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1970. Jorge Jardim está em Portugal numa das várias visitas que faz à Europa. Liga para um homem que tinha conhecido em Moçambique. Encontram-se primeiro no Hotel Ritz, que era habitualmente o quartel-general de Jardim sempre que estava por Lisboa. Saem e descem a Rua Castilho. Seguem a pé para um bar na Rua Barata Salgueiro, onde continuam a conversa. O engenheiro Jardim tem uma proposta para fazer àquele homem. Uma proposta aliciante e, claro, secreta. Afinal, ele tem o perfil certo para um novo plano que Jardim quer pôr em marcha. Esta não é uma operação como as outras. Há uma grande novidade. Não só tudo isto é segredo, como o governo português não sabe de nada. Jorge Jardim, o fiel agente secreto do regime, o homem que sempre informou Lisboa de todos os passos que deu, com relatórios pormenorizados, desta vez não dá conhecimento a ninguém. O plano não é simples, mas a recompensa pode ser gigantesca. É a jogada mais arriscada de sempre. Jorge Jardim quer criar um novo país. Este é o misterioso engenheiro Jardim, uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, com banda sonora original dos HMB. Episódio quatro: Cantor, espião e playboy.

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João Maria Tudela nasceu em Moçambique. Veio estudar para Coimbra, onde se dedicou mais à boémia do que à vida académica. Voltou para Lourenço Marques e teve vários trabalhos, mas o mais importante foi como comercial da petrolífera Shell, que o levava a fazer viagens constantes para a África do Sul. Foi nesse emprego que se cruzou pela primeira vez com Jorge Jardim, que administrava as empresas de produção e distribuição de combustíveis. Mas a verdadeira paixão de Tudela era a música. E o que começou como uma brincadeira amadora, depressa ganhou outra dimensão.

Começa a gravar umas coisas, até que grava aquela que vai ser a música mais conhecida, que se chamou "Canimambo", que foi inclusivamente a música do lado B do vinil, era a segunda música. Canimambo significa obrigado num dos vários dialetos que se falam em Moçambique. Essa música teve um impacto na carreira, na vida, gigante, tanto em Moçambique como em Portugal, como penso que em todas, na altura, antigas colónias portuguesas. O meu pai dizia que só em Portugal abriram mais de 200 casas, entre restaurantes, cafés, discografias, discotecas, com o nome Canimambo.

João Maria Carreira é filho de Tudela, que viria a assentar mais tarde na vida. Foi pai pela primeira vez já depois dos 60 e ainda teve mais uma filha. A música correu-lhe tão bem que deixou o trabalho que tinha em Moçambique para seguir a carreira de cantor e viver uma vida de playboy. Usa o cabelo mais comprido, à Beatle, e tem barba. Veste-se bem. É um homem charmoso. Tem um enorme à-vontade com as pessoas. É um relações públicas com bons contactos na imprensa e em várias outras áreas. Quando Jardim o contacta, é mesmo dono de uma empresa de publicidade em Lisboa. E tem também outra grande vantagem, que pode ser útil às intenções de Jardim. A profissão de cantor leva-o a viajar pelo mundo

E uma grande facilidade em deslocar-se de um lado para o outro. Portanto, essa facilidade de se deslocar com pretexto artístico poderia ser interessante para outro tipo de atividades não divulgadas ao público. No caso do meu pai, encontrou um senhor que gostava muito da vida que levava e do viajar. Um estilo de vida e um modo de vida que ao meu pai assentava na perfeição, ao ficar num hotel de cinco estrelas, ao andar na limusine, ao vestir-se com o melhor fato, a condizer a cor da gravata com a cor do lenço, a usar o melhor perfume e a usar esse disfarce perfeito de um artista em Portugal, a viajar no estrangeiro.

Jardim vê em Tudela material para fazer dele um agente secreto da rede que ele já tinha montado. As viagens constantes, a pretexto da música, podem fazer do cantor um emissário e um portador eficaz de mensagens confidenciais, garantindo que chegam em segurança ao destino. E isso, claro, seria apenas uma pequena amostra das atividades que ele poderia vir a desempenhar. A oferta é aliciante. Tudela sente-se imediatamente atraído. Vai poder ganhar bem e viajar ainda mais do que já faz. E aceita a proposta. Mas Jardim avisa-o logo de duas ou três coisas a ter em conta. Por exemplo, é importante não beber demasiado. Os agentes secretos têm que ter cuidado com o álcool e os bares, sítios onde os segredos se podem descobrir facilmente. Em conversas casuais com outras pessoas, Tudela refere-se sempre a Jardim como o senhor engenheiro. Mas nas operações secretas, funciona tudo através de nomes de código. Para Tudela e outros elementos da rede, Jorge Jardim tanto pode ser o Pacheco, como noutras ocasiões, o Imperador. O cantor, consoante os contextos, também pode ter vários nomes diferentes.

O meu pai, por exemplo, tinha quatro ou cinco nomes de código diferentes para cada país onde ia. Quando estivesse em Londres, tinha um nome de código, para os americanos era o Sinatra, por exemplo, para os franceses outros, para os árabes outros, eventualmente para lá daquilo que foi na altura o Muro de Berlim, havia um outro nome de código e portanto havia esse tipo de comunicação.

Tudela, que até então não tinha qualquer tipo de treino como espião profissional, vai tornar-se num ajudante fundamental para todo o tipo de missões. Desde servir de correio secreto entre embaixadas, a fazer transporte de dinheiro ou mesmo a dar apoio a um líder da oposição de um país africano que pretendia fazer um golpe de Estado, a partir de 1970, passa a ser uma espécie de braço direito de Jorge Jardim. Mas a rede de contactos do cantor no mundo artístico, nos jornais, nas rádios e na televisão, também servia um outro propósito importante. Uma campanha internacional de promoção de Moçambique, onde os concursos de beleza iriam ter um papel fundamental. As raparigas vão entrando, uma a uma. Jorge Jardim olha para elas de alto a baixo. Avalia tudo, o cabelo, o tom dos olhos, a figura, e escolhe as cores dos vestidos que elas devem usar.

Ele realmente gostava muito de escolher. Tínhamos lá um salão onde eram feitos os nossos vestidos, eram escolhidos, tinha um ateliê, e que ele disse arredondamente que para a Íris este vestido, que era um lilás, era para a Íris.

Tudo aquilo aconteceu de forma meio inesperada na vida de Íris. Nunca tinha pensado entrar num concurso de beleza. As amigas é que a obrigaram a ir ao evento onde se ia fazer a seleção das futuras candidatas a Miss Moçambique. No fim, Íris acaba mesmo por ser escolhida para participar. Tem apenas 18 anos e uma beleza fora do comum. Uns olhos verdes arrebatadores que se destacam na pele morena. O concurso é organizado pelo jornal Notícias da Beira, propriedade de Jorge Jardim. E o senhor engenheiro envolve-se em quase tudo, até ao mais ínfimo pormenor. Mas as costureiras não concordam com a cor do vestido que ele escolheu para Íris. Acham que não lhe realça os olhos. Um verde vai assentar-lhe melhor. E decidem trocar, achando que o engenheiro não vai dar conta.

E depois era a prova, porque estava tudo combinado, a hora das provas dos vestidos. Nós sabíamos que tínhamos que estar naquela hora, que o engenheiro ia lá para nos ver, nós vestimos e ele dava o seu parecer. Fica bem, fica mal, mais decotado, menos decotado. Quando chega a minha vez, eu vou toda muito descontraída com o meu vestido para ele ver qual era a opinião dele. De repente, ele fica muito sério e diz assim: "Este não é a cor do vestido que eu escolhi para a Íris". "Senhor engenheiro, pois não é, o senhor engenheiro tinha escolhido este, mas achamos assim uma cor mais pálida para ela, que ela tem estes olhos, para sobressair os olhos." "Não, não. É daquele lilás que eu escolhi, é aquele que vai ser."

O concurso da Miss Portugal tinha sido recuperado em 1970 pelo jornal Diário Popular e era organizado por Vera Lagoa. Quando, no ano seguinte, é aberto às candidatas das colônias, Jardim vê logo ali uma oportunidade. Iris é eleita Miss Moçambique em janeiro de 1972 e um mês depois já está a viajar para Lisboa. Recorda como as Miss das colônias faziam sensação na metrópole, logo à chegada ao aeroporto.

Nós vínhamos muito morenas da praia. Aqui todas eram inverno, branquinhas e dava mais nas vistas, e depois era a maneira de se vestir. As pessoas aqui não estavam habituadas, então chamava muito a atenção. Aqui, eram saias compridas. Nós éramos mais descascadas, mostrávamos mais o nosso corpo, eram trajes típicos que não era normal ver cá e para aqui fez um grande sucesso.

Tudo isso por si só já dava destaque às Misses de Moçambique, mas era preciso garantir que ganhavam mesmo. E é aí que entra em ação o agente Tudela. O cantor monta uma verdadeira campanha de influência junto do júri. Convida o filho de uma das juradas, um rapaz educado e respeitador, para acompanhante permanente das candidatas de Moçambique. Leva outro jurado a jantar duas vezes e oferece-lhe um isqueiro caro. E ainda dá a outro uma gravata Dior e um disco com canções dele. Só há uma pessoa difícil de manipular, admite Tudela, na correspondência com Jardim. Vera Lagoa, a temível cronista do Diário Popular, que é também a responsável máxima pela organização do concurso. Tudela nota que Jardim não é o único a mover influências. O general Spínola, por exemplo, tenta também promover as candidatas da Guiné, onde é governador-geral. Já não é segredo nos bastidores. O concurso das mais belas de Portugal está politizado.

A sair a Miss de 1972.

A campanha montada por Tudela ajuda, embora todos reconheçam, de facto, que Iris tem uma beleza fora do comum e fortes probabilidades, à partida, de ganhar.

É a concorrente de Moçambique, a número 11.

É eleita Miss Portugal. A televisão mostra-a já com a coroa na cabeça e a faixa de vencedora ao peito, quando João Maria Tudela aparece em palco para cantar um dos grandes sucessos dele.

Moçambique, que palavra tão bonita.

Tudela está ao meio, tem Iris à direita e à esquerda uma outra mulher que entoa com ele os versos da canção "Moçambique". Ana Paula Almeida, também ela moçambicana, acaba de passar o título de Miss Portugal a Iris.

Pois Moçambique esta noite teve a graça de um sorriso de mulheres.

É o triunfo total de Jardim e da estratégia de promoção de Moçambique. O objetivo é começar a espalhar em todo lado a imagem do novo país que Jorge Jardim pretende criar. Em Portugal, mas também no estrangeiro. Meses antes, Ana Paula já tinha estado no centro de uma espetacular operação de charme, idealizada mais uma vez por Jardim e executada por Tudela, e que a levou ao topo do mundo. Tudo começou com um imprevisto. Um ano antes, o concurso de Miss Portugal até tinha sido ganho por uma angolana, mas Riquita acabou por abdicar, queixando-se do desgaste que a experiência lhe provocou. E a primeira dama de honor, que vinha de Moçambique, ficou com a coroa. Ana Paula Almeida tinha agora a oportunidade inesperada de representar Portugal no concurso Miss Mundo, que iria acontecer em Londres. Era uma montra internacional de promoção de Moçambique que Jardim não podia desperdiçar. Por isso, encarrega Tudela de uma nova missão: fazer tudo para pôr Ana Paula no top cinco. Tudela viaja para o Reino Unido e começa por consultar uma agência de relações públicas que já trabalhava com o turismo português. Dizem-lhe que as coisas não vão ser assim tão fáceis. Há 76 candidatas. Para garantir que o júri repare na moçambicana, é preciso orquestrar uma campanha. E isso custa dinheiro. Pede então 500 contos a Jardim para montar a operação. As notas chegam a Londres através de uma mala diplomática do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Primeiro, há que garantir que Ana Paula é uma verdadeira Miss Simpatia. O cantor oferece filigranas a todas as adversárias e assina 75 cartões com o nome de Ana Paula, que cai logo nas boas graças de todas as outras. Depois, é preciso que a imprensa repare bem nela. Manda-a distribuir brinquedos numa ação de caridade a favor das crianças pobres Os jornais ficam fascinados com o enorme coração da miss. Mas o auge da estratégia acontece num jantar presidido por Lord Louis Mountbatten, tio do Príncipe Philip, o marido da Rainha Isabel II. Ana Paula aparece vestida só com miçangas de Moçambique por cima do peito e uma saia muito curta. Depois de a chamarem para ser apresentada, Lord Mountbatten não se contém.

"Miss Portugal, can we have another look, please?"

No dia seguinte, o episódio estava nas páginas dos principais tabloides. No final, o júri acaba por dar a Ana Paula Almeida um impressionante terceiro lugar no concurso de Miss Mundo. Jardim fica em êxtase. Quando chega a Lisboa, Tudela diz-lhe que depois daquilo tudo, ainda lhe sobram 200 contos. Jorge Jardim não lhe pede o dinheiro de volta. Aos poucos, Jorge Jardim foi deixando pistas do plano. Quando Ana Paula Almeida se destaca no concurso de misses, Jardim declara à revista Tempo: "Os metropolitanos têm ideias menos corretas acerca do Ultramar. Alcançámos, na verdade, uma fase de nova evolução, de cuja importância a metrópole não se apercebeu ainda." Para os mais atentos, não está apenas a falar de misses, está a falar de política. As misses deviam aproveitar o mediatismo para, em todas as oportunidades, promoverem Moçambique. Carmo Jardim recorda como elas eram preparadas ao detalhe, antes e depois dos concursos.

Sim, fazia parte da estratégia. Fazia parte da estratégia que ele tinha para promover Moçambique. E realmente foi trazer as mulheres mais bonitas, que eram lindas de morrer, as mulheres moçambicanas. Eu achava imensa graça, porque realmente, para além de serem muito bonitas, tiveram uma boa formação e preparação para falar de Moçambique. O detalhe era muito importante para fazer a diferença e elas realmente marcavam pela diferença. Elas estavam semanas numa casa com pessoas, com formação, para desde a fala, a dicção, até à forma de vestir, à forma de estar à mesa. Tudo aquilo eram pormenores importantíssimos.

Em paralelo, Jardim lança uma campanha de promoção turística. Moçambique é vendido como um destino atraente, com sol e praias e uma convivência multirracial pacífica. Para além das atividades secretas, João Maria Tudela dá também cara e voz à campanha de promoção, recorda Pedro Pesarà Correia, que colaborou com o Jardim.

Era o cantor de Moçambique, a voz romântica, era o Marco Paulo de Moçambique. E era um homem com charme, etc. Era assim um public legend.

Íris, a Miss Moçambique e Portugal 1972, recorda como Jardim chegou até a mudar-lhe a biografia, só para promover uma das ilhas moçambicanas, onde, na verdade, ela nunca tinha estado.

Não tinha importância nenhuma, mas tenho uns documentários que diz que eu sou nascida no Ivo. Isto foi aprendido do Jorge Jardim, que era para dar conhecimento à Ilha do Ivo, que era uma ilha muito bonita.

Carmo Jardim também chega a envolver-se num ambicioso plano de promoção através dos concursos de beleza. Participa numa digressão das misses moçambicanas da Angola. Elas deveriam deslumbrar. Carmo deveria surpreender.

Eu, antes de elas chegarem, ou no momento em que elas estavam a chegar, saltava eu de paraquedas. E então era curioso, porque no cartaz vinha as misses e depois eu como paraquedista.

Há uma ideia que começa a ganhar cada vez mais força na cabeça de Jardim. No início dos anos 70, a esmagadora maioria dos países africanos já conseguiu independência.

The afternoon of Nigeria's great day, with thousands awaiting the climax and resolve to relish every minute leading up to it. The world has gained a new nation. The Sudan, for 58 years under the joint rule of Britain and Egypt, becomes an independent republic. In the new Africa, one more independent country, the state of Uganda.

O Império Português é o único que resta intacto. Jardim percebe os sinais dos tempos. Deixa de ser um defensor da manutenção das colónias e começa a planear a independência de Moçambique. Há dois grandes motivos para essa transformação. Um é a morte de Salazar.

Comunicado. O presidente António de Oliveira Salazar faleceu às 09h15min de hoje, dia 27 de julho de 1970

Muitos, como Pesar a Correia, acreditam que Jardim era mais salazarista do que propriamente fiel ao Estado Novo.

O Jardim, mais do que um situacionista, era um salazarista. Ele tinha um fascínio pela pessoa de Salazar. Ele era um fiel de Salazar, não era um fiel do regime. Quando Salazar cai, a fidelidade de Jardim alterou-se.

O outro motivo é a relação pessoal que estabeleceu com o presidente do Malawi. As conversas com Hastings Kamuzu Banda fizeram com que Jardim mudasse a visão que tinha sobre África. Era tudo um disfarce. O motivo oficial das viagens até era verdadeiro, mas escondia algo muito maior. A Zâmbia, país vizinho de Moçambique, precisava da ajuda do território português para receber mercadorias, depois de a Rodésia do Sul lhe ter fechado a fronteira. É com esse pretexto que Jorge Jardim é chamado a Lusaka, capital da Zâmbia, um país que era hostil a Portugal e que até apoiava os guerrilheiros da FRELIMO. Jardim encontra-se com o presidente Kenneth Kaunda e a conversa, que começa no caso do transporte das mercadorias, vai parar ao futuro de Moçambique. O português acaba por confessar que só vê uma solução para o problema e que essa solução é política: a independência do território. Era tudo um teste para saber o que Jardim pensava. No dia seguinte, os zambianos revelam-lhe que já tinham tentado estabelecer contactos diplomáticos com Portugal, mas sem sucesso. Por isso, decidiram recorrer a Jorge Jardim, alguém que, não estando oficialmente dentro do governo, tinha poder em Moçambique e bons contactos com Lisboa. Nessa mesma noite, o presidente da Zâmbia entrega a Jardim um documento. É a primeira versão de um texto que vai ficar conhecido como Programa de Lusaka, um roteiro para a independência de Moçambique. A Zâmbia apresenta um trunfo. Para além de incluir o apoio de outros países vizinhos, como a Tanzânia e o Malawi, garante a Jardim que a FRELIMO está disponível para aceitar o plano e que é possível uma independência em que todos convivam pacificamente, explica o escritor moçambicano Adelino Timóteo, autor de um livro sobre Jorge Jardim.

E um governo entregue à maioria, entregar o poder governamental à maioria negra e a maioria branca deter um pouco desse poder, mas mantendo o seu património, os seus bens, mantendo uma política liberal.

Jorge Jardim faz várias viagens a Lusaka para negociar o roteiro, até ao dia em que decide levar a filha Carmo pela primeira vez numa missão. Aquele dia em que teve de a deixar sozinha no aeroporto, sem saber o que fazer. Em todas as viagens, Jardim dirigia-se à sala VIP, onde tinha à espera dois enviados do presidente que o vinham buscar. Mas nesse dia o avião chega antes do tempo. Percebe que ninguém aguarda por eles. Pensa que pode estar a ser alvo de alguma cilada. Não confia em ninguém. Acabaria por ser apenas um susto. Os homens iriam chegar para o levar ao palácio presidencial, como de costume. Nessa noite, vai finalmente revelar o grande segredo à filha. Um segredo que escondeu de quase todos, até do governo português. Um plano que vai assumir a partir de agora como a grande missão da vida dele: a independência de Moçambique. Abril de 1974, cerca de meio ano depois da viagem com Carmo a Lusaka. Jardim está em Lisboa. Nessa noite, janta com o ministro dos Negócios Estrangeiros e com o embaixador. Muda frequentemente o sítio onde fica, por razões de segurança. Como sempre, anda com um carro com matrícula diplomática da embaixada do Malawi. São duas da manhã quando chega ao Hotel Sheraton. Estaciona-o na garagem do hotel, que tem acesso direto aos quartos. Ninguém o vê chegar. Perto das 5 h é acordado pelo telefone. Jardim atende, ainda meio a dormir, mas reconhece imediatamente a voz que surge do outro lado. É João Maria Tudela. Tudela diz-lhe que algo está a acontecer. Algo que vai mudar tudo Dentro de três semanas, o poderoso Engenheiro Jardim vai ser um fugitivo, procurado pelas autoridades e com um mandado de captura em nome dele. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.

O meu pai não acreditou. Por que um mandado de captura?

Ele sabia que um passo em falso seria algo demolidor e podia acabar consigo.

As chefias militares achavam que ele tinha poder a mais, que era um poder dentro do poder.

Ele admitiu então fazer um golpe de Estado.

"O Misterioso Engenheiro Jardim" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, e tem banda sonora original dos HMB. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Se gostar desta série, pode seguir, dar cinco estrelas e comentar o episódio na Apple Podcasts ou no Spotify. Pode subscrever e gostar no YouTube. Assim, recebe uma notificação sempre que houver um novo episódio. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

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