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Oasis: aconteça o que acontecer, serão "rock and roll stars"

Este artigo tem mais de 1 ano

Começa a nova vida dos irmãos Gallagher, um monstro pop volta a correr o mundo. Se vai correr bem? Ninguém sabe. Mas João Pedro Vala, que sempre preferiu os Blur, aposta mais ou menos nisto.

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Noel e Liam, dois lados da moeda Gallagher, apelido que é igual a combustível de alta instabilidade, a bem de uma legião de fãs que não espera nada menos do que intensidade

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Noel e Liam, dois lados da moeda Gallagher, apelido que é igual a combustível de alta instabilidade, a bem de uma legião de fãs que não espera nada menos do que intensidade

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É já esta sexta-feira, em Cardiff, que começa a tão celebrada digressão de regresso dos Oasis, que, caso os piores cenários levantados pelas casas de apostas não se confirmem, contará com quarenta e um concertos, espalhados por treze países, sem que em nenhum deles Caim Gallagher espete uma guitarrada em Abel.

Infelizmente, não vou poder ir por três motivos: o meu coração pertencerá eternamente aos Blur; nunca tive grande apreço por aquelas canções orelhudas, alteradas geneticamente por dois cientistas de gabardina esverdeadas e cabelo abacaxizado para, mal chegam ao refrão, abrirem os braços e levarem ébrios batalhões anglo-saxónicos de braços erguidos em irish pubs a cantar vagas frases melancólico-romântico-rebeldes; e porque, nos últimos anos, por motivos que pouco vos importará saber, desenvolvi um estranho afeto pelas extraordinárias e discretas competências reveladas pelo meu querido pâncreas no âmbito da regulação da glicose, ao ponto de não estar disposto a trocar tudo isso por um bilhete para ir ver os manos Gallagher. Talvez, afinal de contas, não queira morrer. Talvez, afinal de contas, também eu queira live forever. Quem sabe.

Pois bem, ainda assim, tenho pena de faltar à festa, por motivos que tenho todo o gosto em partilhar convosco.

Não sei se o concerto vai ser bom ou não, mas sei que, a certa altura, ainda antes de o sol se pôr, ainda antes de o concerto começar, um pai, com a palavra Supersonic tatuada no antebraço, e a sua filha de quinze anos, de quem se afastou desde o divórcio e cujos olhos brilharam quando lhe ofereceu no Natal dois bilhetes para o concerto, como não os via brilhar desde o dia, há já muito tempo, em que a levara a um parque aquático no Algarve — e como os seus brilharam também quando a filha lhe ofereceu de volta o segundo bilhete. Dizia eu, um pai e uma filha vão apertar-se nas primeiras filas e abraçar-se aos primeiros acordes da primeira música, seja ela qual for.

Os Oasis estão de volta. E então?

Não sei se a digressão vai chegar ao fim ou não, mas sei que em Cardiff, quando Liam anunciar o Bring It On Down, o Josh, um miúdo de dezassete anos vai perguntar aos dois amigos com que viajou desde Newcastle se querem cerveja. Todos vão querer, claro, ele vai sair dali, vai comprar três pints e, ao tentar encontrá-los de novo, vai ouvir o início de Rock and Roll Star, a música favorita do irmão, e vai ficar parado por uns minutos, sem se aperceber de que mesmo ali ao lado está uma alemã, dois anos mais velha, que vai brindar com ele, que vai cantar o refrão com ele, que vai dividir uma das cervejas com ele e, por mais que o Josh negue, por mais que evoque umas obscuras férias de família em Marbelha, o nosso amigo vai enfim beijar uma miúda pela primeira vez e os dois vão se deixar ficar por ali, de mãos dadas, até ao fim do concerto, para consternação e desidratação dos amigos de Josh.

(Quando penso nisso, muitas das melhores memórias da minha vida são de concertos.)

Não sei se vai haver cabeçadas à Cais do Sodré em palco, mas sei que dois amigos galeses vão acender o segundo parpalho da noite ao som de Champagne Supernova e, quando o terceiro mosqueteiro daquele pequeno clã regressar da casa-de-banho e se aproximar precisamente no momento em que se cantar “Where were you while we were getting high?”, vão rir às gargalhadas e vão abraçar-se, numa tentativa atabalhoada, a que só naquele estado se permitem, de confessarem quanto gostam uns dos outros.

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Serão quarenta e um concertos, espalhados por treze países, com estes dois sempre a disputar o protagonismo

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Não sei se haverá moche, mas sei que um grupo de galegas, apesar de não saberem lá muito bem que raio quer dizer “And after all, you’re my wonderwall”, vai chorar com aquele verso que diz que “I don’t believe that anybody feels the way I do about you now”, e que já bem mais do que uma vez algum rapaz que jurava ser do rock lhes cantara à viola, sentados nas dunas ou na cama do seu quarto, num fim de semana que os pais foram passar a Viana do Castelo. E todas vão chorar, claro, não por saudades dessas noites apesar de tudo dececionantes, não por na altura terem acreditado na cantiga do bandido, mas porque para o ano entram cada uma numa universidade espanhola diferente e não têm a certeza se a amizade sobreviverá, apesar de terem jurado o contrário em rigorosamente todas as stories que fizeram ao longo desta viagem.

Não sei se esta será a primeira de várias últimas digressões dos Oasis, mas sei que, quando no encore tocarem a Don’t Look Back in Anger, as câmaras viradas para o público vão filmar uma rapariga (de biquíni e com uma bandeira inglesa pousada nos ombros) às cavalitas do novo namorado, que conheceu há uns meses num jantar em casa de uma amiga e que a trata muito melhor do que o anterior, um tipo às direitas que nunca a vai trair nem faltar aos seus anos para ir ver um jogo do Coventry a Middlesbrough. Ainda assim, é desse canalha — que sabe Deus porquê sempre a tratou por Sally — que a Lily se vai lembrar quando abrir muito os braços, com um canto da bandeira em cada mão e gritar “You ain’t ever gonna burn my heart out”, sem estar certa de que isso seja mesmo verdade.

Apesar de não ser grande fã dos Oasis, vou ter pena de não estar lá. Tenho sempre quando vejo a vida acontecer lá longe de mim.

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