Era mais do que um jogo de futebol. Era uma espécie de defesa da honra. Depois da derrocada em pleno Estádio do Dragão na semana passada contra o Benfica, que não só deixou os dragões arredados da eventual corrida pelo título como assinalou vários registos históricos negativos, a equipa de Martín Anselmi estava naturalmente obrigada a ganhar para dar uma resposta clara.

Ainda assim, e depois da tal goleada sofrida no Clássico de domingo, a semana do FC Porto esteve longe de ser normal. A equipa voltou ao hotel depois do jogo, ao contrário do habitual regresso a casa depois de encontros no Dragão, treinou em pleno estádio e não no Olival no dia seguinte e pairou a ideia clara de que André Villas-Boas não queria a cabeça de Martín Anselmi — mas queria uma resposta concisa, assertiva e rápida ao que se tinha passado.

Ficha de jogo

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Casa Pia-FC Porto, 0-1

29.ª jornada da Primeira Liga

Estádio Municipal de Rio Maior, em Rio Maior

Árbitro: Hélder Carvalho (AF Santarém)

Casa Pia: Patrick Sequeira, João Goulart (Fahem Benaïssa, 76′), José Fonte (André Geraldes, 76′), Ruben Kluivert, Larrazabal (Tiago Dias, 90+3′), Miguel Sousa (Henrique Pereira, 64′), Iyad Mohamed, Leonardo Lelo, Jérémy Livolant (Cauê, 76′), Pablo Roberto, Cassiano

Suplentes não utilizados: Ricardo Batista, Isaac Monteiro, Renato Nhaga, Andrian Kraev

 

Treinador: João Pereira

FC Porto: Diogo Costa, João Mário (Martim Fernandes, 73′), Zé Pedro, Stephen Eustáquio, Marcano, Francisco Moura, Fábio Vieira, Alan Varela, Pepê (Gonçalo Borges, 73′), Rodrigo Mora (Otávio, 85′), Deniz Gül (Samu, 66′)

Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Zaidu, Danny Namaso, André Franco, Tomás Pérez

Treinador: Martín Anselmi

Golos: Rodrigo Mora (5′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Pablo Roberto (26′), a José Fonte (52′), a Zé Pedro (67′), a Martim Fernandes (78′)

Nesse sentido e na antevisão da visita ao Casa Pia, este domingo, o treinador argentino garantia que estava à procura das explicações para o que aconteceu contra o Benfica. “É difícil responder a essa pergunta, porque o meu trabalho e o de qualquer treinador é analisar os porquês. Analisámos os porquês desse jogo e temo-los claros. Mas não quero justificar-me, não há explicações válidas, sabemos os porquês, o que temos de melhorar, mas essas correções foram feitas para dentro. Sabemos o que correu mal, o que fizemos bem, houve erros pontuais não forçados que nos custaram caro. Trabalhamos para que isso não suceda outra vez. Mas temos de evitar que isso aconteça já no próximo jogo”, disse Martín Anselmi.

Neste contexto, em Rio Maior, o treinador dos dragões surpreendia e deixava Samu no banco, apostando em Deniz Gül. Zé Pedro rendia Nehuén Pérez, que estava castigado por acumulação de cartões amarelos, e Pepê e Rodrigo Mora mantinham-se no apoio mais direto ao ataque. Do outro lado, num Casa Pia com apenas uma derrota em casa nos últimos sete meses, João Pereira tinha Cassiano como referência ofensiva.

Os instantes iniciais do jogo mostraram desde logo que a primeira parte seria intensa, com Diogo Costa a ser obrigado a uma defesa importante depois de um remate de Miguel Sousa (4′). Logo depois, na resposta, o FC Porto conseguiu mesmo abrir o marcador e com recurso a um lance de génio que se torna cada vez mais habitual: Francisco Moura recebeu na esquerda, colocou na área em Rodrigo Mora e o jovem médio rodou entre dois adversários antes de bater Patrick Sequeira (5′).

Os dragões ficaram muito confortáveis depois de alcançada a vantagem numa fase tão embrionária da partida e poderiam ter aumentado o resultado dentro do quarto de hora inicial, com Pepê a rematar à malha lateral (8′) e João Mário a atirar para Patrick Sequeira defender junto ao relvado (11′). O Casa Pia tinha muitas dificuldades para sair a jogar, com o guarda-redes a ficar sem linhas de passe curto devido à pressão individualizada do FC Porto, e a equipa de Martín Anselmi parecia não tremer.

Deniz Gül desperdiçou uma boa ocasião ao rematar por cima, numa altura em que tinha João Mário em melhor posição para finalizar (23′), e os dragões iam beneficiando da enorme mobilidade — assegurada também pelo enorme entendimento — de Rodrigo Mora e Fábio Vieira, que se isolavam como as principais individualidades da equipa. Ainda assim, na ponta final da primeira parte, o FC Porto caiu em intensidade e reação à perda da bola e permitiu uma resposta do Casa Pia, que subiu no relvado e passou a ter períodos mais longos de posse.

Pablo Roberto teve a melhor oportunidade dos gansos na primeira parte, com um remate em arco que passou ao lado (34′), e a verdade é que já nada mudou até ao intervalo. No fim do primeiro tempo, o FC Porto estava a vencer o Casa Pia em Rio Maior com mérito e de forma justa, mas continuava sem conseguir esconder algumas debilidades defensivas nos momentos em que não tinha a bola.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e o primeiro lance de perigo da segunda parte pertenceu ao Casa Pia, com Miguel Sousa a escorregar na área no momento em que tentava rematar após cruzamento de Jérémy Livolant (49′). Ainda assim, o FC Porto parecia manter o controlo global das ocorrências, com mais bola e beneficiando da desinspiração do adversário, e nem precisava de desenhar jogadas com princípio, meio e fim para se manter confortável.

O jogo ia decorrendo sem grandes momentos de destaque e João Pereira decidiu mexer pela primeira vez já depois de Larrazabal rematar para Diogo Costa encaixar (64′), trocando Miguel Sousa por Henrique Pereira. Martín Anselmi respondeu com Samu, que entrou para o lugar de Deniz Gül, e não demorou até lançar também Martim Fernandes e Gonçalo Borges para renovar o corredor direito da equipa.

Embora o último quarto de hora da partida tenha assistido a poucas ou nenhumas oportunidades ou situações de perigo de parte a parte, os dragões não fugiram ao que já tinha acontecido na primeira parte e voltaram a recuar demasiado, concedendo a iniciativa ao adversário e falhando demasiados passes. De repente, e de forma notória, a prioridade era resguardar a vitória e não procurar dilatar a vantagem — algo que ficou claro quando Martín Anselmi, a cinco minutos do apito final, abdicou de Rodrigo Mora para colocar Otávio.

Até ao fim, porém, já nada mudou. Num dia de serviços mínimos, onde Samu ficou no bolso de Ruben Kluivert a partir do momento em que entrou e os dragões acabaram a sofrer com dois pontapés de canto consecutivos em que Patrick Sequeira subiu à área contrária, o FC Porto venceu o Casa Pia em Rio Maior e regressou provisoriamente ao terceiro lugar, já que o Sp. Braga só joga este domingo. E se Martín Anselmi continua a tentar desmistificar os porquês, Rodrigo Mora continua a ser a resposta.