Horas antes, Rúben Neves e João Cancelo tinham cumprido o jogo mais difícil das próprias vidas. Horas depois, era a vez de Pedro Neto cumprir o jogo mais difícil da própria vida. Em Filadélfia, o internacional português era titular do Chelsea contra o Palmeiras depois de ter escolhido ficar no Mundial de Clubes e homenagear Diogo Jota e André Silva dentro de campo — mas ninguém escondia o quão difícil iria ser.

Os blues deixaram a decisão do lado de Pedro Neto, permitindo que o jogador se deslocasse a Portugal para estar presente nas cerimónias fúnebres de Diogo Jota e do irmão, e tanto Enzo Maresca como Marc Cucurella lembraram que todo o plantel estaria ao lado do português. “O treinador e ele é que têm de decidir, mas o importante é que o Pedro se sinta bem. O futebol é secundário, mas amanhã é um longo dia e a decisão que tomarem será sempre boa. De manhã ele estava triste e não estava no seu melhor. Mas tentámos manter-nos unidos e à tarde ele estava um pouco melhor. Disse-lhe que se jogasse ia marcar porque era esse o destino. Espero que possamos mostrar-lhe os bons amigos que somos e dedicar-lhe um golo”, disse o internacional espanhol, confirmando que o avançado não marcou presença no treino de quinta-feira.

Neste difícil contexto, o Chelsea defrontava o Palmeiras na madrugada deste sábado e nos quartos de final do Mundial de Clubes — já com a certeza de que o adversário seguinte, nas meias-finais, seria o Fluminense, que horas antes tinha derrotado o Al Hilal. Em Filadélfia, os ingleses procuravam continuar em busca de um troféu para juntar à Liga Conferência, enquanto que os brasileiros tinham a intenção de garantir que uma equipa do país estaria presente na final.

Em Filadélfia, no Lincoln Financial Field, Enzo Maresca não contava com Moisés Caicedo por castigo e tinha Nkunku com Pedro Neto e Cole Palmer no apoio a Liam Delap, sendo que Reece James começou por ser dado como titular e acabou por ser substituído por Andrey Santos. João Pedro, avançado contratado esta semana ao Brighton, já estava no banco. Já Abel Ferreira, que não tinha os castigados Gustavo Gómez e Joaquín Piquerez, apostava em Bruno Fuchs e Micael no eixo defensivo e tinha o crónico Richard Ríos a organizar o jogo a partir do meio-campo.

Antes do apito inicial, tal como tinha acontecido no jogo anterior em Orlando, foi cumprido um minuto de silêncio em memória de Diogo Jota e André Silva onde Pedro Neto, que também foi colega de equipa do avançado no Wolverhampton para além da Seleção Nacional, segurou uma camisola dos blues com os nomes dos dois irmãos com a ajuda do capitão Enzo Fernández. O Chelsea começou claramente melhor, com Cole Palmer a deixar um aviso com um remate de fora de área que Weverton defendeu (4′), e não demorou muito a abrir o marcador.

À passagem do quarto de hora inicial, o avançado inglês recebeu de Trevor Chalobah à entrada da grande área, rodou para ultrapassar dois adversários e rematou rasteiro e colocado para fazer o primeiro golo da conta pessoal no Mundial de Clubes (16′). Enzo Fernández poderia ter aumentado a vantagem pouco depois, com um pontapé de fora de área que Weverton encaixou (20′), e o Palmeiras começou a tentar reagir a partir da meia-hora.

Os brasileiros ainda tiveram uma boa oportunidade para empatar, com um cabeceamento de Vanderlan que Robert Sánchez defendeu (42′), mas a verdade é que o resultado já não se alterou até ao fim da primeira parte. Ao intervalo, o Chelsea estava a vencer o Palmeiras em Filadélfia e colocava-se a 45 minutos do apuramento para as meias-finais.

Nenhum dos treinadores mexeu ao intervalo e o Palmeiras prolongou a reação que tinha demonstrado na ponta final da primeira parte — e nem sequer precisou de dez minutos para empatar. Estêvão, que na verdade já está vendido ao Chelsea e será reforço dos ingleses daqui a poucas semanas, recebeu na área e atirou certeiro já quase sem ângulo, num golo de belo efeito que surpreendeu Robert Sánchez (53′). 

Enzo Maresca reagiu com duas substituições, lançando Madueke e estreando João Pedro, mas os blues continuavam a ter muita dificuldade para recuperar a superioridade e eram os brasileiros quem criava mais situações de perigo. Abel Ferreira mexeu já dentro dos últimos 25 minutos, colocando Maurício e Paulinho, e o jogo tornou-se cada vez mais partido e refém das transições rápidas e dos rasgos individuais.

Já nos últimos dez minutos, um lance caricato tornou-se decisivo: Malo Gusto tentou cruzar na esquerda, a bola desviou em Agustín Giay e Weverton teve uma péssima abordagem, com o autogolo a ser mesmo atribuído ao guarda-redes (83′). No fim e já depois de Dário Essugo ter direito a alguns minutos, o Chelsea venceu o Palmeiras e eliminou os brasileiros para carimbar o apuramento para as meias-finais do Mundial de Clubes, onde vai encontrar o Fluminense.

A pérola

Finalmente decidiu aparecer. Depois de quatro jogos apagados e desapontantes, Cole Palmer mostrou-se ao mais alto nível na primeira parte e foi o grande desequilibrador do Chelsea — para além de ter feito o primeiro golo do jogo. O avançado inglês não marcava de bola corrida desde janeiro, há vários meses, e parece querer aproveitar o Mundial de Clubes para reencontrar a melhor performance.

O joker

Sem que ninguém estivesse à espera, Malo Gusto. O lateral francês de 22 anos, formado no Lyon e no Chelsea desde 2023, acabou por ser protagonista no lance absurdo que deu o golo da vitória dos ingleses. Acima de tudo isso, tem sido uma presença consistente e coerente na linha defensiva de Enzo Maresca, oferecendo segurança defensiva e critério ofensivo.

A sentença

Com este resultado, o Chelsea garantiu o apuramento para as meias-finais do Mundial de Clubes e eliminou o Palmeiras, marcando encontro com o Fluminense que, horas antes, afastou o Al Hilal. Ainda assim, na próxima ronda, Enzo Maresca já sabe que não pode contar com Liam Delap e Levi Colwill, que viram cartão amarelo e estão castigados.

A mentira

O Palmeiras não sai derrotado do Mundial de Clubes. A equipa de Abel Ferreira venceu o Grupo A à frente de Inter Miami, FC Porto e Al Ahly, eliminou o Botafogo e deu muito trabalho ao Chelsea, sofrendo um golo inglório já perto do apito final. De forma clara, os brasileiros mereciam mais e poderiam facilmente ter passado às meias-finais.