A sexta temporada de Black Mirror, a anterior, começa com a história de uma mulher que, de repente, vê a vida retratada num programa de televisão de um serviço de streaming (muito semelhante à Netflix). Fica tudo à vista de todos e todos passam a odiá-la. Quanto mais Joan (interpretada por Annie Murphy) tenta escapar daquele pesadelo, mais se enterra no mesmo, mais razões de ódio dá aos espectadores. A sétima temporada, esta que agora se estreia, arranca com um casal que resolve alinhar num tipo de tratamento novo para o cérebro que implica uma subscrição (como a de um serviço de streaming, claro está). A tecnologia parece promissora, os resultados possíveis apresentam-se como como a única salvação para a mulher (Rashida Jones) e as promessas estão muito perto. O que acontece? O serviço começa a ficar pior, os planos que eram premium passam a ser standard, o básico começa a ficar caríssimo ou comprometido com ideias aterradoras.
Há quem olhe para estes dois exemplos e veja Charlie Brooker como corajoso, mordaz, por estar a cuspir no prato onde come. Mais do que coragem, ele ganhou direito a fazê-lo quando levou Black Mirror do Channel 4 britânico para a Netflix em 2016, na terceira temporada. Assinou nesse momento uma pequena revolução. Nessa altura, pouca gente conhecia Charlie Brooker e, arriscamos, pouca gente conhecia Black Mirror. E a Netflix era o serviço de streaming que, então, parecia não ter medo do risco e cada nova série surgia com algo especial. Não ter medo de criar histórias em volta da tecnologia que hoje existe e de como se pode imaginá-la no futuro próximo tornou-se numa filosofia criativa para Charlie Brooker. Mas é interessante como Black Mirror se transformou numa máquina que tomou conta do seu criador.
[o trailer da temporada 7 de “Black Mirror”:]
Black Mirror continua a ser boa televisão, mas é fácil perceber que está mais associado a uma linha de montagem audiovisual, aos métodos de uma indústria, contrariando em certa medida o ácido e o provocador que existia nas primeiras quatro temporadas. Convém lembrar que o primeiro episódio de sempre acaba com um primeiro-ministro a ter sexo com um porco, em direto para a televisão britânica, para salvar uma princesa. Mais do que ácido ou provocador, estes momentos de Black Mirror faziam com que a série fosse perturbadora.
Ao fim de tantas temporadas, obviamente, torna-se complicado ter frescura. Ao fim de mais de uma década é ainda mais difícil causar surpresa. Mas, ainda assim, talvez seja motivo de espanto que nesta temporada se revele notória a insistência num mesmo modelo e que Charlie Brooker o faça porque sabe que se vai safar: ou porque o público está anestesiado, ou porque a série é uma marca — e como qualquer marca com lastro, há efeito de consumo que não depende da avaliação, faz-se de forma imediata.
Se este é um texto desapontado com Charlie Brooker? Não necessariamente. É, mais do que isso, um lamento. Charlie Brooker foi em tempos um contrapoder, ele que fez coisas como Brass Eye, Nathan Barley, Dead Set ou How TV Ruined Your Life. Hoje, faz parte do sistema e seria importante que surgisse algo ou alguém que lhe fizesse frente, que cumprisse o papel que o próprio desempenhou até meados da década passada. E são estes novos seis episódios da sétima temporada de Black Mirror assim tão maus? Não, alguns até são muito bons, mas já não causam o impacto, que em tempos lhe vimos. Parece que estamos perante uma ideia do passado que resultou e que agora é recuperada para um (semi)novo contexto.
▲ "Black Mirror" perdeu o encanto? Para quem chega aqui fresco, não. Para quem vê a série desde 2011, sim
No terceiro episódio, Hotel Reverie, uma produtora de cinema junta-se a uma empresa de tecnologia para fazer um remake de um filme substituindo apenas um dos atores. A ideia, há que dizê-lo, é fascinante e Brooker explora-a para lá da nossa imaginação – como é prática habitual —, mas às tantas percebemos que isto é San Junipero – um dos episódios mais celebrados da terceira temporada – com uma nova decoração. Bête Noire, sobre bullying e vingança, é o melhor exemplo das limitações de Brooker, incapaz de navegar no território do terror para lá daquilo que já fez e com uma história que abusa da nossa vontade na crença da tecnologia. Há que dar o mérito ao criador: até aqui, todas as invenções tecnológicas de Black Mirror pareciam servir o tempo em que a história decorre. Em Bête Noire, a coisa parece tão fora de pé que a própria descrença naquela tecnologia torna difícil aceitar o que se está a passar.
Há outros exemplos, o mais descarado é mesmo o último episódio, USS Callister: Into Infinity, a primeira sequela dentro do universo de Black Mirror, continuando a história do episódio inaugural da quarta temporada, USS Callister. Na altura, Toby Haynes, que realizou o episódio, mostrou vontade em continuar a história. Anos depois, Brooker faz-lhe a vontade. É daquelas coisas vendidas como algo a celebrar, “esta ideia é tão boa que vamos recuperá-la” — mas é uma regurgitação sobre o mesmo, em que Black Mirror cai na armadilha de ser aquilo que sempre criticou.
Black Mirror perdeu o encanto? Para quem chega aqui fresco, não. Para quem vê a série desde 2011, sim. Brooker não se acomodou no trono, nem se tornou uma caricatura daquilo que sempre criticou, mas a forma direta, ácida e cruel com que fazia televisão parece ter adormecido. A sexta temporada ainda nos enganava em relação a isso, a sétima torna-o demasiado evidente. Se é fã com história e não quer desencantar-se de todo, veja Plaything, o quarto episódio. Também explora ideias do passado, mas aborda um sentimento para lá daquilo que é mostrado. Algo que Black Mirror fazia tão bem, quando não era refém de ser refém de uma ideia.
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