Está aí a 22ª edição do Indielisboa. Num ano “ensombrado” pela polémica em torno de Ico Costa — vencedor da Competição Nacional em 2024 e que tinha a concurso dois filmes, que foram retirados pela organização após serem tornadas públicas denúncias de alegados abusos físicos e psicológicos por parte do realizador — o festival volta a apostar num leque de filmes e secções variadas que, como sempre, pretendem responder aos tempos modernos com o que está “fora do radar”, promovendo a diversidade de vozes e nomes emergentes do cinema nacional e internacional.
Em 2025, há a destacar uma nova secção, a Smart7, dedicada ao cinema europeu, bem como um recorde de 10 longas-metragens na Competição Nacional, duas retrospetivas — sobre Binka Jeliaskova e Charlie Shackleton — e as já tradicionais secções vocacionadas, como o Indiemusic e a Boca do Inferno, dedicada aos filmes de “meia-noite”. Dos cinemas São Jorge, Ideal, Fernando Lopes, Culturgest, até à Piscina da Penha de França (onde serão exibidos O Grande Lebowski e um filme de Pedro Almodóvar), estas são algumas das obras a ter debaixo de olho, de 1 a 11 de maio.
“Une Langue Universelle”
De Matthew Rankin, Matthew Rankin
O festival arranca no Cinema São Jorge com Une Langue Universelle, comédia do canadiano Matthew Rankin que, à boa moda absurdista, imagina um Canadá onde o persa, não o inglês, é a língua e a cultura dominante. Premiado em vários festivais internacionais, incluindo Cannes, foi para o norte-americano National Board of Review um dos melhores filmes estrangeiros do ano passado.
01 maio, 19h00: Cinema São Jorge, Sala Manoel de Oliveira
“The Last Showgirl”
De Gia Coppola
O apelido não dá azo a enganos. Neta de Francis Ford e sobrinha de Sofia, o terceiro filme de Gia Coppola é exibido no primeiro dia do festival, depois de ter sido premiado em San Sebastian e ter valido a uma renascida Pamela Anderson uma nomeação aos Globos de Ouro que, num papel paredes-meias com ecos de realidade, interpreta uma envelhecida dançarina exótica de Las Vegas a braços com um futuro incerto.
1 de maio, 21h30: Culturgest (Auditório Emílio Rui Vilar)
“Cloud”
De Kiyoshi Kurosawa
Um dos mais aclamados filmes do cinema internacional que ficaram por estrear nas salas nacionais no ano passado chega, finalmente, a Portugal, integrado na secção Silvestre do Indielisboa. A nova obra do mestre do thriller japonês debruça-se sobre os perigos do mundo digital das compras online, centrados num jovem que vê a vida em risco depois de se meter com as pessoas erradas.
02 de maio, 21h45: Cinema São Jorge (Sala 3)
09 de maio, 21h45: Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira)
“Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar”
De José Filipe Costa
A mais recente produção da Uma Pedra No Sapato esteve no Festival Internacional de Roterdão e promete dar que falar. Jorge Mota interpreta o ditador em fim de vida, numa altura em que, pós-AVC, no final dos anos 1960, já não é Presidente do Conselho. A ilusão, contudo, vai sendo mantida pelos que o rodeiam, da governanta ao seu médico pessoal, num retrato intimista de um período histórico determinante, na antecâmara da queda do Estado Novo.
04 de maio, 18h00: Culturgest (Auditório Emílio Rui Vilar)
09 de maio, 10h45; Cinema São Jorge (Sala 3)
“Hanami”
De Denise Fernandes
Produzido a meias entre Portugal, a Suíça e Cabo Verde, a já premiada estreia de Denise Fernandes na longa-metragem entra na Competição Nacional e na secção Smart 7 e é mais um sinal do potencial emergente da cinematografia do arquipélago. Rodada na Ilha do Fogo, conta a história das dores de crescimento de uma jovem criada numa comunidade de mulheres, da infância à adolescência.
08 de maio, 21h30: Culturgest (Auditório Emílio Rui Vilar)
“Bring them Down”
De Christopher Andrews
Destaque da secção Boca do Inferno, esta produção independente junta Christopher Abbott e Barry Keoghan, num intenso drama que explora traumas geracionais e a masculinidade tóxica, a partir da rivalidade crescente entre dois pastores. Um retrato intenso da vida na Irlanda rural contemporânea, foi aclamado pela crítica mas passou despercebido na bilheteira britânica, aprontando-se agora a uma espécie de “redescoberta” pelo público português.
03 de maio, 21h30: Cinema Fernando Lopes / Universidade Lusófona
11 de maio, 21h30: Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira)
“Éramos Jovens”
De Binka Jeliaskova
Integrada no ciclo Retrospetiva, em parceria entre o Indielisboa e a Cinemateca Portuguesa, trata-se na estreia da realização de uma das mais singulares vozes do cinema de leste europeu na segunda metade do século XX. Marcada por um duro realismo social e resistência política, a obra de Binka Jeliaskova (1923-2011) foi censurada pelo regime comunista búlgaro e permaneceu virtualmente desconhecida durante décadas. Com lugar de destaque no documentário de Mark Cousins, Women Make Film (2018), esta será apenas a segunda retrospetiva integral da sua filmografia fora da Bulgária.
02 de maio, 21h30: Cinemateca Portuguesa (Sala Félix Ribeiro)
07 de maio, 15h30: Cinemateca Portuguesa (Sala Félix Ribeiro)
“The Afterlight”
De Charlie Shackleton
Noutra das secções de parceria entre a Cinemateca e o Indie, a obra integral do cineasta e artista visual estará em exibição em Lisboa. O programa inclui Paint Drying, filme-instalação de mais de 10 horas feito como protesto contra o British Board of Film Censors (responsável pela classificação etária de filmes no Reino Unido), bem como este filme-colagem, que existe numa única cópia de 35mm — cópia essa que, no ano passado, foi dada como perdida ao passar, justamente, por Portugal, acabando depois por reaparecer.
09 de maio, 21h00: Cinemateca Portuguesa (Sala Félix Ribeiro)
“A Vida Luminosa”
De João Rosas
Projeto que recorda os filmes de Antoine Doinel ou o trabalho do cineasta Richard Linklater, A Vida Luminosa marca a estreia de João Rosas na longa-metragem de ficção. Dá continuidade ao trabalho que, há mais de uma década, vem desenvolvendo com as curtas Entroncampos (2013), Maria do Mar (2015) e Catavento (2015), acompanhando Nicolau e Mariana, personagens interpretadas por Francisco Melo e Francisca Alarcão, que agora se se debatem com os desafios do início da idade adulta, e com os sonhos que ficam por cumprir.
07 de maio, 21h30: Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira)
09 de maio, 19h30: Cinema Ideal
“Youth”
De Wang Bing
Um dos grandes nomes do cinema arthouse, Wang Bing já nos habituou a expansivos retratos documentais da China moderna. A sua mais recente obra não é exceção: trata-se de um tríptico composto por Spring, Hard Times e Homecoming, que ao todo totaliza quase 10 horas, acompanhando a vida de um grupo de jovens trabalhadores numa fábrica de têxtil numa remota localidade a 150 quilómetros de Xangai. As três partes serão exibidas no mesmo dia, para aqueles interessados no cinema como prova de resistência.
03 de maio, 13h00: 17h00 e 21h45, Cinema Ideal
“La guitarra flamenca de Yerai Cortés”
De Antón Álvarez
Se o nome Antón Álvarez poderá não ser familiar, o seu pseudónimo nos palcos dirá muito a muita gente. Trata-se de C. Tangana, músico-sensação do meio espanhol nos últimos anos, que aqui se estreia em nome próprio na realização, com um documentário que, à semelhança do que já vinha fazendo no seu último álbum, El Madrileño, explora as raízes da tradição flamenca, aqui através da figura do guitarrista Yerai Cortés.
08 de maio, 18h45: Culturgest (Auditório Emílio Rui Vilar)
11 de maio, 19h30: Cinema Ideal
“Armand”
De Halfdan Ullmann Tøndel
Premiado na última edição do festival de Cannes, a mais recente produção do cinema nórdico reencontra o público português com Renate Reinsve, protagonista do aclamado A Pior Pessoa do Mundo (2021). Aqui, interpreta uma professora primária a braços com uma situação extrema, num drama claustrofóbico passado integralmente dentro do edifício escolar. A título de curiosidade, acresce que é realizado pelo neto de dois “monstros sagrados” do cinema mundial: Ingmar Bergman e Liv Ullmann.
09 de maio, 21h45: Culturgest (Auditório Emílio Rui Vilar)
11 de maio, 19h00: Cinema Fernando Lopes / Universidade Lusófona
“BLKNWS: Terms & Conditions”
De Khalil Joseph
Algures entre o filme de ficção, o documentário experimental e a instalação visual multimédia. É aqui que se situa a proposta de Khalil Joseph, cineasta responsável por Lemonade (2016), filme homónimo que acompanhou o álbum conceptual de Beyoncé. Partindo da sua aclamada instalação vídeo que em 2022 esteve na Bienal de Veneza, regressa a temas recorrentes do seu trabalho: a cultura negra, a memória coletiva e a história da diáspora africana.
07 de maio, 10h45: Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira)
11 de maio, 17h30: Culturgest (Auditório Emílio Rui Vilar)
“Caught by the Tides”
De Jia Zhang-ke
As honras de encerramento do Indielisboa 2025 ficam a cargo deste, o mais recente filme de um dos mais respeitados cineastas chineses da atualidade. Caught by the Tides esteve em competição no Festival de Cannes de 2024, e retrata a história de um romance falhado que se desenrola ao longo de 20 anos, com uma China em evolução como pano de fundo.
11 de maio, 21h30: Culturgest (Auditório Emílio Rui Vilar)