É sempre motivo de alegria quando vemos corrigida uma das falhas mais evidentes do mercado editorial português. Num país onde se publicam dezenas de títulos por dia, é difícil aceitar que Ezra Pound, um dos autores maiores da história da literatura do século passado (até pela influência que exerceu em escritores como D.H. Lawrence, James Joyce ou T.S. Eliot), continue tão inacessível. Embora não haja qualquer indício de que uma tradução dos seus Cantos esteja a ser preparada, a edição de ABC da Leitura (tradução de António Cabrita) por parte da Maldoror é bem melhor do que nada. E é bem melhor do que nada sobretudo quando nos faltam tanta falta livros que queiram ensinar-nos a ler.

Esta necessidade parece-me premente por dois motivos. Em primeiro lugar, porque, num mundo (falo de mundo, não de tempos) em que todos nos julgamos dignos de subir a pedestais de onde, perante uma plateia de imbecis, nos afirmemos omnipotentes, é bom sermos lembrados — e diante de Pound as nossas pretensões de inteligência são arrastadas pela lama — de que nem ler sabemos. Em segundo lugar, porque num tempo (agora sim, falo de tempos) em que em cada esquina há um criativo, disposto a ensinar-nos a escrever romances todos supimpas, importa que alguém dê um passo atrás e nos recorde de que o momento fundacional da literatura acontece quando nos sentamos para ler, quando nos predispomos a escutar.

Há ainda outro aspeto a tornar particularmente pertinente a tradução deste livro, já que de cada vez que se edita Pound, Céline, Heidegger ou Hamsut, recordamos esta ideia para tantos tão descabida de que podemos aprender com pessoas que acreditavam em coisas abjetas.

Ora, se por todos estes motivos nos deveríamos alegrar pela edição de ABC da Literatura, não devemos também esquecer que neste livro não encontramos o maior Pound. No início do livro, Pound promete um manual iniciático para alunos pouco familiarizados com literatura. Porém, não são precisas muitas páginas para se tornar claro que este livro se parece menos com um manual formativo e mais com uma conversa a que chegamos a meio, tendo como leitor ideal não alguém que se queira iniciar no maravilhoso mundo da literatura mas antes alguém que tenha lido os mesmos livros que Pound e chegado às mesmas conclusões de Pound.


Título: “ABC Da Leitura”
Autor: Ezra Pound
Tradução: António Cabrita
Editora: Maldoror
Páginas: 240

Aliás, Pound parece acreditar que as virtudes dos maiores génios são auto-evidentes, sugerindo até que “se há uma qualidade comum a todos os grandes escritores, é que não são precisas escolas ou universidades para que vivam eternamente”. Nesse sentido, é curioso e divertido vermos como Pound parece sistematicamente escarnecer do seu próprio livro, sugerindo que este seria absolutamente desnecessário, sendo potencialmente substituível por uma boa compilação, onde encontrássemos as primeiras incidências de cada inovação literária, como fica claro logo no início da segunda parte, quando Pound assegura que “o modelo ideal para apresentar a segunda parte deste livro seria dispor as citações SEM qualquer comentário. (…) Aprendi, por longa e enfadonha experiência, que no actual estado de imperfeição do mundo é PRECISO explicar ao leitor”.

(Talvez o maior fardo da inteligência seja esta absurda condescendência e este tão grande desprezo pelos leitores e pela insuportável estupidez do mundo, que no caso de Pound se expande a praticamente todos os críticos seus contemporâneos e a nomes tão insuspeitos como John Milton, que a páginas tantas é aqui acusado de sofrer de “estreiteza de vistas” e “estupidez”. Quem sabe se este fardo não nos ajuda também a justificar as escabrosas opções ideológicas de Pound na metade final da sua vida, se tivermos presente esta sugestão de que a mancha da absurda humanidade não o tinge a ele, sendo apenas um opróbrio dos plebeus. Quem sabe se isso não nos diz coisas também sobre nós.)

Por frustrante que seja vermos este manual converter-se numa conversa para a qual não fomos convidados, é possível que isso revele uma característica fundamental da literatura, visto que quando lemos estamos irremediavelmente sós, andando às apalpadelas a tentar fazer sentido do insondável. Pound escreve um manual anti-manuais porque, com alguma razão, parece acreditar que o exercício em que este assenta é impossível de cumprir.

Não aprendemos a ser melhores leitores lendo manuais, mas sim esbarrando contra paredes, levantando-nos e esbarrando outra vez contra a mesma parede. Apesar de aqui se partilhar uma mão cheia de bons conselhos, a ideia mais forte e verdadeira de Pound é a de que aprendemos a ler aprendendo a ver, tal como se quisermos saber mais sobre pinturas não devemos ler livros sobre artes mas ir a museus olhar para quadros.

Nesse sentido, a ideia que me parece central do livro contradiz uma outra ideia periférica mas bastante repetida ao longo de ABC da Leitura. Pound não se cansa de repetir que a melhor forma de aprender a ler seria procurando “elementos puros” na literatura, isto é, os momentos em que um escritor forte introduz uma inovação literária, devendo o leitor, portanto, procurar “para cada género o poema mais antigo que conseguir”.

Ora, o problema deste método é evidente. Diz Pound que “não é sensato fazer um juízo sobre um dado autor ou período sem olharmos, pelo menos, para alguma obra do período que lhe precede; assim, antes de formar uma opinião definitiva sobre a década de 1890, convém espreitar Rossetti; antes de julgar Rossetti, ler algumas páginas de Browning, e assim sucessivamente”.

Pois bem, se não podemos compreender determinado período ou escritor sem antes conhecermos os períodos que lhe antecederam, até, enfim, encontrarmos o elemento puro que tudo gerou, o corolário desta teoria seria que em nenhuma circunstância seria sensato fazermos juízos, o que torna este manual menos um exercício de erudição poundiana, como o escritor parece pretender, mas antes o humilhado reconhecimento da nossa pequenez.

Talvez o que tenhamos a aprender com ABC da Leitura não seja, portanto, que Pound era um génio eruditíssimo, mas apenas que antes de pegarmos num qualquer livro da estante, devemos descalçar-nos e reconhecer a nossa irredutível estupidez.

Não me parece um mau princípio.