Tinha o perfil ideal para entrar em qualquer equipa candidata ao título em Portugal, parecia ser apenas um sonho demasiado alto para qualquer equipa candidata ao título em Portugal. Richard Rios estava há muito a ser seguido pelos três grandes nacionais mas faltou o timing para chegar ao médio colombiano quando ainda estava numa órbita atingível. O ano de 2024 foi exemplo paradigmático disso mesmo: Ruben Amorim tinha quatro posições específicas para reforçar que não o meio-campo, Bruno Lage viu em Manu Silva a melhor opção para dar outra robustez ao setor de forma imediata, Villas-Boas vendeu Nico González para equilibrar as contas e não tinha fundos para mais. Aí, o estatuto do colombiano era um. Agora, já era outro.

Depois de um 2023 com mais de 50 jogos oficiais que fizeram o jogador “explodir”, o ano passado mais não foi do que a confirmação de que Abel Ferreira acertara em pleno num dos melhores médios a jogar no Brasil e na América do Sul apesar da passagem sem grande brilho pelo Flamengo. O internacional de 25 anos foi entrando em mais radares no plano europeu e teve no Mundial de Clubes uma última montra para fazer a despedida mais do que anunciada para outra realidade. Surpresa? Essa realidade ainda era Portugal.

Richard Rios teve uma proposta para a Rússia que seria a mais compensadora em termos financeiros mas recusou uma mudança para o Zenit, que mais tarde acabaria por centrar-se em Gerson, do Flamengo. Depois foi a Roma a passar para a frente da corrida, falando com o jogador que vai com bons olhos uma mudança para a Serie A e para um dos conjuntos históricos de Itália. Mais: a proposta apresentada pelos giallorossi estava próxima daquilo que era pretendido pelo Palmeiras. Assim ficou, com a Roma a querer fechar o mais rapidamente a questão do reforço do meio-campo e a sair das negociações, virando atenções para o médio francês Neil El Aynaoui, do Lens, que chegou ao Olímpico por 23,5 milhões de euros.

Por essa altura, Rui Pedro Braz, diretor desportivo do Benfica, já tinha estado no Brasil sem sucesso. A oferta inicial feita pelos encarnados também não estava longe daquilo que o conjunto de São Paulo pretendia mas Richard Rios tinha uma compromisso verbal com a Roma e pretendia manter-se fiel a esse acordo. Quando os transalpinos saíram da corrida, tudo mudou. E, mesmo havendo clubes ingleses interessados em seguir a situação do colombiano, depois de algumas experiências com sucesso de médios vindos da América do Sul como Bruno Guimarães, Danilo ou André, o Benfica ganhava nova esperança de chegar ao “impossível”.

Na semana passada, era assim que, em termos internos na Luz, Richard Rios era encarado: uma pasta que estava entre o muito difícil e o quase impossível, não pela falta de vontade do jogador mas porque a Roma já tinha convencido o médio a mudar-se. Sem os giallorossi, voltava tudo à estaca zero e a estratégia do Benfica passou por atacar com tudo para ficar na frente da corrida. Conseguiu. Com Rui Pedro Braz no Brasil em negociações com o clube e com os representantes do jogador e com Rui Costa a convencer o jogador através de videochamadas, Rios ficou convencido com o projeto apresentado e os encarnados foram mais longe para chegarem a acordo com o Palmeiras, fechando um negócio que ficará na ordem dos 27 milhões fixos (que vão também para Guarani e Flamengo) com mais três milhões de variáveis canalizados para o jogador, que abdicou dos 10% de uma transferência a que teria direito – e que será a maior contratação de sempre.

Depois da despedida no dia do jogo entre o Verdão e o Atl. Mineiro, Rios embarcou para Portugal para fazer os habituais exames médicos antes de assinar contrato e ser apresentado, com grande aparato policial na chegada ao aeroporto Humberto Delgado para que ninguém conseguisse falar com o colombiano, já com um cachecol do Benfica ao pescoço. O anúncio oficial deverá ser feito entre esta noite e o dia de quarta-feira. No entanto, o médio não será o último reforço dos encarnados. Longe disso. E a aposta forte é para manter.

João Félix será o próximo grande objetivo de Rui Costa para reforçar o plantel à ordem de Bruno Lage, em mais uma pasta que leva várias semanas de negociação ainda sem fim à vista. O avançado português, que depois da contratação pelo Chelsea esteve cedido na segunda metade da última temporada aos italianos do AC Mian, não faz parte dos planos dos blues, que também não olham com bons olhos para a perspetiva de uma nova cedência temporária do internacional português. Numa primeira fase, os encarnados fizeram essa abordagem, passando depois para um momento em que estava em cima da mesa a possibilidade de compra de parte do passe do jogador formado na Luz. É nesse ponto que estão as negociações, com a contratação de Rios a poder fazer com que o Chelsea peça mais do que 20 milhões por 50% do passe.

O agente Jorge Mendes está a intermediar o negócio, que depende também de uma forte redução de salário de João Félix para cumprir essa intenção de voltar à Luz. “Toda a gente sabe que o Benfica é o clube do meu coração. Um dia hei-de voltar certamente. Não sei se é agora ou no futuro. Tenho algumas ideias na minha cabeça, ou ficar em Inglaterra ou voltar ao Benfica. A minha família está cá. Sinto que preciso de estar em casa e daí o Benfica ser uma das ideias na minha cabeça”, disse à CMTV a 5 de julho. “O Benfica é a minha casa. Um dia hei-de voltar. Não sei se é agora ou daqui a alguns anos. Se for agora fico contente”, acrescentou nesse mesmo momento, abrindo a porta para um cenário que ainda não se concretizou.

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O que falta então para fechar o negócio? Ponto principal: dar garantias ao Chelsea que, ficando com 50% dos direitos económicos de João Félix após vender a outra metade por um valor que até pode ficar abaixo dos 30 milhões inicialmente pedidos, não vai perder dinheiro nos anos seguintes face a um jogador que levou a um investimento de 52 milhões de euros fixos mais dez milhões em variáveis. É este ponto que Rui Costa espera resolver nos próximos dias, sendo que a questão salarial não será impedimento para um regresso do avançado à Luz (ficando como um dos vencimentos mais altos) que é também muito desejado por Lage.

A par da questão Félix, e numa fase em que são cada vez mais as notícias que chegam da Turquia a dar conta do interesse do Besiktas em levar Kerem Aktürkoglu depois de Orkun Kökçü (que saiu por empréstimo mas com uma cláusula de compra obrigatória de 25 milhões de euros, com mais cinco milhões de variáveis), o Benfica continua a apontar para a contratação de mais um ala. Entre vários jogadores que estão referenciados para a posição, o mercado neerlandês e belga parece ganhar terreno como opção, com Anis Hadj-Moussa, argelino de 23 anos do Feyenoord formado no Lens, a ser uma das hipóteses mais fortes.

[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]