O primeiro trunfo do novo filme de Kleber Mendonça Filho começa no guião, no modo como o filme relaciona a história do Brasil (com incidência particular na cidade do Recife) com o cinema de género e o thriller em particular, espelho da década em que a maior parte da ação se passa: os anos 70. Ao longo de 158 minutos, das suas pontes entre passado e presente e de um tratamento do tempo que nunca foi tão complexo nesta filmografia nem fica atrás dos sobressaltos de um Tarantino, O Agente Secreto jamais nomeia a ditadura militar. Quando se fixa em 1977, chama-lhe “época cheia de pirraça.” Mas a audiência, mesmo aquela que nunca leu uma sebenta da história do Brasil no século XX, sabe que está em território cercado e opressivo.
O cineasta acredita no puro poder do cinema para passar essa informação. Basta-lhe filmar um cadáver, há dias tapado com um cartão em frente àquela gasolineira, para espanto e terror do protagonista Armando (Wagner Moura), que ali parou para abastecer o seu carocha amarelo. Alguém lhe diz que o cadáver é consequência dos exageros de carnaval, época sempre violenta nas cidades brasileiras. Mas ali estamos em terra de ninguém. No mês de fevereiro, calor a estalar em pleno verão no hemisfério sul. Do cadáver, ninguém se aproxima, nem a polícia. Essa cena de abertura consegue sugerir tudo aquilo que está para vir.
Tem tubarão com perna?
Armando está em fuga, tanto que responde por Marcelo, nome falso, por proteção. Docente universitário com carreira académica destruída por um sádico psicopata que a ditadura colocou em lugar de chefia, Armando está a caminho do Recife para levar o filho menor e pisgar-se do Brasil de vez, que a guerra está perdida. Nisto já sabemos o que ele ainda não sabe: em São Paulo, o pulha a quem Armando não se vergou contratou dois sicários para o liquidarem. Na televisão passa a Escrava Isaura, no cinema São Luiz está em cartaz Tubarão. E num momento em que anda meio mundo traumatizado pelo filme de Spielberg, responde a realidade com outro traumatismo: foi caçado um tubarão bem grande nas praias do Recife ainda com uma perna humana na barriga. A ideia é um embaraço para a polícia, para a ciência forense, mas Kleber Mendonça Filho usa-a como porta de entrada para o fantástico, recordando assim o puritanismo e a homofobia do Brasil subjugado à ditadura.
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Sublinhe-se o que interessa: Kleber tem uma fé tremenda no cinema de género e acredita que, por si só, ele é capaz de falar por todos os tempos e de dar todas as respostas, sem explicações nem oráculos. Enquanto thriller, O Agente Secreto tem um ritmo fascinante, tão aditivo como The French Connection/Os Incorruptíveis Contra a Droga (Friedkin, 1971), nos amarelos torrados e no formato Scope é Blaxploitation dos seventies, na banda sonora, desencanta bandas brasileiras do Recife que 99,9% da audiência de Cannes nunca ouviu sequer falar (Conjunto Concerto Viola e o seu álbum de 1975, Desabafo).
Em O Agente Secreto há uma noção de história e um apelo à memória que estão ancorados na relação afetiva do cineasta com a cidade em que nasceu. O Agente Secreto não é menos um filme sobre o Recife do que O Som ao Redor ou Aquarius. De filme a filme, a cidade é cada vez mais o cimento de toda esta obra. Uma das personagens, um velho projecionista, é seguramente inspirada no documentário anterior de Kleber, Retratos Fantasmas, do qual O Agente Secreto se pode considerar o “irmão ficcional”. É que o cineasta também está aqui a folhear um tempo que é o da sua infância. A câmara acaricia cada objeto que a direção de arte colocou em campo. Isto é: a política do Brasil de 1977 é uma coisa sanguinária e bruta e, em simultâneo, uma filigrana de recordações e de conspirações mais tarde reveladas por manchetes sensacionalistas, senhas secretas, corpos mutilados (a bizarra aparição da personagem de Udo Kier) ou gravações em cassetes de banda magnética. Ora, Kleber tem um espírito de colecionador e também de detetive. Bate-se contra o esquecimento. Não é o Brasil um país que esquece depressa?
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E contudo, nada aqui é homenagem que se satisfaça a si própria (como acontece em boa parte com o filme de Linklater sobre O Acossado). O que O Agente Secreto nos propõe é uma viagem no tempo que desperta consciências e sacode o presente porque os dias de hoje — e isto já estava em Retratos Fantasmas – tornaram-se resignados, sem propósito. A dicotomia cidade-indivíduo ganha então um sentido. Tal como os grandes cinemas de outrora, que fecharam as luzes na baixa da cidade e foram transformados em edifícios brancos que hoje acolhem centros de saúde, há também quem escolha agora, por medo ou por indiferença, não querer saber quem é, de onde vem e porque se bateram seus antepassados num certo carnaval de 1977.
Juntamos O Agente Secreto a Sirât: são os dois melhores filmes de Cannes até ao momento. Sirât foi feito por um galego. O Agente Secreto por um pernambucano. Uma dupla proximidade, cultural e linguística.
Lynne Ramsay inventa uma Jennifer Lawrence borderline em “Die My Love”
Lynne Ramsay anda há quase 30 anos a mostrar filmes em Cannes (desde a curta de estreia, Small Deaths, 1996). O festival segue com fidelidade as suas personagens magoadas, desamparadas, não só por falta de consolo: são pessoas com a saúde mental estragada ou a caminhar seriamente para isso. No novo filme da escocesa, adaptação de um romance homónimo da argentina Ariana Harwicz, a escocesa inventou uma jovem mãe a passar-se dos carretos. A própria Lynne poderia ter cantado, de viva voz, She’s Lost Control, escolheu outra canção dos Joy Division, Love Will Tear Us Apart. Mas isto é a última coisa que se ouve ao sair-se da sala, no correr do genérico de fim.
▲ Lynne Ramsay entre Robert Pattinson e Jennifer Lawrence, no photocall de "Die Mye Love"
Corbis via Getty Images
Voltando à canção: quem é ela, a que perdeu o controlo? Uma jovem mãe que renunciou ao desejo de ser escritora, de comportamento instável, incapaz de sentir-se bem com ela própria e com os outros. Grace (Jennifer Lawrence) vive com o marido Jackson (Robert Pattison). Pelos telemóveis se percebe que são os dias de hoje. Pelas SUV de caixa aberta, algures nos Estados Unidos. Mas a definição do espaço e do tempo não são estratégicos aqui. Na sogra de Grace está o rosto da veterana Sissy Spacek, que tem um rol copioso de personagem deturpadas como aquela.
E Grace começa a passar-se, a mexer em facas, a gatinhar como felina, a imaginar situações e personagens que podem ou não ser invenções da sua cabeça, fogos interiores. Esbarra na falta de afeto e de sexo, no afastamento progressivo do marido, na perda de confiança associada a uma provável depressão pós-parto. A criança é um fardo, um intruso, ao mesmo tempo a única esperança.
À medida que deixa Robert Pattinson, o marido vulnerável, num papel ingrato para o ator, Die My Love é levado pela performance de Jennifer Lawrence e seus acessos de violência psicológica e física, num fluxo de imagens e sons convulsos, erráticos, que comprometem o sopro romanesco que existia na história em potência — tanto que a atriz confessou ao jornal britânico Guardian que, neste papel, “I felt like an alien.”