São 17h30 e à entrada da Basílica da Estrela já estão D. Duarte e D. Isabel com os três filhos, D. Afonso, Infanta Maria Francisca e D. Dinis. “Vim de táxi”, assume o Duque de Bragança, que diz não estar “nada nervoso” para a celebração que se adivinha. Os cinco vão cumprimentando informalmente os membros da família e amigos que vão chegando, mas também há espaço para alguns curiosos. Turistas que perguntam em inglês o que é que se passa ali, paroquianos que vieram para a missa do Dia de Nossa Senhora de Fátima, pessoas que simplesmente passavam pela rua e decidiram parar para olhar, desviados pela presença das câmaras e jornalistas. “Esta cerimónia não é um casamento. Há muitas pessoas que têm curiosidade. No fundo é uma cerimónia de ação de graças, mas se estiverem cá pessoas nós nunca deixámos de estar com todos”, garante D. Isabel Herédia.
▲ Da esquerda para a direita: D. Afonso, D. Duarte, D. Isabel, D. Dinis, infanta Maria Francisca e o marido, Duarte Martins
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
E assim foi. A Basílica da Estrela foi o local escolhido para celebrar os 30 anos de casamento dos Duques de Bragança: “É uma Basílica bonita e foi fundada pela Rainha Dona Maria, que é uma antepassada do Senhor D. Duarte, e, portanto, está ligada à Casa de Bragança”, enquadra ao Observador José de Bouza Serrano, antigo embaixador e ex-chefe de protocolo do Estado, que ajudou na organização do evento, assim como fez há quase dois anos, no casamento da Infanta Maria Francisca. Uma igreja “central e suficientemente grande”, que abriu as portas para dezenas de membros de ordens dinásticas — a Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, na qual os homens vestem uma capa branca com azul com as respetivas condecorações; e a Ordem de Santa Isabel, composta pelas mulheres vestidas de preto com um véu em renda — membros de outras famílias reais como a princesa Leopoldine do Liechtenstein ou o príncipe Amyn Aga Khan, empresários e intelectuais, militares, embaixadores e apoiantes da monarquia.
▲ À esquerda a princesa Leopoldine Liechtenstein, à direita o príncipe Amyn Aga Khan cumprimenta D. Isabel
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
As derradeiras filas na nave da basílica deixaram ainda espaço para demais convidados sem lugar marcado, e também para todos aqueles que quisessem juntar à celebração. E se ao início alguns destes espaços permanecerem vazios, a certa altura os bancos ficaram completamente preenchidos, havendo mesmo quem assistisse em pé: da criança com uma bola na mão ao motard com casaco de cabedal, do um ciclista com o seu capacete à transeunte com carteira Armani, ou mesmo o homem que pouco tempo antes poderia estar a pedir esmola à entrada. Ou “todos, todos, todos”, como diria o Papa Francisco, também ele evocado ao longo da celebração, acompanhada pelo coro laudate dirigido pelo maestro José Eugénio Vieira e pelo órgão do professor Luís Cerqueira.
Benção do Papa Leão XIV
Presidida pelo patriarca de Lisboa, a missa solene teve um tom mais protocolar. Os cavaleiros e as damas das duas ordens dinásticas alinharam-se antes do início da celebração. Depois entrou o cortejo com os membros do clero e o clã Bragança.
▲ O cortejo a entrar na Basílica da Estrela
ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR
Durante a homilia, o patriarca Rui Valério destacou as coincidências da data. A 13 de maio de 1125, com apenas 16 anos, D. Afonso Henriques armou-se a si próprio cavaleiro. “Um projeto que se veio a tornar uma pátria, uma nação”, destacou o patriarca de Lisboa, comparando com o casamento dos Duques de Bragança, que é “um projeto familiar” — dois projetos que se unificam na “grandeza de um povo, uma história, uma nação”.
Também a 13 de maio, mas de 1917, numa altura em que, o patriarca destaca, “o país vivia momentos mais difíceis e de pobreza”, terá acontecido a primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima, momento que o patriarca também associou ao casamento. “Estamos a celebrar 30 anos do dom do amor, o dom da confiança, da esperança”, disse Rui Valério, que destacou o “exemplo de vida consagrada” que “suas altezas incansavelmente nos testemunham”. O patriarca foi ainda mais longe ao sublinhar o papel desempenhado pela família: “em vós os portugueses encontram o sustento moral.”
O Papa Leão XIV surgiu em diversos momentos da missa, como por exemplo quando, pela voz de D. Dinis, foi incluído nas preces. Mas também ao final da celebração, quando foi lida uma mensagem vinda diretamente do Vaticano, na qual o novo Papa concede aos Duques de Bragança, aos seus filhos e demais familiares, a bênção apostólica.
Depois da missa, os convidados dirigiram-se para um cocktail no contíguo Convento do Santíssimo Coração de Jesus, com o recém eleito Papa XIV a dominar as conversas, entre outros tópicos desfiados enquanto os convidados provavam o catering que esteve a cargo de Ana Batalha (Quinta do Roseiral). “São pessoas que se conhecem na sua maioria, e, portanto, falam dos temas da atualidade. Nós estamos a uma semana das eleições e há realmente a mudança no Vaticano, que foi rápida. É claro que isto é tema”, assume o antigo diplomata. Os convidados eram sobretudo portugueses, mas, para incluir alguns estrangeiros, a segunda língua mais ouvida foi o francês.
Sem Marcelo nem Moedas
Do chefe de Estado ao Presidente da Câmara de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa e Carlos Moedas foram duas das ausências mais notadas. Estava ainda confirmada a presença da ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, que entretanto cancelou. “Não temos cá os cardeais porque foram todos para Roma por causa do Papa. O Presidente da República iria hoje à missa e depois ao cocktail, mas também está impedido por causa da ida para Roma”, explica José Bouza Serrano. Ausente, por idênticos motivos, esteve também Philippe, Rei dos Belgas, inicialmente previsto entre os que viajariam até Lisboa para esta ocasião. “Hoje é dedicado, no fundo, às famílias portuguesas que apoiam a monarquia, ou que são tradicionalmente descendentes da aristocracia portuguesa”.
Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador nos 30 anos do casamento dos duques de Bragança
Se desta vez a cerimónia não teve presenças políticas de alto perfil, há 30 anos foi diferente. Na tarde de 13 de outubro de 1995 uma multidão aglomerou-se à porta do Mosteiro dos Jerónimos para ver e saudar os noivos. “Começou mais tarde porque de manhã o patriarca (António Ribeiro) teve que estar nas cerimónias de Fátima”, explica Bouza Serrano. Marcado para às 15h, estavam cerca de três mil convidados dentro da basílica. “Vieram muitos chefes de casas reais estrangeiros, parentes do Sr. D. Duarte e havia uma série de portugueses”, destaca Bouza Serrano. Membros de realezas europeias reinantes e não reinantes, do clero e personalidades da política nacional, como o então Presidente Mário Soares e o primeiro-ministro da altura, Aníbal Cavaco Silva.
“Lembro-me que o Presidente Mário Soares estava muito preocupado em chegar exatamente a horas, e eu também não queria chegar depois do Presidente. Protocolarmente não fica bem chegar depois do Presidente da República”, recorda D. Duarte. “O Mário disse uma coisa muito interessante. Foi criticado por vários setores por vir ao casamento, foi acusado de estar a fazer propaganda monárquica, e ele disse: ‘Eu sou laico e republicano mas aprecio e tenho grande consideração pelo senhor D. Duarte e além disso, do ponto de vista político, eu não posso discriminar um cidadão português por causa da sua ascendência familiar.'”
30 anos depois, o bom humor permanece
D. Duarte e D. Isabel permaneceram lado a lado desde o início da recepção, por volta das 17h30, até o final do cocktail, perto das 22h. Formou-se uma longa fila para cumprimentar o casal — em pano de fundo, a bandeira monárquica azul e branca e o estandarte real, uma bandeira vermelha que assinala a presença do chefe da casa real. Entre cumprimentos, entrevistas e conversas, havia espaço para trocas de olhares. “São ultra apaixonados e é giro de ver a dinâmica. O meu pai é 19 anos mais velho do que a minha mãe, mas mesmo assim é uma força da natureza, continua a viajar, continua a estar connosco até altas horas a conversar”, diz-nos Maria Francisca, a filha dos Duques de Bragança. “Espero um dia ter com o Duarte a mesma dinâmica. Uma coisa que sempre me disseram era: ‘muito amor e muita cerimónia’. Ou seja, tem que haver muito amor, muito respeito e ao mesmo tempo não ser exaustiva, levar sempre alegria para o casamento”, assume a infanta, que se casou em outubro de 2023 no Convento de Mafra.
“Já nos conhecemos muito bem, somos os melhores amigos”, diz D. Isabel, sobre o segredo da relação. “O casamento dá sempre muito trabalho, temos que ter respeito um pelo outro, mas não perder o humor”, aconselha. O mesmo recomenda D. Duarte: “Quando se casa com alguém, tem que ser alguém que tenha bom sentido de humor. E quando há uma discussão, é importante que não estejam os dois a discutir ao mesmo tempo”.