica sobre a serra da Arrábida, a cidade de Setúbal e a própria tuberculose, “velha companheira da humanidade” (p. 109), antes de chegar ao cerne do seu livro: a história do edifício, os sucessivos diretores clínicos e a diacronia científica e clínica que conduziu a que em 1950, marco final deste ciclo, a prevalência da tuberculose decaísse, e as vacinas BCG, os medicamentos antibacilares e o tratamento ambulatório dispensassem o prolongado internamento em sanatório, evitando todos os efeitos nefastos do isolamento e da quietude para o desenvolvimento humano dos infantes. “Preservar a criança da tuberculose, tratá-la e curá-la se já doente, era a melhor maneira de lutar contra a doença, diminuindo a prevalência no adulto”, lê-se na p. 129. É praticamente a formulação do Congresso Internacional de Medicina, realizado em Lisboa em 1906 (p. 301).

O sanatório marítimo do Outão — o primeiro no país (p. 238) e com uma praia privativa — começou, na verdade, por ser um preventório feminino, e só em 1912 passou a sanatório, onde seriam tratadas apenas as formas extrapulmonares de tuberculose, a ósteo-articular periférica e a ganglionar, ditas tuberculose cirúrgica, com cuidados de helioterapia, talassoterapia e climaterapia ensaiados em sanatórios ingleses desde 1796. Muito antes disso, já sem guarnição militar, entre 1640 e 1870 o Forte do Outão foi posto de quarentena e sede do Serviço Marítimo de Saúde, responsável pelo controlo sanitário dos navios que demandavam Setúbal. Não admira por isso que, à semelhança dos mosteiros desativados em 1834 aproveitados para a instalação de hospitais públicos, o vasto edifício litorâneo fosse tomado para uma função para a qual não havia sido desenhado, mas cuja “sublime transformação” — são palavras de exagero do vice-almirante Vicente Almeida d’Eça (1852-1929), típicas do ato inaugural, a 6 de Junho de 1900 — veio servir os desígnios da Assistência Nacional aos Tuberculosos, criada e presidida pela rainha D. Amélia, que assim abdicou daquela que havia sido uma residência de verão da família real nas duas últimas décadas (v. p. 250). Inicialmente acolheu filhas de tuberculosos, “36 raparigas com estado geral muito débil, nesse tempo considerado pré-tuberculoso” (p. 255). Cinco anos depois, seriam já 126 crianças.

Título: “O Sanatório e a Tuberculose, 1900-1950. Outão, meio século de trabalhos e memórias”
Autor: Rogério Palma-Rodrigues
Prefácio e posfácio: Paulo Ferrinho e José Poças
Editor: By the Book 
Páginas: 734

Palma-Rodrigues reconhece os “inconvenientes do aproveitamento, para sanatório, de edifícios preexistentes”, virando costas à específica arquitetura dos sanatórios, claramente inspirada em requisitos terapêuticos. Era “inquestionável a localização privilegiada, mergulhada num ambiente natural que correspondia às condições climáticas requeridas por um Sanatório Marítimo”, mas a “construção fortificada, de grossas paredes e com espaços interiores acanhados, não oferecia condições para instalar um sanatório, por menos exigentes e mais estóicos que fossem os doentes e quem deles cuidava, médicos dedicados e enfermeiras-religiosas com espírito missionário” (p. 252). Foi afinal graças à “solidariedade filantrópica” — e à medida e velocidade dela — que depois se construíram edifícios contíguos, já com os “solários das varandas ou galerias de cura com acesso às amplas camaratas cheias de luz por portas que resultaram de janelas rasgadas até ao chão, por onde entrava, a par do sol, o ar puro da beira-mar” (p. 253; v. foto p. 225). O usufruto de uma praia privativa, com banhos de mar e de sol (ou banhos de sol de Hébert, o desportista e preparador físico francês Georges Hébert, 1875-1957), jogos e ginástica respiratória, era benefício de alguns, com mobilidade fácil, mas as aulas ao ar livre, além da aprendizagem, eram “valiosa contribuição para a preservação e cura da tuberculose” (p. 261; e foto). Os outros, imobilizados por aparelhos e coletes de gesso, eram conduzidos a solários em pátios da fortaleza, ou às varandas do novo edifício, deitados em cadeiras de repouso ou em leitos de Menard e camas de Rollier com rodas (figs. 133-39), onde passavam todo o tempo.

Consultando os velhos arquivos do Sanatório, o autor admite: “De um modo geral, os elementos fornecidos e coligidos não permitem formular, em nosso juízo, uma hipótese de diagnóstico rigorosa e daí tomcar como corretos os diagnósticos formados pelos especialistas de então, médicos com profundos conhecimentos da prática clínica a partir da qual catalogavam a doença como tuberculose, uma vez que nas primeiras décadas muito raramente eram auxiliados por exames radiológicos, analíticos, anatomopatológicos ou bacteriológicos com resultado consistente” (p. 285), e mesmo as poucas radiografias realizadas são “imagens de má qualidade inicial” (p. 296). O número de sanatorizados nunca parou de crescer até 1941-52, uma década em que foram registadas 1598 crianças (foram 658 em 1911-20, e sucessivamente 1095 e 1398), com Mal de Pott, coxalgias e outras patologias, quase metade das quais do concelho de Lisboa, e extrema dispersão geográfica, por mais de 200 concelhos de todo o país. Setúbal representava 10% dos internamentos, uma segunda posição devida a ser a cidade, com a sua “intensa e desordenada industrialização das conservas de peixe”, uma “miniatura da grande Lisboa com tudo o que ela tinha de pior para as pessoas” (p. 289). Algumas das crianças setubalenses foram internadas a pedido do Orfanato Municipal Sidónio Pais. Só em 1945 a Assistência Nacional aos Tuberculosos ganha o estatuto de organismo estatal.

O Outão tinha capacidade para albergar cerca de 400 crianças. A média do período de internamento variava de acordo com a patologia em causa — 833, 1095, 1825 dias —, destacando-se os casos de tuberculose osteoarticular na coluna (1403, contra 918 na anca e 399 no joelho). Estes dados dos primeiros anos do sanatório marítimo foram oscilando com o mais específico das solicitações dos decénios seguintes, mas denunciam tanto o firme aumento da tuberculose, que atingiria os níveis mais altos de mortalidade em 1930, como “a penúria e ineficácia dos meios que neste tempo a ciência médica conhecia e de que os médicos dispunham para combater o bacilo, tarefa inglória”, como diz o autor à p. 330, ou “titânica tarefa”, na p. 564. Fundada em 1938 pelo médico Jerónimo Maria de Lacerda (1889-1945), a Estância Sanatorial do Caramulo, com 1100 camas, os mais modernos meios de diagnóstico e terapêutica e condições para realizar cirurgias torácicas, irá tornar-se “uma verdadeira escola de tisiologia” (p. 383), mas a sobrecarga em Outão é indesmentível à luz dos dados pacientemente compilados por Palma-Rodrigues. Dos quase 5000 internados no Outão em 1900-50, apenas 168 provinham de instituições, a principal sendo o Patronato da Infância de Lisboa com 34, seguida do Asilo Nun’Álvares, com 15. Ainda assim, o abandono familiar por absoluta carência de meios era uma realidade.

Longos períodos de repouso, boa alimentação e bons ares, helioterapia e talassoterapia — em geral três anos ou mais, por vezes muitos mais, pela gravidade das lesões — melhoravam o estado geral do doente, preparando-o para a cirurgia, e reduzindo o internamento pós-operatório, com vantagens pessoais e familiares. Contudo, em muitos casos, era preciso esperar por uma idade ajustada a essa intervenção. Em 1950, com mais cirurgias, a média etária dos 1598 doentes era de 12,4 anos (8,8 para eles, 16,2 para elas), e mais rapazes do que raparigas (828 e 770), uma tendência que vinha da década anterior. As visitas eram raras, mas o consentimento para operar era solicitado aos pais e também ao próprio, evitando conflitos posteriores — como o da rapariga de 23 anos, que não foi operada e “chora com dores e não se cansa de lhe [ao tio e tutor] atirar à cara o quanto sofre por sua causa” (cit. p. 551). Os avanços da ciência médica eram ainda precários nesse período, os diagnósticos dispunham de meios técnicos precários, e a palavra cura estava longe de aplicar-se com todas as letras. Era, diz, “a cura possível, frequentemente com graves aleijões, depois de anos de sanatorização” (p. 560), sendo aceites “com naturalidade” (sic) as pesadas sequelas de doenças mutilantes, ou até a morte, como “resultado natural” de muitas situações clínicas. Casos houve, como o da menina de 5 anos com Mal de Pott lombar que foi tratada em 1943-44, e acabou por ter alta a pedido da família, “porque o pai tem ideias anti-religiosas e não deseja assistência religiosa” (cit. p. 582), que as enfermeiras dominicanas poderiam proporcionar.

Apesar de a vacina com BCG estar disponível desde 1921, só foi usada no país sete anos depois, e foi preciso esperar por 1950 — admissão da tuberculose como doença social — para que fosse criado um laboratório de produção de vacinas e brigadas móveis as aplicassem. Descoberta em 1944, a estreptomicina permitiu o fabrico de fármacos antituberculosos, mas a luta contra este flagelo está ainda longe de ser vitoriosa — aliás, como notícias recentes nos vieram mostrar.

O livro, de leitura interessante e sugestiva, sai ligeiramente prejudicado por uma acumulação caótica de informações, dir-se-ia que sofrendo de entorses e más formações parecidas às que aborda. Nem sempre, verdade seja dita, aos editores portugueses é concedida a possibilidade de intervir como médicos num hospital das letras. Trata-se, em todo o caso e sem dúvida, de obra de valor para se conhecer melhor a vida portuguesa do século passado, e nesse sentido é um livro que fica.