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Portugal Fashion. Susana Bettencourt levou tricotadeiras para a primeira fila e Pé de Chumbo apresentou coleção crossover no último dia

Este artigo tem mais de 1 ano

No quinto dia também houve espaço para a coleção de Estelita Mendonça, apresentada na Rua do Ouro, e para as novidades da NOPIN e do designer brasileiro Davii.

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“Quando vi a minha malinha fiquei emocionada”, diz-nos, uma das cinco tricotadeiras que ajudou Susana Bettencourt na confeção de pequenas bolsas que fazem parte da coleção que apresentou no último dia do Portugal Fashion. Sentada ao seu lado, na primeira fila, estava também Graça das Dores de Sousa Moreira, que tricotou uma bolsa de telemóvel, e Maria Adelaide de Jesus Almeida, que nos conta com orgulho que tem 5 peças suas na coleção. Aos 89 anos, sentou-se pela primeira vez para assistir a um desfile de moda e assumiu-se feliz por ter a oportunidade, depois de uma vida inteira a tricotar.

São pequenas malas em croché, feitas em parceria com o Lar e Centro Social de Vila Boa de Quires. “Queremos cada vez mais que o atelier não seja só um atelier, que seja um sítio de troca, que possam vir trabalhar connosco, que os mais velhos possam ensinar aos mais novos e que os mais novos consigam fazer companhia aos mais velhos. E nesta coleção também conseguimos incluir essa parte social, que para mim é muito importante”, diz ao Observador a designer, que trouxe a coleção “Erro” para o Museu do Carro Elétrico.

Renda de bilros e crochê surgem combinados com jacquard digital e design gráfico, nas cores que já são o ADN da marca. “A volta às raízes foi um fundir do digital num próprio padrão com o início do início das minhas malhas, que foi aprender a fazer crochê com os gráficos que tínhamos nas revistas antigas. Portanto, temos os gráficos das revistas antigas em cima do que seria um padrão Susana Bettencourt digital com degradês.” O resultado são peças que artesanais — construídas também com a ajuda dos estagiários. “Esta coleção é o pináculo de todas as malhas manuais que nós fazemos. Mostra muito que a Susana Bettencourt não é só um atelier, é uma escola, porque tivemos aqui duas pessoas que aprenderam a fazer crochê e malha connosco e já fizeram estas peças de uma ponta até a outra”, destaca a designer. “Gosto de ver os meus alunos, os meus estagiários, depois com as suas próprias marcas, com as suas próprias conquistas, e esta coleção mostra muito isso.”

▲ Graça das Dores de Sousa Moreira, Maria Adelaide de Jesus Almeida e Maria de Fátima Rocha Luís Pinto, foram três tricotadeiras que trabalharam em peças da coleção de Susana Bettencourt

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

Outra novidade da coleção é uma linha de sandálias, depois de há 10 anos ter lançado uma coleção de calçados. “Vou fazer uma nova tentativa, com as nossas cores, pela qual as pessoas nos conhecem, o preto, o branco e o azul, para também, uma vez mais, ser a ode do que é que é o nosso ADN.”

A coleção começou a ser preparada em novembro de 2024, e Susana assume que daqui para frente tem a intenção de manter uma coleção por ano, o que permite uma produção mais artesanal e de slow fashion. A designer diz ainda que ao longo da pausa do Portugal Fashion procurou manter a marca ativa através das redes sociais e em coleções cápsulas. “Confesso que o facto de estarmos nesta crise de guerras, de tudo o que nós estamos a passar, que é difícil perceber se a nossa redução, o nosso impacto, o facto de falarem ou não da marca, se é ou não proveniente de não termos tido Portugal Fashion. Tivemos sim a parceria com a Farfetch, promovida pelo Portugal Fashion, e fotografámos e fizemos os vídeos da coleção, mas não é a mesma coisa que ter um evento destes, de partilhar estas emoções todas com o público.”

Estelita Mendonça leva inspiração oriental para Rua do Ouro

Pela manhã, um desfile off location abriu os trabalhos do último dia de Portugal Fashion. Vinte minutos antes dos manequins adentrarem a passarelle, ainda havia pessoas a correr no passeio da Rua do Ouro, na margem do rio. A brisa fresca da manha fez amenizar (um pouco) o calor de quase 30 graus. Aos poucos as pessoas juntaram-se, sentadas no muro baixo que divide a zona dos peões da estrada. Quando a música com inspiração oriental começou a tocar, atraiu os curiosos que passavam pelo local. Um ciclista aproveitou a sombra da paragem do autocarro para fotografar com o telemóvel as peças que passavam a desfilar diante da paisagem de verão.

▲ O desfile de Estelita Mendonça na Rua do Ouro

A coleção primavera/verão 2026 de Estelita Mendonça transparece o ADN da marca. As cores vivas, como o laranja ou o verde néon e a mistura de padrões e texturas, em recortes geométricos, fruto da reutilização de tecidos. “Há muita reutilização de robes e de kimonos. Há muita seda vintage. Tenho muitas tendas reutilizadas, materiais como os poliésteres e poliamidas. Gosto de pegar numa coisa que já existe, que é usada para outro fim e transformá-la em roupa. Isso foi sempre a ideia desde o início”, explica o designer.

Estelita assinala que este é um regresso ao Portugal Fashion, mas que não parou durante a pausa de quase dois anos do evento. “Tive imenso trabalho este ano, mas tendo sempre a falta de mostrar o que estás a fazer, de pessoas que conheçam o que estás a fazer. A montra é sempre uma mais-valia, não é?” O designer considera ainda que o formato anual pode ser mais proveitoso. “Acho que nós temos um país muito pequenino para termos duas semanas de moda, duas vezes por ano. O que eu sempre achei e continuo a achar. Acho que uma marca tem que fazer duas coleções, ou então fazer uma coleção híbrida. Se eu só vou mostrar uma, só mostro uma. Se eu conseguir mostrar as duas ao mesmo desfile, vou mostrar as duas”, garante, sobre o futuro das suas participações no certame.

As ondas sonoras e NOPIN e o safari de Davii

Mais tarde, já no Museu do Carro Elétrico, a NOPIN apresentou a coleção primavera/verão 2026. Chamada “Soundwave”, os tecidos simulam ondas sonoras onde cada peça representa uma frequência emocional, do grave aos agudos. Preto, azul, amarelo mostarda, rosa e off white fazem parte da paleta de cores que se misturam nas peças de alfaiataria com texturas como o acolchoado ou as pérolas bordadas. Tal como outros designers associados ao Portugal Fashion, a produção da marca de Catarina Pinto é sustentável e portuguesa, com matéria prima como o algodão, o linho e o poliéster reciclado. A designer agradeceu o público de mãos dadas com a relações públicas Cláudia Jacques, que também desfilou as peças da marca.

O designer brasileiro Davii trouxe à passarelle a coleção “Moon Safari”, que mistura um lado tecnológico e espacial com a natureza. A ideia está representada nas combinações entre tecidos como o couro ou o neoprene misturados com outros mais fluidos e transparentes. Contrastes também nas silhuetas, com corpo estruturado, ombros retos e cavas dos braços mais abertas, enquanto as saias vinham soltas e com cauda. Na paleta de cores, predominou o branco, o verde oliva e o preto.

▲ Davii levou à passarelle uma mistura de tecidos tecnológicos e naturais

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

Pé de Chumbo tem crossover de coleções

A Pé de Chumbo fechou o Portugal Fashion com um crossover de coleções, uma opção que parece vir a ser mais frequente com a mudança para um evento anual. Na passerelle, viu-se peças da coleção outono/inverno de 2025, já exibidas em showroom; e outras novidades de primavera/verão 2026, que estará em setembro em Milão, Paris e na Arábia Saudita. Vestidos artesanais em tons de preto, prata e ouro, em diferentes tecidos e fios, que representam o ADN da designer Alexandra Oliveira. “Tenho uma coisa que nunca fiz, que são umas franjas. E nós temos nesta estação, já na de inverno e agora, peças muito justas, muito junto ao corpo, mais sexy do que é normal”, diz.

As peças cor de ouro e as novidades da coleção tem muita relação com um mercado importante para a Pé de Chumbo, que é o da Arábia Saudita. “Tenho que ter sempre muita atenção ao mercado. Porque tenho uma estrutura com 20 pessoas a trabalhar. Não posso fazer coisas assim porque gosto de as fazer. Tenho que pensar em vender para conseguir manter a estrutura que tenho”, justifica a designer, que confeciona todas as peças no próprio atelier, num processo manual e artesanal.

Alexandra Oliveira diz que já sentia falta de apresentar coleções no Portugal Fashion. “Apesar do desfile aqui não nos trazer grande retorno, é a forma de mostrar o nosso trabalho. E o ego fica lá em cima”, afirma a designer, que apoia o formato anual. “Não me incomoda que seja uma vez por ano. Claro que só vamos mostrar uma coleção. Mas se for nesta altura, no próximo ano estarei preparada para mostrar a minha coleção de verão”, diz a designer. “Para mim é muito bom em julho. Porque as ações de venda são em setembro, nas semanas de moda. Se trouxer para aqui a coleção de verão, posso enviar para todo o lado o desfile.”

▲ O desfile da Pé de Chumbo decorreu em volta de um concerto de fado

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

A noite terminou com um desfile concerto. A coleção da Pé de Chumbo foi apresentada durante a performance de um conjunto com 10 músicos. Se o fado marcou o arranque da nova experiência Portugal Fashion no Douro, também foi com fado que se encerrou uma semana da moda muito antecipada, na cidade que a viu nascer há 30 anos.

O Observador instalou-se no Porto à convite do Portugal Fashion.

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