Um dos principais desfiles do calendário do Portugal Fashion quase não aconteceu. “Foi das semanas mais complicadas que tive na minha vida”, desabafa Miguel Vieira, minutos antes de apresentar “Uma Noite no Jardim”, a sua coleção primavera/verão 2026, que já tinha sido revelada na Semana da Moda de Milão e agora é exibida no Museu do Carro Elétrico, no Porto. “Esta coleção tinha que chegar na sexta-feira passada a Portugal. Sexta-feira não chegou, sábado também não, domingo também não, segunda também não, terça não, quarta não, quinta não. E hoje, à hora do almoço, eu tinha duas hipóteses: ou cancelar o desfile hoje ou fazer acontecer. E felizmente, meia hora antes, chegou a coleção e conseguimos trabalhar“.
Para Miguel Vieira, a culpa é da fast fashion. “Diariamente chegam à Europa e Estados Unidos, vindos da China, 80 boeings carregados de mercadoria. Nós designers não fazemos as coisas massificadas. As sheins da vida têm prioridades, são as primeiras a ser entregues, porque têm contratos com as grandes empresas de distribuição e os outros a seguir são esquecidos. É o nosso caso”. Miguel Vieira diz que chegou a ir ao armazém e a procurar a coleção por entre os contentores. Depois de “sofrer até às últimas”, a coleção finalmente pode ir à passarelle.
▲ Miguel Vieira assume que foi uma semana complicada à espera de que as peças da coleção chegassem de Milão
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
A escuridão revela-se na paleta monocromática, enquanto os detalhes de flores trazem o ar primaveril. Coordenados com fitas de cetim cruzadas em tecidos fluidos fundem elegância e leveza, os bordados à mão, pedrarias e berloques inspiram luxo enquanto os colares em malha metálica trazem o tom rebelde. Já os looks pretos refletem uma coleção que preza por ser discreta, sóbria e refinada.
“Quando se fala de Miguel Vieira, falava-se sempre da cor preta. Durante muitos, muitos anos, apresentei sempre preto nas minhas coleções. Então, comecei a pôr muita cor, muita cor, muita cor. E, ultimamente, a coleção tem sido muita cor”, explica o designer. “Este ano achei que, após um interregno de três estações no Milão Fashion Week, que era uma data para mim bastante especial. E eu queria retornar, outra vez, ao meu ADN”.
Pausa para repensar e tempo de transformação
Assim como Miguel Vieira, Hugo Costa também foi ao preto e também apresenta um regresso. “Acabamos o desfile agora e houve pessoas que vieram ter comigo, que me cumprimentaram e disseram: ‘Que bom te ver de novo“, diz o designer, depois dos abraços emocionados ao final do desfile. A coleção outono/inverno 2025 chama-se “Luto” e foi exibida pela primeira vez. “Não tem a ver propriamente com a perda de alguém, tem a ver com uma reflexão de valores, com toda uma passagem, uma fase difícil de saúde mental que de certa forma afeta todo o processo e eu, como sou um designer muito transparente, que não me limito a fazer coleções de forma irrefletida, deixo-me sempre afetar pelo meu estado de espírito quando estou a fazer uma coleção”, explica o designer, que assume uma transformação, com mudanças de silhuetas e alguns elementos novos.
Ugo Camera
Os casacos oversized continuam cá, mas também há calças num corte flare. Os pretos também são maioria, mas há cor, nos desenhos num estilo mancha criados artesanalmente pelo designer e um estagiário do atelier. “O Tomás tem muita potencialidade com a manualidade e uma ligação à rua muito forte, com o grafite”, conta Hugo Costa, que assume que as cores acabaram por mudar no processo. “O rosa é uma consequência de um tingimento 100% manual, mas a cor original é o vermelho. Como nós gostamos dessas surpresas, deixámos ficar”. Peças que devem continuam a refletir o estilo urbano do designer, mas com uma mudança que considera importante e necessária.
Durante a pausa do Portugal Fashion, Hugo Costa continuou a trabalhar, mas reconhece que a plataforma oferece oportunidades e visibilidade diferentes. Para não “cair no esquecimento”, diz que os criadores precisam de encontrar formas diferentes de promover as coleções. “Tentámos fazer as coleções na mesma. Houve uma que, por causa do processo, também ficou em suspenso. Porque eu também precisei, emocionalmente, de suspender. Aproveitei a pausa. Não escondo que aproveitei o momento para também fazer uma pausa e repensar tudo. E a partir daí foi fazer shootings, fotografar, fazer sample sales… Fizemos um sample sale, por exemplo, na altura de Natal, em que fotografámos tudo misturado, em que pegámos em coisas antigas só para vender amostras e fizemos um style completamente novo, que ninguém esperava que existisse daquela forma.”
Agora, mostra-se feliz e grato por regressar a esta passarelle. E, como Miguel Vieira, acertou os detalhes finais até à última hora. “Quando recebi o convite, nós tínhamos a coleção praticamente feita e planeada para a shooting. Mas para fazermos um desfile temos que equilibrar as coisas de forma diferente, temos que ter muito mais calças, muito mais elementos, muito mais de desconstrução, de ajustamentos da coleção, multiplicação de elementos”, diz o designer, sobre a coleção que já estava a ser pensada desde o final de 2024. “Apresentei inverno porque quero vender esta coleção a partir de setembro. Mas começou a ser feita na altura certa da estação, portanto, seria para ser apresentada não em março, mas em janeiro. Já tínhamos uma parte significativa da coleção feita, depois entrei aqui num processo em que precisei de algum tempo. Depois foram mais dois meses que terminaram ontem à noite, se calhar hoje de manhã.”
O Observador está instalado no Porto a convite do Portugal Fashion.