Era muito mais do que um simples jogo de futebol. Logo à partida, era o reencontro entre Lionel Messi e uma antiga equipa, algo que nunca tinha acontecido em toda a carreira do argentino. Depois, era o reencontro de Luis Enrique com Messi, Alba, Suárez e Busquets e também com o agora treinador Javier Mascherano, que orientou no Barcelona. Por fim, era também o reencontro de David Beckham, agora proprietário do Inter Miami, com o PSG onde se despediu dos relvados.

Pelo meio, sem que ninguém se esquecesse, disputava-se o apuramento para os quartos de final do Mundial de Clubes. O PSG vinha de uma vitória no Grupo B, apesar de ter perdido com o Botafogo de Renato Paiva, e o Inter Miami vinha de um segundo lugar no Grupo A, sem qualquer derrota e surpreendendo os favoritos FC Porto e Al Ahly — ainda assim, era impossível não atribuir toda a responsabilidade da eliminatória aos franceses.

“Se quisermos parar Messi, não podemos depender apenas de um jogador. Precisamos de uma defesa coletiva, porque ele consegue driblar qualquer jogador. Acabámos de vencer a Liga dos Campeões, mas estamos sedentos e ansiosos por continuar a demonstrar que há espaço para melhorias. Que melhor sítio para o fazer do que neste estádio incrível e contra uma equipa que tem Messi?”, questionou Luis Enrique na antevisão da partida.

Assim, este domingo e no Mercedes-Benz Stadium de Atlanta, o treinador espanhol não realizava grandes alterações ao onze inicial mais habitual neste Mundial de Clubes, mas deixava Gonçalo Ramos no banco e apostava em Bradley Barcola, com Nuno Mendes, João Neves e Vitinha a manterem todos a titularidade. Do outro lado, Javier Mascherano tinha Lionel Messi, Sergio Busquets, Jordi Alba e Luis Suárez no onze, para além do talentoso argentino Tadeo Allende.

Numa primeira parte de sentido absolutamente único, Barcola não demorou a deixar o primeiro aviso com um remate para defesa atenta de Oscar Ustari na sequência de uma enorme arrancada de Kvaratskhelia (4′). Logo depois, houve mais eficácia: Vitinha tirou um livre perfeito descaído na esquerda, à procura do segundo poste, e João Neves apareceu sozinho a cabecear para finalizar um golo totalmente português (6′).

O domínio do PSG foi total, sem que o Inter Miami conseguisse reagir ou sequer chegar perto da grande área de Donnarumma, e a equipa de Luis Enrique ia gerindo a vantagem sem precisar de acelerar muito para criar perigo. Fabián Ruiz ainda marcou mas viu o golo anulado por fora de jogo (15′), Kvaratskhelia rematou ao lado (24′) e o segundo apareceu já perto do intervalo e novamente por intermédio de João Neves, que só precisou de encostar depois de uma boa combinação entre Ruiz e Barcola (44′). 

Os norte-americanos perderam ainda mais o discernimento com o segundo golo sofrido e capitularam nos últimos instantes da primeira parte, abrindo a porta à goleada: Tomás Aviles fez autogolo depois de um cruzamento de Doué (44′) e Hakimi, já nos descontos, aumentou a vantagem após assistência de Barcola (45+3′). Ao intervalo, o PSG estava a golear o Inter Miami em Atlanta e tinha pé e meio nos quartos de final do Mundial de Clubes.

Luis Enrique mexeu logo ao intervalo e jogou pelo seguro, retirando os amarelados Marquinhos e Fabián Ruiz para lançar Lucas Beraldo e Warren Zaïre-Emery. A segunda parte foi algo diferente da primeira, com o PSG a retirar alguma intensidade de forma natural e a permitir mais espaço ao Inter Miami, mas o mais importante mantinha-se: os franceses passeavam e dominavam, os norte-americanos viam jogar.

Barcola poderia ter aumentado a goleada já perto da hora de jogo, com um remate cruzado que Oscar Ustari defendeu (58′), e Luis Enrique fez mais uma substituição ao proporcionar o regresso de Dembélé à competição após cerca de um mês de ausência por lesão. O treinador espanhol ainda deu minutos a Lucas Hernández e Kang-in Lee, Kvaratskhelia voltou a rematar por cima (64′) e Barcola também falhou novamente o alvo (69′), Messi ainda forçou Donnarumma a uma defesa apertada com um cabeceamento (80′) e a verdade é que já nada mudou até ao fim.

O PSG goleou o Inter Miami em Atlanta e carimbou o apuramento para os quartos de final do Mundial de Clubes, onde vai defrontar Bayern Munique ou Flamengo, enquanto que os norte-americanos saem assim da competição com apenas uma derrota em quatro jogos.

A pérola

Pode nem sequer marcar, mas a importância de Vitinha na equipa do PSG já não é novidade para ninguém. O único dos três portugueses titulares a não ser substituído, o médio desenhou o livre que deu o primeiro golo de João Neves e esteve na origem dos outros três, criando o espaço e abrindo as linhas de passe necessárias para o desequilíbrio. Sendo já uma evidência, nunca é demais dizer: Vitinha é, atualmente, um dos melhores médios do mundo.

O joker

Sem ser propriamente um goleador improvável, também não é um goleador provável. João Neves apareceu duas vezes no sítio certo ainda na primeira parte e começou a desenhar a goleada do PSG, oferecendo um camada adicional de felicidade a uma exibição sempre competente no meio-campo da equipa de Luis Enrique.

A sentença

Com este resultado, o PSG está apurado para os quartos de final do Mundial de Clubes e vai defrontar o vencedor da eliminatória entre Bayern Munique e Flamengo. Já o Inter Miami, uma das grandes surpresas da competição por ter ficado à frente de FC Porto e Al Ahly no Grupo A, está eliminado — mas despede-se com apenas um derrota em quatro jogos, o que não deixa de ser um rescado positivo.

A mentira

Não é por ter ficado à frente de FC Porto e Al Ahly que o Inter Miami é uma equipa competitiva. Mesmo com as individualidades, de Messi a Busquets e passando por Suárez e Alba, os norte-americanos estão longe de ter a qualidade e capacidade para competir com adversários do nível do PSG.