Num passeio pela Disneyland Paris, depois de ter deixado para trás o velho oeste americano da Big Thunder Mountain e enquanto passava pelo castelo neo-romântico francês da Bela Adormecida, uma pessoa aborda-o para uma entrevista relâmpago: “Que país do mundo lhe parece transmitir o espírito Disney?” As respostas poderiam ser várias, mas, neste momento, apenas uma está certa: os Emirados Árabes Unidos.
Em 2030, Abu Dhabi deverá tornar-se a sétima cidade do mundo — e a quarta na Ásia — a acolher uma Disneyland. Na passada quarta-feira, a empresa norte-americana anunciou uma parceria com o promotor regional Miral Group para a construção do novo parque temático no país árabe. O casamento aconteceu por uma confluência de visões e da alegada partilha de valores entre as duas partes, incluindo uma ambição comum em relação ao futuro.
O presidente da unidade de Experiências Josh D’amaro disse que em alguns aspetos, os Emirados Árabes Unidos são “similares à Disney”. Descreveu o país à CNN como “uma nação jovem” orgulhosa das suas raízes e da sua história, mas com “uma postura ousada e orientada para o futuro”. Embora não tenha especificado onde se deu a tal aproximação, D’Amaro confirmou que as semelhanças encantaram a “casa das princesas”.
Este “país de príncipes” — ou melhor, de sheiks — oferece ainda excelentes condições para esta nova vida juntos, por ser “um ponto de encontro do mundo”, disse D’Amaro. Em 2023, os Emirados receberam cerca de 28 milhões de turistas, de acordo com dados do Ministério da Economia, e a expectativa é a de que esse número cresça, considerando este o início de um novo papel para Abu Dhabi na região do Médio Oriente. Através da chamada Estratégia do Turismo 2030, o Departamento da Cultura e Turismo da capital pretende atrair 39,3 milhões visitantes por ano — números que D’Amaro descreve como “impressionantes”.
Já o presidente do conselho da Miral, Mohamed Al Mubarak, destacou a capacidade ímpar da Disney de criar — “seja quando se visita os parques, vê os espectáculos ou assiste aos filmes” — memórias inesquecíveis aos seus clientes. Mubarak trabalha há anos para trazer este tipo de experiência impactante aos Emirados Árabes Unidos. O presidente do Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi foi também uma das figuras centrais nas negociações que trouxeram a Fórmula 1 e a NBA para Abu Dhabi — eventos que, segundo o Abu Dhabi Media Office, movimentaram mais de 300 milhões de euros na economia local apenas em 2023.
Contudo, os planos da Disney para esta nova etapa não se resumem a replicar modelos anteriores. “Tudo o que fazemos, especialmente quando criamos algo novo, é com o intuito de ultrapassar os limites da criatividade”, explicou D’Amaro, referindo-se às grandes inovações tecnológicas que os parques da empresa introduzem a cada nova geração. É precisamente essa vanguarda que também se pretende oferecer em Abu Dhabi.
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Tal como o príncipe Aladdin cantou à Jasmine sobre mostrar-lhe “um mundo novo”, também Mubarak vendeu a ideia de uma “Disneyland Abu Dhabi” fora dos moldes tradicionais, baseada na gamificação. Inspirado por elementos típicos dos videojogos, o objetivo é envolver o público em experiências interactivas. A nova Disneyland poderá ser o primeiro parque temático de grande escala em que o visitante assume também o papel de jogador. “Desde a estadia no hotel até à visita ao parque, o visitante poderá ganhar pontos”, explicou Mubarak, referindo-se a uma geração — a geração Alpha — que utiliza plataformas de videojogos não apenas para entretenimento, mas também como forma de socialização e interação com o mundo.
O fruto desta parceria nascerá no principal centro de entretenimento dos Emirados: a Ilha Yas. A cerca de 30 minutos do centro de Abu Dhabi, esta ilha foi planeada e construída do zero ao longo de menos de duas décadas para servir o turismo, sobretudo internacional. Entre as atrações já existentes encontram-se o Warner Bros. World Yas Island, o SeaWorld Yas Island, o Yas Waterworld Abu Dhabi, o Ferrari World Abu Dhabi e o circuito Yas Marina, onde se realiza o Grande Prémio de Fórmula 1.
Apesar de, segundo Mubarak, o projeto ainda estar composto por “peças de um puzzle” que precisam de ser alinhadas, a receção da ideia foi entusiástica. Na quinta-feira, um dia após o anúncio da parceria, as acções da Disney — que desde a imposição das “tarifas recíprocas” de Trump no início de abril estavam abaixo dos 90 dólares (80 euros) — dispararam para 102,09 dólares, uma valorização de cerca de 12%, conforme noticiado pela Variety.
Este anúncio aparenta ser para as duas partes mais do que uma aliança estratégica. É um compromisso de longa duração entre dois mundos que, à primeira vista, pareciam distantes, mas que se reconhecem nas mesmas ambições. Durante décadas, a ligação mais evidente entre a Disney e o Médio Oriente resumia-se à fantasia de Aladdin, com os seus bazares encantados, palácios dourados e tapetes voadores. Agora, essa ponte simbólica dá lugar a algo bem mais concreto que não se limitará a um conto animado dos anos 90.
Texto editado por Dulce Neto