1241kWh poupados 1241 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

De "Scarface" à Croisette, do casamento de Yoko Ono às canções de A$AP Rocky: 55 anos de armações icónicas com Linda Farrow

Este artigo tem mais de 1 ano

De Londres para o mundo, em 1970 Linda Farrow colocou os óculos escuros no mapa da moda, elevando-os a itens de culto e luxo. Mais de meio século depois, em Lisboa, recordou a sua história.

Fã das lentes claras, Linda reviu em Lisboa uma história que ficou em stand by no final dos anos 80. Em 2003, depois de revirar antigas caixas em casa, o filho Simon resgatou as primeiras criações e relançou a marca
i

▲Fã das lentes claras, Linda reviu em Lisboa uma história que ficou em stand by no final dos anos 80. Em 2003, depois de revirar antigas caixas em casa, o filho Simon resgatou as primeiras criações e relançou a marca

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Fã das lentes claras, Linda reviu em Lisboa uma história que ficou em stand by no final dos anos 80. Em 2003, depois de revirar antigas caixas em casa, o filho Simon resgatou as primeiras criações e relançou a marca

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Darcy dispõe as fotos com cuidado no expositor e antecipa temores no regresso ao Reino Unido. “Tenho que ter muito cuidado com as malas!”, admite a assistente, que transportará consigo relevante espólio de Linda Farrow no final da mostra, no interior da André Ópticas. Dir-se-ia difícil, mas há algo mais valioso do que um conjunto de armações luxuosas da empreendedora que em 1970 se atirou ao mercado dos óculos escuros num país onde o sol mal ameaça as ruas — ainda hoje, apesar de todas as alterações climáticas, garantem que o cinzento londrino dispensa lentes protetoras. Falamos do álbum de família, das memórias da infância às imagens dos descendentes, das inspiradores viagens, e ainda dos esboços com que ensaiou algumas das criações que hoje carregam o estatuto de icónicas. Tudo isto, parte do acervo disposto sobre a vitrine, continua a garantir que esta é mais uma história de histórias do que de muitos pares coloridos, angulares, arrojados.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Linda Farrow e o filho Simon, ao leme da marca e da direção criativa

De visita à loja multimarca da Avenida da Liberdade, em Lisboa, Linda, que já alcançou a marca dos 80, assinalou mais de meio século de uma história reativada pelo filho Simon Jablon, atual proprietário e diretor criativo, no começo do novo milénio. “É muito excitante reabilitar a marca, estou muito orgulhosa por ver como evoluiu tudo nos últimos anos. Em 1970, quando comecei com o meu marido, foi totalmente diferente. Estamos a falar de outro ambiente, sendo que nessa altura não tínhamos noção disso, do que ia mudar. Usávamos faxes!”, descreve Linda. “Era sobretudo difícil vender no Reino Unido. Os óculos não eram um objeto de moda, na Europa talvez, mas nós mal tínhamos sol. Decidimos aproveitar essa lacuna no mercado, usar cores mais vibrantes“.

Num contexto de pós-guerra, Farrow cedo se interessou pelo design, passando horas a desenhar intrincados padrões nos seus cadernos. Graduada pelo London College of Fashion, a afinidade com o setor haveria de exprimir-se de forma mais clara unindo o entusiasmo pelo desenho com o background do falecido marido, Julian Jablon, que detinha uma empresa de óculos. Europa fora, colecionaram viagens e planos. Mas nessa “empolgante” Londres de finais de 60, nem a mania dos The Beatles, a audácia da minissaia, ou a vibração de Carnaby Street invertia a tendência: as armações costumeiras, invariavelmente pretas ou tartaruga, dominavam o gosto e uma indústria exclusivamente focada na funcionalidade. E os conceito de moda, statement, e lifestyle teriam que esperar vários anos até vingar. “Tivemos muitos compradores da Europa, mas o começo foi lento. Não havia nada para uma jovem consumidora feminina e de repente, aparecíamos com óculos amarelos e cor-de-rosa. O arranque dos anos 70 trouxe essa cor que faltava e gradualmente a coisa foi andando. Era divertido. Uma aposta de risco, claro, como qualquer negócio novo. Fomos de degrau em degrau”, recorda Linda.

▲ Alguns dos desenhos e modelos pioneiros, que estiveram expostos em Lisboa

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Etapas que rapidamente conduziram a marca ao topo da consagração nessa década de 80, com toda a criatividade que saía do pequeno estúdio inaugural em Marylebone, onde se cruzava a excentricidade da Biba com as linhas vanguardistas da Bauhaus. Os armazéns Selfridges e Harrods admitiam concessões de Linda Farrow, e a designer desenhou óculos de sol para Yves Saint Laurent, Balenciaga, Sonia Rykiel ou Emilio Pucci.

Um dos momentos mais expressivos no âmbito da cultura pop surge em 1983, quando Al Pacino, no papel de Tony Montana, em Scarface, de Brian de Palma, usa uns óculos Linda Farrow ao estilo aviador oversized com contorno dourado. Para o seu casamento com John Lennon, Yoko Ono elegeu um formato redondo de proporções avantajadas que tornar-se-iam igualmente lendárias.

“O meu pai vinha de um contexto ótico mais tradicional e a minha mãe queria algo mais de moda, mais próximo da sua era”, reforça Simon, o mais novos dos três irmãos, que deram ocupação de sobra a uma mãe empreendedora que a certa altura se viu forçada a abrandar os motores. Desdobrada em tarefas, Linda enfrentou ainda novos sinais dos tempos. “Vieram os computadores, tudo ficou mais desafiante.” O negócio arrefeceu em definitivo em finais de 80, inícios de 90, quando a entrada em cena dos grandes grupos de licenciamento alterou as regras do jogo e encheu o mercado de designs replicados, obrigando os negócios de dimensão familiar e cunho mais autoral a recuar.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A evocação de um acessório de guarda-roupa para a eternidade, com “Scarface”

Mas as “big colorful frames” que a marca com o seu nome celebrizou não estavam prontas para passar o resto da vida numa caixa num velho depósito. Digamos que estiveram em hibernação aguardando o timing certo para o devido come back. “Claro que tinha uma noção do que a minha mãe tinha feito, mas era jovem, não pensava muito nisso. Dizer isto em voz alta hoje é de loucos. Em miúdo, pensas que é só a tua mãe. Uns anos mais tarde, calhou um dia ir limpar o sótão, e encontrei estes desenhos antigos, foi um momento revelador”, recorda Simon sobre esse achado precioso. Em 2003, com apenas 24 anos, começou por lançar a Linda Farrow Vintage, mas o arquivo original rapidamente foi solicitado por cadeias como a Browns e Harvey Nichols, e haveria de motivar profícuas colaborações com grandes nomes da moda e do design contemporâneo, como The Row, Raf Simons, Dries van Noten, Jeremy Scott ou Alexander Wang. E ainda de brilhar no rosto de celebridades como Rihanna, as irmãs Hadid ou o casal Bieber, e de se afirmar como acessório-chave nos photocalls de festivais de cinema como Cannes (Halle Berry, por exemplo, não dispensou a coleção cápsula Linda Farrow x Jacquemus La Croisière). Quem diria que, chegados a 2013, o rapper norte-americano A$AP Rocky cantaria “I love your Linda Farrow”, deixa extraída do tema Fashion Killa.

▲ Um regresso aos primeiros anos, com Linda Farrow

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“O que é incrível nos 60 e 70 é que tudo era novo. Hoje, por mais arrojado que seja o design, estamos sempre a referenciar algo que já aconteceu. Aqueles modelos tinham sido fraturantes no seu tempo, enquanto que em finais de 90 e 2000 os modelos tornaram-se muito genéricos, a qualidade baixou, o mercado massificou-se, uma tendência que entretanto também foi desaparecendo”, nota o diretor criativo. “Resgatámos a criatividade trazendo esses modelos de volta, que foi o primeiro passo. Relancei a marca com os mesmos produtos originais e acabou por se lançar a ela própria de novo. Não havia grande plano. Mostrámos os modelos na London Fashion Week e descolou”, explica ainda o atual CEO da marca Linda Farrow, que conheceu um sucesso significativo depois dos constrangimentos impostos pela Covid-19.

“As coisas melhoraram, pudemos refletir e mudar algumas coisas, deixar cair as coisas que nos estavam a distrair, focarmo-nos no que interessa. Como em todos os negócios, há imensos detalhes de gestão diária e produção que são invisíveis e que podem consumir o seu tempo. Mas o essencial é ter tempo para desenvolver o produto e a sua história. Cada estação estamos a desenvolver novos modelos mas a história mais importante é a da Linda. A importância da marca é essa, muita gente não conhece essa história e eu esforço-me por recontá-la”, insiste Jablon, cuja mãe e fundadora é agora o rosto da nova Coleção Iconic, uma série de reedições de edição limitada que celebra sua carreira na moda. Desta fazem parte, desde logo, o modelo Lila, uma armação sem rebordo de tamanho oversized com lentes coloridas que remonta ao início da década de 1970. Originalmente fabricada a partir de aço inoxidável, está agora disponível em titânio japonês banhado a ouro de 22 quilates com sete opções de cores para as lentes.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Algumas das imagens do álbum particular que viajaram até Lisboa para o lançamento da nova coleção Iconic, na André Ópticas

Peças na casa das centenas (ou mesmo milhares) de euros, linhas como a The Fine Jewellery podem atingir dezenas de milhar de euros mesmo em plataformas de revenda como a Vestiaire Collective, elevando os níveis de culto e desejo, com o ouro e diamantes a juntarem-se à festa. Se o design é inglês (com flagship store instalada em pleno Mayfair), o fabrico é japonês.

A trajetória de Farrow e da atual liderança no seio do clã tem pontos de contacto com a aventura de Plínio e Ana Leal, o casal que em 1981 abriu a primeira loja na Rua da Figueirinha, em Oeiras. Na altura, tinha 20 anos. Plínio tinha 22. André, filho do casal e inspiração para o nome da loja, tinha nascido há três meses. Começaram como vendedores, também eles revolucionaram o mercado dos óculos em Portugal, e foram expandindo a sua coleção, acumulando atualmente centenas de modelos raros. O expoente máximo foi a abertura do seu próprio atelier, no endereço do Chiado da André Ópticas, onde os caminhos da ótica e da moda continuam a cruzar-se — e inevitavelmente com Linda Farrow.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

André e a mãe, Ana Leal, dois dos rostos da André Ópticas, fundada em 1981

“Acho que introduzimos aqui a marca há pelo menos 16 anos, talvez até mais. Cresci no meio e se estás na indústria tens que conhecer a Linda Farrow, e o impacto que teve na indústria. O essencial neles é o design e a qualidade“, define André, notando como mesmo no seio da mesma marca o mercado vai pedindo diferentes criações. Mas há padrões que se mantêm. “Vemos os óculos como a invenção da roda, são um acessório super poderoso de expressão individual. Queremos peças únicas para pessoas únicas como são os nossos clientes. Penso que o utilizador Linda Farrow gosta de histórias, são apaixonados por eyewear e conhecedores apurados da marca, gostam de detalhes. Por exemplo, a Linda está a usar uns aviator. A Ray Ban tem aviator, a Cartier também, mas estes têm detalhes especiais por trás.”

A carteira de clientes pode assumir diferentes perfis na estrita distância de metros, que é como quem quem diz os escassos 10 minutos que separam a morada da André Ópticas na Avenida da Liberdade — de mood “mais extravagante, mais de fazer parar o trânsito”, e a do Chiado, “mais clássico”. Em qualquer dos casos, informação é poder e critério, até quando o assunto é escolher os próximos óculos escuros. “O que mais mudou nestes anos? Temos um público muito mais conhecedor e muito mais marcas a emergir no mercado. Mudou-se o mindset no uso dos óculos, passámos a ter vários porque fazem parte dos complementos. São um acessório de moda”, defende a fundadora Ana Leal. “Os óculos adquiriram este estatuto nos últimos 15, 20 anos. As pessoas não nos visitam porque precisam de ver bem. Além de precisarem de uma prótese, dão realmente valor ao objeto, e veem-no como parte da sua expressão, tal como uns sapatos ou um cinto. E hoje procuram-nos cada vez mais em contexto de atelier, para fazer algo personalizado”, reforça o filho.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

De Jeremy Scott a Agent Provocateur, a marca Linda Farrow assinou algumas das colaborações mais arrojadas, material fértil para coleccionadores

Simon Jablon subscreve a ideia de que apesar da vastíssima oferta, ou talvez devido a esse mesmo excesso, o processo bespoke é dos mais interessantes. “Há tantas variáveis na cara de alguém. Quando as pessoas chegam e me dizem que nada lhes fica bem, eu demoro segundos a resolver o problema”, confia o atual responsável da Linda Farrow, fiel à “elegância discreta” dos modelos da Black Series, a linha masculina da casa. Quanto a Linda, não perde de vista as lentes mais claras, que permitem circular dentro de portas com o máximo de conforto — sem prescindir do estilo.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.