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Está aos comandos do avião a rever o plano mentalmente. Se as coisas derem resultado, será apenas a primeira peça para pôr em marcha algo muito maior. Jorge Jardim aterra sem qualquer problema. Não é a primeira vez que viaja para aquele país. Conhecem-no por ser um importante homem de negócios em Moçambique. Mantém contatos regulares com as autoridades locais. Tanto que tem pessoas com um carro à espera no aeroporto. Percorre agora as ruas da cidade com um destino: o Palácio Presidencial. Assim que chega, confirma aquilo que já tinha pensado. É tudo demasiado fácil. Avança pelos corredores do palácio, que lhe são familiares. Já ali tinha estado outras vezes. Sobe as escadarias, dirige-se ao gabinete do presidente e bate à porta. Quando a voz responde do outro lado, abre e entra. O plano está a correr exatamente como Jardim tinha previsto. Está agora frente a frente com o homem. E diz-lhe: "Ninguém o vem salvar". Não se tratava apenas de um agente secreto. É certo que Jorge Jardim gostava dessa aura, mas era muito mais do que um aventureiro, sempre pronto para seguir para qualquer parte do mundo para resolver uma crise. Consegue entrar tão facilmente e em plena luz do dia, no palácio do líder de um país africano, porque é também um dos homens mais influentes de Moçambique e mesmo de África. Está envolvido em tudo, dos negócios à política, dos aviões à imprensa. E é o pai de um clã de 13 filhos, na maioria raparigas, que também não passam despercebidas em Moçambique. Um clã de aventureiras que crescem a idolatrar o pai e que o vão querer seguir em muitas coisas. Desde logo, num gosto especial pelo risco e por superar os limites. Mesmo dentro da família, o pai continua a ser uma figura misteriosa, mas isso está prestes a mudar. Uma das filhas vai ser a primeira a conhecer o maior segredo de Jorge Jardim. Este é o Misterioso Engenheiro Jardim, uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, com banda sonora original dos HMB. Episódio três: a filha mais corajosa do mundo.
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Jorge Jardim tem à frente o líder de um país, depois de ter entrado no palácio sem qualquer problema. Estão sozinhos. Não há ninguém por perto. Diz-lhe que se quisesse, podia dar-lhe um tiro naquele momento. E faz-lhe uma pergunta.
Sente-se seguro aqui dentro. Eu, se quisesse, tinha chegado aqui, matava-o e ia-me embora, ninguém dava por ele. Quer dizer, ele montou aquela cena para convencer o Banda de que era preciso constituir a sua guarda pessoal. Bem, ele encenou tudo isto. E então ele disse: "Então eu vou-me preparar e vou arranjar-lhe aqui a sua guarda pretoriana".
Pedro Pezarra Correia é nesta altura comandante distrital da PSP na Beira, em Moçambique, e em breve vai colaborar com Jorge Jardim numa missão secreta. Recorda a história que Jardim lhe contou de como montou uma cena com o objetivo de convencer Hastings Kamuzu Banda, o líder do Malawi, país vizinho de Moçambique, de que estava altamente vulnerável a um ataque e era preciso criar uma força militarizada para o proteger. Jardim estava a cumprir a missão que lhe tinha sido dada por Salazar. O ditador entendia que era necessário angariar aliados em África e via no líder do Malawi um interlocutor viável Jardim era o homem certo para ajudar a resolver a situação. Até porque ele não era apenas um agente secreto ao serviço do governo. Era também o homem mais poderoso do território. A lista de cargos é quase interminável. O engenheiro Jardim vai para Moçambique em 1952 para administrar uma fábrica de fibrocimentos, mas a partir daí nunca mais para. Para além de administrador de empresas, Jardim é também o presidente e o grande dinamizador do Aeroclube da Beira. É presidente da Associação Comercial e do Clube Náutico e duas vezes deputado por Moçambique, à Assembleia Nacional Portuguesa. É dono e diretor do influente jornal Notícias da Beira e de outras publicações. E depois de vários anos a tentar, consegue mesmo comprar o Diário de Moçambique, um jornal que até então estava nas mãos da Igreja Católica e que era uma voz incômoda pro regime. O escritor moçambicano Adelino Timóteo cresceu ao ouvir histórias sobre o homem que era tudo ao mesmo tempo e estava sempre em todo lado, e ficou fascinado com a figura de Jorge Jardim.
Era um indivíduo bastante complexo e este mito, na verdade, este perfume é que me fez tentar seguir e compreender esta figura, porque na Beira era a pessoa de quem mais se falava.
Isso levou a uma investigação que durou cinco anos e que culminou, em 2024, na publicação do livro "Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar". Adelino Timóteo descreve um homem que escapava a todos os rótulos e convenções e que tinha uma influência quase desmedida.
O Jorge Jardim poderia ser o Berlusconi de hoje. Só para dar uma imagem da dimensão, da visão que ele tinha, sobre negócio e sobre fazer política.
À exceção de ter sido deputado à Assembleia Nacional por Moçambique, Jardim não tinha qualquer cargo político de gestão do território. Mas Pedro Pezará Correia recorda que nada acontecia sem o conhecimento dele. Ele era, em muitos sentidos, o verdadeiro governador de Moçambique.
Naquela altura, não havia nenhuma alta entidade que fosse nomeada para Moçambique, fosse governador, e que era também comandante-chefe, fosse governador de distrito, etc, em que o Jardim não fosse ouvido pelo Salazar.
Para Jardim, nada parecia impossível, muito menos armar o país vizinho.
Eu estou a vos contar esta história. Vou procurar não romanciá-la, se bem que seja um bocado romanceada. De resto, a vida de Jorge Jardim era toda um romance.
Em 1964, Pedro Pezará Correia tem 32 anos e é comandante distrital da PSP da Beira, quando lhe chega uma carta inesperada.
"Caros amigos, você vai ser contactado pelo engenheiro Jorge Jardim." Portanto, aquela carta era um bocado misteriosa para mim. Eu sabia que o Jardim era o homem das Arábias.
Pezará Correia já tinha ouvido falar muito de Jardim e das missões na Índia e em Angola. Até já se tinha cruzado com ele em alguns eventos, mas não tinham qualquer relação. Dias depois, o telefone toca. É convocado para uma reunião. Jorge Jardim apresenta-lhe um plano e uma proposta. Os Young Pioneers, Jovens Pioneiros, eram uma organização de juventude do Malawi mais vocacionada para a agricultura. Estariam, de certa forma, mais próximos, por exemplo, do que são os escoteiros. O plano é pegar nesse grupo e militarizá-lo. Mas para o conseguir, são necessárias várias condições. Primeiro, é preciso alguém para os treinar. Para tratar disso, Jardim até vai buscar um homem à prisão. Orlando Cristina é uma lenda por aquelas paragens, uma espécie de Crocodilo Dundee, mas em África. Ganhou fama como caçador, fala vários dialetos locais e casou-se até com filhas de líderes tribais, deixando filhos em várias aldeias. Conhece a região do norte de Moçambique como ninguém. Formou brigadas de caçadores que andavam pelo mato e passavam informações úteis ao exército português. Depois, conseguiu mesmo infiltrar-se no núcleo central da FRELIMO, na Tanzânia, de onde enviou informações valiosas durante dois anos. Com medo de ser descoberto, acabou por fugir sem autorização dos superiores. Seria preso no regresso a Moçambique, por deserção. Quando Jardim andou a perguntar por um homem para treinar a nova força do Malawi, falaram-lhe em Cristina e Jardim moveu as influências certas para que fosse libertado. Segunda condição: é necessário um local para treinar a nova força Encontra-se uma antiga fazenda de tabaco batizada de Mountain View. Fica a poucos quilómetros da capital, mas tem recato suficiente para fazer o recrutamento e o treino dos homens com discrição. Terceiro, é preciso armamento. Disso encarrega-se Jorge. Através da rede de contactos dele, as armas vão parar aos armazéns da empresa que administrava, a Lusalite. Quarto e último ponto: é preciso alguém que conduza um camião carregado de armas, de Moçambique pro Malawi. E é aqui que vai entrar o capitão Pezarra Correia.
Eu ia buscá-lo ao Dondo, à fábrica do Jardim, depois ia depositá-lo em Mountain View, na base onde estava o Cristina. E depois estive lá algumas temporadas, cheguei a estar lá uma semana a ver a instrução e a fiscalizar a instrução, e eu próprio a dar alguma instrução.
São missões perigosas e secretas. Na altura, nem a família sabia o que o capitão andava a fazer.
Se eu naquela altura tivesse sido abatido ou preso nas minhas idas ao Malawi, se calhar, o que o governo fazia era ignorar que eu estava envolvido naquilo. Era preciso era não levantar problemas. Tinha que ser escondido. Não sei depois como é que a minha viúva ficaria, porque eu nem sequer podia ser considerado como morto em combate. Ignorado, mas isso foram coisas que eu não me dei ao trabalho.
Na verdade, esta não era uma oferta de ajuda a um país estrangeiro totalmente desinteressada. O objetivo de reforçar as forças do Malawi era também o de combater a FRELIMO, o movimento independentista que já começava a lançar ataques de guerrilha contra o norte de Moçambique. A relação entre Jardim e o líder africano Hastings Kamuzu Banda vai estreitar-se. Tanto que no mesmo dia de julho de 1964, em que o país se torna oficialmente independente, o português é nomeado cônsul honorário do Malawi na Beira. Para além de as operações serem altamente secretas, a compra de armamento fazia com que também fossem caras. Mas para Jorge Jardim, o dinheiro nunca era um problema. Fosse para as armas ou para as contas que Pezarra Correia lhe apresentava depois de cada viagem.
Estava a dizer: "Quanto é que eu gastei?" "Gastei tanto." E ele passava ali o cheque imediatamente. E aquilo eram verbas confidenciais.
O dinheiro não era de Jardim. Durante anos, todas as operações foram financiadas pelo Estado português. Os fundos vinham do orçamento das Forças Militares Extraordinárias do Ultramar, destinado às atividades das Forças Especiais ou de operações encobertas em África. O dinheiro era depositado diretamente nas contas pessoais de Jardim.
Ele faz isto de forma individual, por iniciativa própria, mas o poder tem conhecimento. Quer dizer, ele não faz nada que não tenha a cobertura do poder. E as verbas com que ele atuava eram verbas do Ministério da Defesa.
O dinheiro servia também para financiar uma rede de informadores que se espalhava por toda a África Austral. Era conhecida como uma mini CIA. Tinha como sede um pequeno escritório em Lourenço Marques, em frente aos serviços oficiais, conhecidos como Serviços Especiais de Informação e Intervenção. Anos mais tarde, Jardim iria admitir que também esses serviços atuavam, na verdade, na dependência dele. Embora oficialmente fossem conduzidos por um major. Uma das ações de sucesso da mini CIA foi pouco convencional. Jorge Jardim queria obter informações sobre o presidente do Gana, Kwame Nkrumah, e conseguiu durante dois anos saber detalhes do que se passava no país. O informador a quem pagavam não era um ministro ou um elemento das Forças Armadas. Era a amante do presidente. Dezoito de janeiro de 1969. Toda a alta sociedade de Moçambique está reunida no Grande Hotel da Beira. Chegou a ser considerado o maior e mais luxuoso de África. Por esta altura, o edifício já tinha deixado de funcionar como hotel. Mantinha apenas a gigantesca piscina aberta ao público. Reabriu apenas por um dia e para uma festa como a cidade nunca tinha visto. O casamento da filha mais velha de Jardim, Patuxa, com o tenente da Marinha, Orlando Temes de Oliveira. A lista de mais de 700 convidados mostra a enorme influência de Jorge Jardim.
Meu pai aproveitou realmente o casamento para dar uma festa que nunca tinha dado, retribuir, digamos, uma festa a todas aquelas pessoas que tinham uma certa obrigação, mais os membros Dos países limítrofes, que era o Malawi, a Rodésia e a África do Sul. E o governo de Moçambique, é evidente.
O novo governador geral de Moçambique, nomeado há apenas uns meses, também está presente. É, além do mais, amigo de juventude de Jorge Jardim. Baltazar Rebelo de Sousa, pai de Marcelo Rebelo de Sousa. Pedro, o mais novo dos três filhos do governador, recorda que desde muito cedo Jardim foi visita frequente de casa. Era o amigo aventureiro do pai, que os irmãos aprenderam a admirar.
Amigos, companheiros. Realmente eu lembro-me que era uma figura que nos fascinava, porque aparecia sempre, sobretudo quando foi viver para Moçambique, aparecia sempre como um homem que vinha com horizontes, que é uma coisa que na Europa, até os nossos dias, sinceramente, nem sempre temos. Tinha horizontes, tinha muita vivências, e portanto, isso fascinava-nos. E as histórias, as múltiplas experiências que tinha tido, a própria personalidade que ele tinha de ser um aventureiro, ser um homem, um aviador, um paraquedista. Portanto, vivia no imaginar da nossa adolescence.
Pedro Rebelo de Sousa recorda ainda a convivência com as filhas de Jorge Jardim, que naquela altura davam nas vistas por serem jovens, bonitas e divertidas. Mas principalmente por seguirem o exemplo do pai na atitude irreverente, que quebrava todas as convenções da época, especialmente duas. Convenção número um: uma mulher não consegue pilotar um avião.
Voei tanto, graças a Deus, nesse aspecto, porque quando era preciso o avião sair, quem é que ia? Eu! Não sabia para onde.
Patucha, a filha mais velha, tirou o brevê de piloto logo aos 17 anos. Mas numa época em que a maioridade só se atingia aos 21, passava por uma situação curiosa. Podia fazer o que quisesse no ar, mas em terra não tinha autorização para conduzir um carro.
Tirei brevê de avião, private pilot license, mas não tinha carta de condução. Até aos 20 anos passava a vergonha de andar num Mini com um chauffeur, ir para a universidade e voltar, cheia de vergonha. Não podia conduzir, porque o meu pai tinha que me dar uma autorização para eu ser independente. Aos 18 anos não é que era para tirar a carta. Aos 20, já pagou um seguro especial e deixou-me tirar. Porque senão só aos 21 é que eu era maior e podia tirar a carta. Era muito estranho como é que uma pessoa andava lá em cima tranquila e feliz da vida e depois cá embaixo, não.
Convenção número dois: uma mulher não consegue saltar de paraquedas.
Eu recordo-me, eu era pequena, não sei, nove, 10 anos, e de repente via aqueles homens a saltarem lá do ar, paraquedas a abrir-se, passa um avião, salta o paraquedista, e aquilo eu achava aquilo um outro mundo. E pensava: "Não, nós temos que ser paraquedistas, eu quero ser paraquedista, porque eu acho isto fascinante."
Carmo Jardim, a quinta filha, recorda que tudo começou no dia em que uma enfermeira paraquedista, que até tinha estado com o pai em missão na Índia, visitou a casa da família.
E foi fardada lá a casa almoçar. E nós ficamos fascinadas. Ela era uma enfermeira paraquedista e tudo à volta dela a perguntar imensas coisas sobre o paraquedismo, como é que era saltar, a sensação, a liberdade, como era tudo isso. E ela explicava-nos com grande entusiasmo e no fim de ela se ir embora, nós dissemos: "Pai, tem que criar uma escola de paraquedismo civil na Beira. Nós todas vamos ser paraquedistas."
Jardim concordou. E incentivado pelas filhas, deu o exemplo. Foi o primeiro a saltar. Tornou-se o primeiro paraquedista civil de Moçambique. A filha mais velha foi a segunda. A partir daí começou uma tradição. Cada vez que um filho ou uma filha de Jardim fazia 17 anos, tinha de saltar de paraquedas. Mas Carmo Jardim foi diferente. Primeiro, porque da primeira vez que se atirou de um avião, nem sequer tinha a idade mínima para poder saltar. Tinha 16 anos. Estava a poucos dias de completar os 17. Depois, porque quis ir mais longe do que todas as outras irmãs. Não lhe bastava fazer os saltos automáticos em que o paraquedas abre assim que sai do avião. Carmo queria saltar de uma altitude maior e arriscar ainda mais. Queria sentir a adrenalina da queda livre.
A queda livre já é outra conversa. A queda livre, então, já tem outro treino Muito específico, de preparação psicológica, inclusive, de abertura do paraquedas. É a própria pessoa que abre o paraquedas. No fundo, eu diria que a vida está nas suas mãos, completamente.
O pai não gostou da ideia. Achou arriscado. Até pensou que a filha ia acabar por desistir. Só que quando regressou de mais uma viagem prolongada à Europa, percebeu que ela já estava a saltar em queda livre. E Carmo não ficou por aí. Quis ir pra França fazer um curso de instrução. No regresso a Moçambique, apercebeu-se de que estava a ser falada a criação de Forças Especiais Africanas de Paraquedistas. E foi assim que uma miúda, que ainda nem tinha 20 anos, começou a ensinar os primeiros militares dos GEP, Grupos Especiais Paraquedistas, a saltar de um avião.
Fui a primeira instrutora de queda livre dos GEPs ou de paraquedistas militares, não sendo militar, nunca fui militar, nunca ganhei sequer um centavo por isso, era completamente voluntária. E lá fui eu pro quartel, com o apoio sempre do meu pai. Claro que foi realmente muito reconhecido internacionalmente, desde revistas como Newsweek, como tantas outras revistas, BBC. Foi lá tudo filmar, porque ninguém acreditava.
Em 1972, com apenas 19 anos, Carmo Jardim é considerada a mulher mais audaciosa do mundo. É distinguida com o prêmio Audace, que naquela altura era atribuído pela Chanel à mulher que mais se destacava pela coragem na área do desporto. Mas o que Carmo queria realmente não era a atenção midiática, era exatamente o oposto. À medida que foram crescendo, as filhas foram percebendo que não tinham um pai normal. Jardim até lhes começa a contar que saía em missões, mas o que andava a fazer era quase sempre um mistério. Carmo queria saber mais sobre o mundo secreto em que o pai vivia e que nunca revelava aos filhos.
Nas conversas que tinha com meu pai, eu tinha um sonho, que era ir numa destas missões secretas que ele falava, mas que não dizia o que era. E eu gostava imenso de ir. Eu gostava de perceber até onde é que ele está a ir, o que é que ele está a fazer, que eu não estou a perceber, nem ninguém sabia, porque isto era um segredo total.
Jardim recusa sempre. Diz que as coisas não são assim tão fáceis. A filha simplesmente não está preparada. Mas depois de ser muito pressionado, acaba por aceitar. Só que impõe uma condição: Carmo tem de aprender a combater.
E eu disse: "Então, o que eu tenho que fazer?" Ele disse: "O curso de combate". Eu disse: "Então eu vou fazer o curso de combate. Se é isso que falta, eu vou fazer o curso de combate". E fui lá ao GEP, lá ao comandante, e o comandante lá me deu um curso de combate. E eu fui dizer ao meu pai: "Olhe, já tenho o curso de combate". E com o papel assinado pelo comandante, a dizer que eu estava apta pra qualquer missão que o meu pai entendesse que eu fizesse. E aí o meu pai já não pode dizer que não.
Nenhum dos dois leva passaporte. "Não te preocupes, não vai ser preciso", garante-lhe o pai. Carmo nem sequer conhece o destino. Só fica a saber a poucos minutos de aterrar. Fica perplexa. Portugal nem sequer tem relações diplomáticas com aquele país. Mas o pai, mais uma vez, tranquiliza-a. Ao contrário do que costuma acontecer, desta vez, Jorge Jardim não tinha ninguém à espera no aeroporto depois de aterrar. As viagens eram altamente secretas, por isso nunca levava passaporte. Não havia qualquer registro de entrada no país e nem sequer passava pela saída normal de passageiros. Dirigia-se à sala VIP e ali tinha um carro a aguardar pra levá-lo ao destino. Mas hoje não estava ninguém. Logo no dia em que, pela primeira vez, tinha decidido levar a filha Carmo numa missão. Tudo aquilo cheirava a cilada.
Ele também achou que poderia ser uma cilada. Já tinha ido tantas vezes, nunca tinha acontecido. De repente, até leva a filha. E acontece.
Não há tempo a perder. Jardim tem que perceber exatamente o que se está a passar. A filha só não estava à espera do que vai acontecer a seguir.
Porque o meu pai deixou-me ali sozinha. Estava um polícia à frente. E o meu pai fez um sorriso, eu fiz outro sorriso. E depois o meu pai entregou uma briefcase, uma mala pequena com tudo que lá estava dentro, e disse: "Filha, tudo o que tu precisas está aqui dentro. Eu agora vou ali".
Carmo fica sem saber o que fazer. Tem 20 anos, está prestes a ver-se sozinha num país que pode ser hostil. Antes de se despedir, o pai diz-lhe ainda uma última coisa.
"Se dentro de uns 15, 20 minutos eu não regressar, encontramo-nos em Moçambique". E eu olhei para ele e disse: "Não fizeste curso de combate?" Ele disse: "Fiz". "Então, encontramo-nos em Moçambique". Mas ainda meio rimas branco. E foi a única vez que eu vi meu pai assim, devo confessar. E eu disse: "Fiz". E ele disse: "Encontramo-nos em Moçambique".
Carmo está sozinha. Tem uma pasta na mão que o pai lhe entregou minutos antes e nem sequer sabe o que está lá dentro. À frente dela está um polícia. A atitude do homem não é hostil, mas a situação é desconfortável. Não percebe nada do que se está a passar.
Eu contava os minutos, porque o polícia olhava para mim, eu olhava para o polícia. Eu ali com uma briefcase e com o meu saquinho, com alguma roupa. E eu pensava: "O que o polícia vai achar disto tudo?"
A situação ainda dura alguns minutos. Até que, de repente, Carmo Jardim, Maria do Carmo Jardim, ouve os motores de carros que chegam a grande velocidade. E logo a seguir, avista um grupo de homens que correm na direção dela.
"Are you Maria? Where is your father?" E não sei quanto. Portanto, "és tu a Maria?" E eu nem sabia se devia de responder, se era Maria, se não era Maria. E pronto, eles saltam do carro logo, em segundos. E não sei o quê: "Are you Maria?" E depois: "Sim, sim, sim, sou Maria". Depois achei que era melhor dizer que era a Maria e não sei quantos. E ele: "Where is your father?" Eu lá expliquei onde é que meu pai tinha ido. Arrancaram outra vez, deixaram-me sozinha outra vez ali com a polícia e foram.
Os homens desaparecem novamente. Passados alguns minutos que lhe parecem intermináveis, regressam finalmente com uma cara familiar.
Vinham com meu pai. Então meu pai veio, olhou assim para mim e disse: "Está tranquila, está tudo bem. Falamos mais logo". E entrou para uma sala com eles. E eu fiquei outra vez ali com o polícia.
Carmo fica aliviada por voltar a ver o pai, mas continua sem saber o que está a acontecer.
Entretanto, ele sai outra vez a correr. Era uma pessoa sempre de grande atividade, sempre com alguma velocidade. E ele realmente sai outra vez a correr, diz-me assim: "Filha, tu vais naquele carro com este senhor e eu vou noutro carro". Pronto, e partiram. E depois ele diz: "Encontramo-nos logo". Nem me disse onde. E eu: "Está bem". É um facto, eu tinha feito um curso de combate, não é verdade? Mas pronto, partiu. Partiu. Horas sem fim.
Só ao final daquele dia é que o pai lhe iria finalmente revelar o que andava a fazer. Eram conversas secretas. Carmo não poderia revelar nada a ninguém, nem à própria família.
À noite, já andando comigo, disse: "Olha, filha, eu vou te contar então o que eu estou a fazer". E foi aí que me contou tudo. Tudo. Estivemos horas, até às 03:00, 04:00, em que ele esteve a me contar tudo. Os pormenores. Até disse: "Filha, isto nunca podes dizer a ninguém, nem à tua mãe, nem às tuas irmãs. Isto é absolutamente confidencial".
Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
E, portanto, essa facilidade de se deslocar com um pretexto artístico poderia ser interessante para outro tipo de atividades não divulgadas ao público.
Era o cantor de Moçambique, a voz romântica, era o Marco Paulo de Moçambique.
Nós sabíamos que tínhamos que estar naquela hora, que o engenheiro ia lá, que é para nos ver. Nós vestíamos e ele dava o seu parecer. Então fica bem, fica mal, mais decotado, menos decotado.
O Misterioso Engenheiro Jardim é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, e tem banda sonora original dos HMB. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Se gostar desta série, pode seguir, dar cinco estrelas e comentar o episódio na Apple Podcasts ou no Spotify. Pode subscrever e gostar no YouTube. Assim, recebe uma notificação sempre que houver um novo episódio. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
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