Os bancos grandes em mármore do Alentejo que estão mesmo no meio da sala não entraram facilmente. Ricardo Preto ri-se ao recordar a estrutura necessária para num sábado de manhã as pedras serem colocadas dentro do prédio histórico, no número 12 da praça dos Restauradores, em Lisboa. O projeto é de Inês Cortesão, da Bica Arquitetos, que teve o desafio de transformar os três andares num espaço que respira ao mesmo tempo juventude e luxo. Ou melhor, streetwear high-end. É o que uniu os sócios Rafael Benzinho, Francisco Tilli, Tiago Fonseca e Nuno Mendes — o jogador do Paris Saint-Germain e da Seleção Nacional — ao designer que em janeiro deixou a posição de diretor criativo no grupo Amorim Luxury.
A nova concept store da Kolab teve um soft opening em maio, mas esta terça-feira, 15 de julho, anunciou oficialmente o início das atividades, com Ricardo Preto no papel de diretor criativo. O designer assume que é, na verdade, uma atuação “360”, focada não só na curadoria de produtos e marcas mas no aconselhamento sobre negócios, com base na experiência de décadas no mercado de luxo nacional e internacional. “Sem o Ricardo estávamos feitos ao bife”, brinca Rafael Benzinho, de 26 anos, um dos sócios da marca que nasceu em 202o e desde 2023 funcionava numa espécie de loja secreta no 9º piso do Tivoli da Avenida da Liberdade. “O Ricardo faz tudo por nós, desde a direção criativa, as operações, o marketing, a nossa comunicação, o nosso atendimento ao cliente. É tudo pensado pelo Ricardo e cabe-nos a nós executar. Claro que às vezes não é muito fácil, porque o Ricardo tem ideias muito fora da caixa, mas nós tentamos sempre fazer o melhor que conseguimos”, diz o jovem empreendedor, que é o mais velho dos quatro — Tiago tem 24 e Francisco e Nuno 23. “Chamo-os meninos, porque são todos tão jovens”, diz Ricardo Preto, que explica como entrou no projeto desde a raiz. “Os meninos tinham uma loja no hotel e eu sou muito amigo também da mãe de um deles, que é uma fã do trabalho que faço. E é quando surge a vontade deles de querer sair do hotel e virem para uma loja de rua”, conta o diretor criativo. “E um negócio que era para ser só sneakers, de repente, percebemos que com três pisos poderíamos aproveitar e ampliar a diversidade com uma oferta de produto ao cliente que não vamos ter competitors dentro da avenida”, afirma.
A loja nasceu como um espaço exclusivo para sapatilhas em 2023, depois de três anos de vendas online. “Tinha uma fornecedora em Itália que arranjava marcas de streetwear, de high luxury. E comecei a vender na brincadeira aos meus amigos. Sempre foi algo que eu tive algum interesse. Os meus amigos jogam mais à bola e gostam mais desse tipo de produtos. Entretanto, comecei a comprar ténis ao Tiago (que tinha a Kojo Sneakers). O Tiago, entretanto, estava à procura de loja com o Rafael e acabámos por nos juntar todos no hotel”, conta Francisco Tilli. Agora o espaço tem um andar reservado para os ténis e loafers — o piso principal, que dá acesso à rua e deixa bem evidente qual que é o ADN da marca.
▲ A loja tem três pisos, em que o subsolo está dedicado às peças de roupa, o rés do chão é focado nas sapatilhas e o mezanino tem artigos de perfumaria e acessórios.
Das roupas de streetwear ao gift destination
“Viemos de uma loja de nono andar, em que as pessoas não iam propriamente para a loja, mas sim acabavam por passar porque iam ao restaurante (a loja ficava em frente ao SEEN by Olivier) ou ao hotel. Agora, com uma loja de rua, a dinâmica é totalmente diferente. O tipo de pessoas que vêm aqui é um nicho totalmente diferente do que praticávamos”, diz Francisco. Entretanto, Rafael destaca que há muitos clientes antigos que têm visitado o novo espaço, entre eles alguns jogadores de futebol. “Era um público que já tínhamos na nossa outra loja e não estávamos à espera que continuasse como estava, mas na verdade estamos a verificar que esse público está a vir mais à loja, porque durante o dia é quando eles têm o seu tempo livre e acabam por vir cá. Então agora, como apanhámos as férias de futebol, correu bem para nós”, revela Rafael, que diz que os colegas de Nuno Mendes gostam muito de frequentar o espaço. Aliás, as marcas que estão cá já vestem alguns atletas internacionais. Ao descer as escadas, encontramos as peças de roupas de etiquetas de luxo como a Jacquemus ou a Casablanca, mas também marcas independentes como a francesa Encré que faz peças com bordados à mão, a sustentável Jeanius Bar Atelier, de Londres, ou a Realm, do Porto. “Não pretendemos ser luxury, mas sim um negócio streetwear high end“, explica Ricardo Preto. Uma t-shirt pode custar de 60 a 280 euros, atraindo um público diversificado, interessado em artigos únicos e exclusivos.
Na mezzanine o foco é em acessórios, como óculos de sol, bonés e malas; mas também quer ser uma espécie de gift destination. “É super difícil comprar presente para homens”, explica Ricardo Preto, que justifica a seleção de coffee table books de arte, arquitetura e com estética erótica; produtos de perfumaria Ach. Brito, sabonetes Claus Porto e cerâmica Bordallo Pinheiro. Agora a estratégia passa por criar pop-ups em hotéis — como a que aconteceu em maio no Ritz, e tentar expandir o negócio para outra cidade do País. No futuro, há vontade de criar peças próprias. “Poderíamos criar uma coleção cápsula de essencials, com T-shirts, sweatshirts, calções e calças, com malha desenvolvida para nós, 100% portuguesa”, avança Ricardo Preto, sem esconder o entusiasmo pelo novo projeto. “Está a ser completamente novo para mim. O que me obriga a ter que rever as minhas fórmulas. A moda é sempre uma evolução e um reflexo da nossa sociedade. Este negócio está muito certo para os tempos de agora”, diz o diretor criativo.
O novo desafio de Ricardo Preto
A 3 de julho o designer fez a sua despedida oficial do grupo Amorim Luxury, onde era diretor criativo desde 2021 e coordenava a marca Paula e os restaurantes JNcQUOI. Deixou pronta a coleção outono/inverno 2026: “Essa será a minha última importante coleção. Confesso que já fui abordado por algumas marcas, que ainda não senti que era a marca certa”, diz o designer, que confirma que não estará no cartaz da próxima edição da ModaLisboa. “Sou muito grato à ModaLisboa. É estupendo, não teria o que tenho hoje e não seria reconhecido como sou se não tivesse estado na ModaLisboa”, afirma, garantindo que “nunca é uma porta fechada“.
Neste momento, Ricardo Preto dedica-se a dois projetos de design de interiores particulares (o designer estudou arquitetura e desenvolveu a coleção Paula living com artigos para a casa e decoração) e afirma-se muito aberto a parcerias internacionais apesar de garantir que não quer sair de Portugal, mantendo as duas visitas por ano às Filipinas, onde tem casa e família. A apostar em várias frentes, o criador de moda diz sentir que trabalha muito mais com muito menos esforço. “Não sei se também é uma coisa da idade, ou a experiência destas grandes empresas. Adoro o que faço. Comecei com 14 anos a fazer vitrines de loja. Não tinha dinheiro para comprar os ténis que queria. É muito engraçado chegar aos 52 anos e perceber como a vida foi generosa comigo.”