O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, garantiu este sábado que Portugal quis incluir vários conflitos, entre os quais o “israelo-palestiniano”, na declaração final da cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Em declarações à SIC Notícias, o ministro dos Negócios Estrangeiros português reagiu à notícia de que Portugal estaria contra a inclusão da fome em Gaza numa declaração da CPLP. “Esta notícia é totalmente descabida”, começou por afirmar Paulo Rangel.

Rangel garantiu que “Portugal apenas disse que numa declaração marginal não deveria estar” mencionado o tema da fome em Gaza. “Estamos a falar não é da declaração da CPLP, é de uma declaração de um conselho de segurança alimentar e nutricional que não se refere nem se deve referir aos conflitos. É uma coisa marginal, à margem da cimeira”, afirmou. “Os conflitos são tratados na declaração final”, respondeu ainda o ministro, que destacou que há um ano “na conferência de ministros da CPLP estão lá as referências ao conflito ucraniano e ao conflito israelo-palestiniano.”

Segundo o jornal Público, a referência a que o Governo se opôs tinha sido proposta pela sociedade civil e “condenava todas as formas de violência que punham em causa o direito humano à alimentação, com referência direta à situação na Faixa de Gaza, em particular das crianças palestinianas”.

Entretanto, esta sexta-feira os chefes de Estado e de Governo, reunidos em Bissau na XV Cimeira da CPLP, assinalaram “com apreensão que, em 2025, a fome global continua a crescer”, enquanto “o financiamento humanitário diminuiu drasticamente, comprometendo a resposta internacional a crises”.

Este sábado o dirigente e vice-presidente da bancada socialista João Torres disse à Lusa que o PS viu “com grande estupefação e indignação” a notícia e exige uma “explicação imediata” do Governo sobre a oposição de Portugal a uma referência à insegurança alimentar em Gaza na declaração final da cimeira da CPLP, e afirmando querer ouvir o ministro Paulo Rangel no parlamento.

Ainda em declarações à SIC Notícias, Rangel mostrou-se indignado por o PS se ter associado às críticas do Livre e do PCP. “Os outros partidos não estão habituados a governar e não conhecem estes mecanismos, mas o PS sabe bem o que está em causa nas cimeiras da CPLP”, disse, criticando a atitude dos executivos socialistas anteriores em relação ao conflito israelo-palestiniano.

“O PS alguma vez reconheceu a Palestina? No dia 01 de abril [de 2024] ainda era governo. Quando era o Governo da geringonça, o BE e o PCP fizeram alguma coisa para isso?” — questionou, acrescentando: “O governo de António Costa tinha uma autorização para exportar armas para Israel e fui eu que revoguei isso”.

O “único Governo em Portugal que votou a favor de a Autoridade Palestiniana entrar como membro de pleno direito na ONU, foi o governo presidido pelo doutor Luís Montenegro”, em junho do ano passado, acrescentou ainda Paulo Rangel, que minimizou, mais uma vez, a ausência do Presidente português na cimeira, recordando que também o Brasil, Angola e a Guiné Equatorial não enviaram os seus chefes de Estado. “O juízo de oportunidade que foi feito é que a representação deveria ser esta”, salientou.

A Conferência de chefes de Estado e de Governo da CPLP terminou na sexta-feira sem uma decisão sobre quem irá suceder na presidência à Guiné-Bissau, com os Estados-membros divididos em dois blocos, disseram à Lusa fontes da organização.

Segundo as mesmas fontes, na discussão do ponto, que decorreu à porta fechada, a Guiné-Equatorial reclamou para si a presidência da CPLP entre 2027 e 2029, afirmando ser a sua vez. Do outro lado, o Brasil assumiu-se como candidato.

Os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) apoiaram a pretensão da Guiné-Equatorial, enquanto Lisboa, Brasília e Díli mantiveram-se juntos na ideia de entregar ao Brasil a presidência pós-Guiné-Bissau.

O impasse manteve-se durante horas – sem que os Estados-membros consensualizassem uma solução – com o ponto que esteve agendado para o Conselho Ministros, mas que não chegou sequer a ser discutido na sessão que os chefes das diplomacias dos Estados-membros realizaram na quinta-feira.